24.07.2014

:: De: João Grilo e Chicó -- para: Ariano Suassuna ::

João GriloHá tempos eu não via uma homenagem tão bacana, belíssima mesmo -- e ainda mais nesses tempos em que se vão João Ubaldo, Rubem Alves... e, agora, o Mestre Ariano Suassuna.

Mas os atores Matheus Nachtergale e Selton Mello -- ou melhor, o João Grilo e o Chicó -- deixam provas de que a obra de um autor é muito maior do que ela mesma. Eles mostram, nos belos textos-homenagens ao Mestre Suassuna, que não apenas interpretaram as personagens (o que não lhes tira os méritos como atores, ótimos), mas incorporaram a filosofia armorial, a crítica, o bom humor e a verve do Suassuna.

Entre inúmeros outros textos, mais ou menos críticos, destaco as homenagens do João Grilo e do Chicó por terem sido duas personagens que popularizaram a obra do Mestre, com o *Auto da Compadecida*, dirigido por Guel Arraes em 2000, inspirado na peça homônima que Suassuna escreveu em 1955.


"Carta para Ariano,

Quem te escreve agora é o Cavalo do teu Grilo. Um dos cavalos do teu Grilo. Aquele que te sente todos os dias, nas ruas, nos bares, nas casas. Toda vez que alguém, homem, mulher, criança ou velho, me acena sorrindo e nos olhos contentes me salva da morte ao me ver Grilo.

Esse que te escreve já foi cavalgado por loucos caubóis: por Jó, cavaleiro sábio que insistia na pergunta primordial. Por Trepliev, infantil édipo de talento transbordante e melancólicas desculpas. Fui domado por cavaleiros de Shakespeare, de Nelson, de Tchekov. Fui duas vezes cavalgado por Dias Gomes. Adentrei perigosas veredas guiado por Carrière, por Büchner e Yeats. Mas de todos eles, meu favorito foi teu Grilo.

O Grilo colocou em mim rédeas de sisal, sem forçar com ferros minha boca cansada. Sentou-se sem cela e estribo, à pelo e sem chicote, no lombo dolorido de mim e nele descansou. Não corria em cavalgada. Buscava sem fim uma paragem de bom pasto, uma várzea verde entre a secura dos nossos caminhos. Me fazia sorrir tanto que eu, cavalo, não notava a aridez da caminhada. Eu era feliz e magro e desdentado e inteligente. Eu deixava o cavaleiro guiar a marcha e mal percebia a beleza da dor dele. O tamanho da dor dele. O amor que já sentia por ele, e por você, Ariano.

Depois do Grilo de você, e que é você, virei cavalo mimado, que não aceita ser domado, que encontra saídas pelas cêrcas de arame farpado, e encontra sempre uma sombra, um riachinho, um capim bom. Você Ariano, e teu João Grilo, me levaram para onde há verde gramagem eterna. Fui com vocês para a morada dos corações de toda gente daqui desse país bonito e duro.

Depois do Grilo de você, que é você também, que sou eu, fui morar lá no rancho dos arquétipos, onde tem néctar de mel, água fresca e uma sombra brasileira, com rede de chita e tudo. De lá, vê-se a pedra do reino, uns cariris secos e coloridos, uns reis e uns santos. De lá, vejo você na cadeira de balanço de palhinha, contando, todo elegante, uma mesma linda estória pra nós. Um beijo, meu melhor cavaleiro.

Teu,
Matheus Nachtergale"
.::|::."E o Brasil ficou mais pobre.
E triste.
Ariano, poeta entendedor do Brasil profundo.
Defensor de nossa riqueza cultural e emocional.
Sua obra descomunal fica para sempre.
Tive a honraria graúda de dar vida a um de seus passarinhos (era como se referia a seus personagens queridos).
Chicó fui eu, Chicó é Ariano, Chicó é tu.
Chicó e João Grilo têm morada no coração dos brasileiros.
E na minha mente e coração sempre estarão gravadas as palavras sublimes que proferi em O Auto da Compadecida:

"Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados."

Celebre-se o homem, celebre-se o brasileiro, celebre-se o artesão das palavras.
E se um dia perguntarem se tudo que criou foi exatamente assim como ele idealizou, imaginarei Ariano dizendo com um sorriso de menino nos lábios: "Não sei, só sei que foi assim.""

Selton Mello


No vídeo, trecho do filme com o julgamento do João Grilo, que tem por advogada Nossa Senhora:



Por Paulo Bicarato, às 13:33 de 24.07.2014 - Comentem!
Categoria: Biblios

15.07.2014

:: Balada para un Loco ::

Astor Piazzolla & Amelita Baltar - *Balada para un loco*

Letra e versão em português aqui.

Por Paulo Bicarato, às 14:30 de 15.07.2014 - Comentem!
Categoria: Pensatas

13.06.2014

:: Walk Again ::

Miguel Nicolelis: o pontapé foi apenas o primeiro passo. Conheça os bastidores do projeto Walk Again.


Por Paulo Bicarato, às 14:34 de 13.06.2014 - Comentem!
Categoria: Primeira Edição

23.05.2014

:: Ô, fôia, quéisso? ::

Tem colega aqui que jura que é *apenas* um errinho, um clique errado na hora de publicar. A Pollyana concorda, mas eu fico mêsss é com o sifonáptero na parte posterior do pavilhão auricular. Cumãssim?

Matéria publicada no site (não vi na edição impressa, recebo a edição regional), aqui, com data de ontem, 23/5, quando salvei a tela, traz materinha recauchutada e deixa explícita a data original: 29/5/2001 -- sim, isso mêss: 13 anos atrás!

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Fui lá nos arquivos digitais da própria fôia, aqui -- a data é da edição impressa, 30/5/2001:

folha02


Sei lá, entendem? Tirem suas conclusões.

O post original do feicebúqui tá aqui, com a tela salva no dia 20/5.
Por Paulo Bicarato, às 15:56 de 23.05.2014 - Comentem!
Categoria: PretoNoBranco

22.04.2014

:: Manual do Polemista de Plantão ::

Segundo as lições de tio rei, a fórmula não é muito complicada, mas é preciso atenção pa sincronizar todos os elementos de forma a parecer (só parecer) algo coerente e uniforme. Vamos lá:
- odeie as esquerdas, todas! se você teve a desventura de nascer canhoto, aplique o cilício em penitência eterna, e esforce-se por escrever com a mão direita (isso vai entortar ainda mais sua escrita);
- seja politicamente correto, mas ao contrário: destile toda sua verborragia contra mulheres, gays, minorias, índios, negros, pobres, o papa, as mães dos esquerdistas, as avós dos esquerdistas, o Lula (pai dos esquerdistas), qualquer coisa que remeta à cor vermelha, qualquer coisa que fale em igualdade, fraternidade;
- cultue a tradição, a família e a propriedade como se vivêssemos no século XIV, por aí;
- vá aos EUA pelo menos uma vez por ano, pra se desintoxicar desse paisinho subdesenvolvido em que teve o azar de nascer e é condenado a viver -- e exiba, orgulhoso, como você consumiu e consumiu e consumiu (você não *gasta*, *consome*) em um monte de tanqueiras desnecessárias e passeios insossos;
- eleja uma crise por mês -- na falta de opção, ponha sempre a culpa no preço do tomate: é batata!;
- em seus textos, deixe pra lá a coerência, inclusive a formal: qualquer relação causal entre os fatos (negativos) e os culpados (sempre o governo, claro) é absolutamente dispensável -- a falácia é sua arma mais poderosa;
- destile ódio e não poupe adjetivos, principalmente exaltando seu rico vocabulário (ninguém precisa entender mesmo);
- pode deixar explícito seu insucesso amoroso, e revele que sua adolescência foi frustrada (porque sempre pautada pela *razão*, deixando as *paixões*, ora, pros fracos e sensíveis) -- assim você se exime de culpa e se torna vítima do aparelhamento ideológico a que fomos submetidos;
- seja chato, babaca, imbecil, e comemore as pedradas com o gozo de quem não sabe e nem quer aprender a gozar (é uma gozação pra com os outros e pra consigo mesmo, entende?).
Alguém mais tem dicas?

P.S.: post sujeito a atualizações permanentes, devido à *riqueza* do tema...
Por Paulo Bicarato, às 16:02 de 22.04.2014 - 1 já comentou aqui
Categoria: PretoNoBranco

27.03.2014

:: Pegue sua Toalha ::

Se vai ter água, é mero detalhe.
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*A toalha é um dos objetos mais úteis para um mochileiro interestelar. Em parte devido a seu valor prático: você pode usar a toalha como agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes praias de areia marmórea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores marítimos; você pode dormir debaixo dela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desértico de Kakrafoon; pode usá-la como vela para descer numa minijangada as águas lentas e pesadas do rio Moth; pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em um combate corpo a corpo; enrolá-la em torno da cabeça para proteger-se de emanações tóxicas ou para evitar o olhar da Terrível Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se você não pode vê-lo, ele também não pode ver você -- estúpido feito uma anta, mas muito, muito voraz); você pode agitar a toalha em situações de emergência para pedir socorro; e naturalmente pode usá-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa.

Porém o mais importante é o imenso valor psicológico da toalha. Por algum motivo, quando um estrito (isto é, um não-mochileiro) descobre que um mochileiro tem uma toalha, ele automaticamente conclui que ele tem também escova de dentes, esponja, sabonete, lata de biscoitos, garrafinha de aguardente, bússola, mapa, barbante, repelente, capa de chuva, traje espacial, etc, etc. Além disso, o estrito terá prazer em emprestar ao mochileiro qualquer um desses objetos, ou muitos outros, que o mochileiro por acaso tenha “acidentalmente perdido”. O que o estrito vai pensar é que, se um sujeito é capaz de rodar por toda a Galáxia, acampar, pedir carona, lutar contra terríveis obstáculos, dar a volta por cima e ainda assim saber onde está sua toalha, esse sujeito claramente merece respeito.*
Isso tudo porque acabamos de receber um aviso:
*Povo da Terra, atenção, por favor.
Aqui fala Prostetnic Vogon Jeltz, do Conselho de Planejamento do Hiperespaço Galático. Como todos vocês certamente já sabem, os planos para o desenvolvimento das regiões periféricas da Galáxia exigem a construção de uma via expressa hiperespacial que passa pelo seu sistema estelar e infelizmente o seu planeta é um dos que terão que ser demolidos. O processo levará pouco menos de dois minutos terrestres. Obrigado.*

[terror!]

*Esta surpresa é injustificável. Todos os planos do projeto, bem como a ordem de demolição, estão em exposição no seu departamento local de planejamento, em Alfa Centauro, a 50 dos seus anos terrestres, e portanto todos vocês tiveram muito tempo para apresentar qualquer reclamação formal, e agora é tarde demais para criar caso.*

[mais terror, e alguém consegue enviar uma mensagem aos Vogons]

*Como assim, nunca estiveram em Alfa Centauro? Ora bolas, humanidade, fica só a quatro anos-luz daqui! Desculpem, mas se vocês não se dão ao trabalho de se interessar pelas questões locais, o problema é de vocês.*
Tô eu relendo, depois de uns bons anos, *O guia do mochileiro das galáxias*. Quando do informe e comentários do digníssimo Prostetnic Vogon Jeltz, do Conselho de Planejamento do Hiperespaço Galático, não consegui deixar de associar com a atual situação que vivemos com relação ao abastecimento de água na Grande São Paulo, e as brilhantes *propostas* do sr. governador -- o projeto existe, tá logo ali em Alfa Centauro, e a culpa é nossa por não termos tido interesse em conhecê-lo...

Baseado na prestigiosa colaboração do brôu Marcelo], a conclusão:
Alpha Tauri, ou α Tau, ou الدبران, ou ainda Aldebaran, fonte de energia de 39 galáxias, vai vendo, quase impotente, sua capacidade de produção e distribuição caindo a cada dia, por absoluta falta de competência do Comitê Estelar.

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Por Paulo Bicarato, às 17:02 de 27.03.2014 - Comentem!
Categoria: Primeira Edição

19.02.2014

::

Direto de Passos (MG), mas via Sampa, o copoanheiro Rai manda a homenagem pra Dona Çote, tia dele -- e, com certeza, *tia* de muita gente por lá... As Minas, e o mundo, ficam menos doces, mas deixam doces lembranças.

Tacho_a.jpg

Tacho_b.jpg

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:: Dona Çote ::

Um trago amargo
inunda o mundo
a cada vez que
morre
uma doceira
em Minas.
Ficam órfãos os filhos,
sobrinhos, netos, bisnetos,
as frutas e os tachos.
Perdem-se todos
os pontos.
Perdem-se as línguas.
Amolecem-se
os mármores
de cortar pedaços.
Choram torneiras
para dentro dos sacos
eternamente brancos
de se lavar
cidras amarguradas.
Suspendem-se
descalços
os pés de todos
os moleques.
Dessaborizam-se
os sonhos infantis.
Mela-se o voo das
abelhinhas,
perdidas,
em derredor.
Atordoam-se as
chaminés,
sufocam-se as
fornalhas e
entristecem-se as
escumadeiras.
Entardecem-se os dias
sem doçuras.
Deus devia
deixar a elas
que também
vivessem para
sempre
aqui na terra.
Iguais as
lembranças suas.
Por Paulo Bicarato, às 14:12 de 19.02.2014 - Comentem!
Categoria: Etilíricas

29.01.2014

:: Emborná ::

Eis meu alforje ou emborná ou picuá ou matula ou... e seus adereços:
- bottom *criei, tive como*: presente do Felipe Fonseca
- miniaturas MetaRec e open hardware, feitas em impressora 3D: presentes do Otávio Savietto
- o próprio alforje, direto de São Thomé das Letras: presente do Dalmo Garcia
- graffiti ao fundo: obra do Tainã Moreno

Gracias, mutchas gracias, camaradas! :-)

matula.jpg
Por Paulo Bicarato, às 09:47 de 29.01.2014 -
Categoria: Linux Vida Open Source

08.01.2014

:: Valeu, 2013! ::

É, eu fui um dos que não viam a hora de 2013 terminar. A impressão é a de que a Copa do Mundo chegaria, mas o ano teimava em continuar ali, reservando algumas pegadinhas até os últimos segundos -- ou depois, ainda.

Mas quero me redimir e pedir desculpas e, mais, agradecer a 2013: foi um ano difícil, sim, mas um ano de muito aprendizado, de muitas alegrias, de emoções várias. O ano, o mês, o dia são criações arbitrárias (por mais que sejam regidos por rotações e translações etc.), e servem como marcos pra renovação constante, pra esperança ganhar fôlego, como disse o Drummond.

Em resumo: valeu, 2013! E que 2014 venha com tudo, como novos e diferentes desafios, alegrias, emoções -- e surpresas!
Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. 


Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente.

Para você, desejo o sonho realizado. O amor esperado. 
A esperança renovada. 


Para você, desejo todas as cores desta vida. Todas as alegrias que puder sorrir, todas as músicas que puder emocionar. 


Para você neste novo ano, desejo que os amigos sejam mais cúmplices, que sua família esteja mais unida, que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe desejar tantas coisas. Mas nada seria suficiente para repassar o que realmente desejo a você. Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos. Desejos grandes e que eles possam te mover a cada minuto, rumo à sua felicidade!

- Carlos Drummond de Andrade
Por Paulo Bicarato, às 13:32 de 08.01.2014 - Comentem!
Categoria: Pensatas

03.01.2014

:: Em 2014... ::

Sei que não devia me assustar mais com as artimanhas e estratégias publicitárias e marquetísticas (até porque, a essa altura, tô mais pra publicitário do que pra jornalista...), mas certas coisas incomodam. E muito. Quando um verbo tão belo como *compartilhar* passa a ser sinônimo de sucesso comercial feicebuquiano -- como li na *análise* de um expert, que ironizou o sentido fraterno e franciscano do termo --, ou quando outro verbo, *desapegar*, também é totalmente subvertido e vira mote pra um site de vendas online, penso que são sinais de que a inversão de valores tá chegando a um ponto insustentável.

Nesse mundinho consumista, em que tudo e todos são mercadorias e em que a competitividade vira agresssividade e é estimulada a níveis fatais, palavras como *ganhar* e *perder* deixam de ser apenas antagônicas -- a semântica se extrapola e, de verbos, passam a ter contornos adjetivados: a primeira, sinônimo de sucesso; a segunda, de fracasso.

Mas eis que me deparo com um textinho do Alexandre Caliman que me serve de alívio:
Desejo que o próximo ano seja um ano de muitas perdas, pra mim e pra você. Vamos perder tempo jogando conversa fora. Vamos perder a pressa. Vamos perder a culpa, o medo de amar. Vamos perder a cabeça, nos apaixonar todos os dias. Vamos perder a vergonha. Perder o juízo quando o coração pedir, desejar, implorar... Vamos perder nossa certezas, o ódio, o preconceito, as "frescuras", os melindres, o ego. Vamos perder tudo aquilo que a gente sabe que é bom perder (e a gente sabe)! E... quando a gente perder o que não quer... vamos perder a mania de achar que somos perdedores. A gente não perde nada, porque nada, nem ninguém, nos pertence de fato...
Faço minhas as palavras do Caliman. E, nessa linha, gostaria de complementar, reforçando o mantra que rezo todas as manhãs e somando aos votos de saúde&paz&amor e ao meu eterno agradecimento por tudo o que aprendi e vivo aprendendo todos os dias:
Desejo, sim, de coração, que eu e todos ganhemos muito esse ano. Mas como ninguém ganha nada de graça, e nada vem de graça, nem o pão nem a cachaça, que eu tenha a graça de alimentar a cada dia minha fé e minha esperança em dias melhores, em um mundo mais justo e humano. Que eu tenha coragem pra encarar as adversidades, aliada à sabedoria de estar sempre pronto a aprender mais e à humildade de reconhecer os meus limites. E que possamos, todos os dias, desfrutar e espalhar e compartilhar a alegria -- e o prazer -- de saber ver a beleza de um sorriso, de um abraço, de brincar e de não se levar a sério demais.
Por Paulo Bicarato, às 15:55 de 03.01.2014 - Comentem!
Categoria: Pensatas

02.01.2014

:: Back to the 90's ::

alfa_retro.jpg


Tá estranhando essa imagem? Pois veja então ela *animada*, cheia de gifzinhos e otras cositas típicas lá dos anos 90, início dos 2000, quando o Geocities ainda imperava. O resultado é do projeto Deleted City, de arqueologia digital, do designer Richard Vigjen. Se quiser ver como seria o seu site naqueles moldes, confira aqui.

[Confira a matéria e a entrevista completas com o idealizador do projeto na revista SeLeCt]

Por Paulo Bicarato, às 15:41 de 02.01.2014 - Comentem!
Categoria: Tecnologices

23.12.2013

:: Crise de Identidade ::

Duas menininhas mais do que lindinhas, umas graças mesmo! E, além de tudo, espertas. E, mais ainda, filhas de amigos mais-que-queridos: a Sofia, filha da Renatinha e do Paulo, e a Maria Porã, filha do Wendell e da Flavinha.

As duas têm mais ou menos a mesma idade, na faixa dos dois aninhos. Mas têm uma diferença enorme, e que tá me deixando encafifado -- cada uma me vê (sim, eu mêsss!) de maneiras um tanto distintas, pra não dizer antagônicas:
- pra Sofia, eu sou sinônimo de *trabalho*: imitando a mãe, ela fica pra lá e pra cá com o celularzinho de brinquedo na orelha, *conversando* com o... *Bica*! *Tô trabaiando, mamãe!*

- já a Porãzinha... Outro dia, a família foi dar um rolê em Parahytinga, São Luís. Chegando na praça, ela viu de longe um hippie, cabelo comprido e tal, montando seus artesanatos. Virou pro pai e pra mãe e apontou: *ó o tio Bica, tio Bica!*
Bom, dizem (e acredito) que criança tem o olhar puro, e se solta umas dessas assim, espontaneamente, só posso deduzir que é exatamente como me vêem, cada uma com seu cada qual ponto de vista. Mas, quanto a mim, só digo que as duas menininhas, do alto de seus dois aninhos de idade, estão me provocando uma crise de identidade daquelas... E aí? [clique pra ampliar]

Assim?
bicatrampo.jpg
.::|::.Ou assim?
bicachapada1.jpg
Por Paulo Bicarato, às 15:36 de 23.12.2013 - Comentem!
Categoria: Egotrip

12.12.2013

:: Cesso Contumélias ::

Há tempos eu procurava essa carta que li, se não me engano, no extinto Folhetim (ah, isso é quando a Folha de S.Paulo ainda era legível...). E carta ao diplomata Jorge Kirchhofer Cabral, o mestre Guimarães Rosa critica e cobra o colega e conta causo, e desfia seu vocabulário usando somente palavras iniciadas com a letra *C*. Deliciem-se:
Cônsul caro colega Cabral,

Compareço, confirmando chegada cordial carta.

Contestando, concordo, contente, com cambiamento comunicações conjunto colegas, conforme citada consolidação confraria camaradagem consular. Conte comigo: comprometo-me cumprir cabalmente, cabralmente condições compendiadas cláusulas contexto clássico código. (Contristado, cumpre-me consolidação coligar cordialmente conjunto colegas?... crês?... crédulo!... considera:... "cobra come cobra!..." coletividade cônsules compatrícios contém, corroendo cerne, contubérnios cubiçosos, clãs, críticos, camarilhas colitigantes... contrastando, contam-se, claro, corretos contratipos, capazes, camaradas completos.) Concluindo: contentemo-nos com correspondermo-nos, caro Cabral, como coirmãos compreensivos, colaborando com colegas camaradas, combatendo corja contumaz!...

Contudo, com comedida cólera, coloco-me contra certos conceitos contidos carta caro colega, cujas conclusões, crassamente cominatórias, combato, classificando-as como corolários cavilosos, causados conturbação critério, comparável consequências copiosa congestão cerebral. Caso concordes cancelá-los , confraternizaremos completamente, com compreenção calorosa, cuja comemoração celebrarei consumindo cinco chopes (cerveja composta, contendo coisas capiciosas: corantes complicados, copiando cevada, causando cólicas cruéis...)

Céus! Convém cobrar compostura. Cesso contumélias, começando contar coisas cabíveis, crônica comtemporânea: como comprovo, continuo coexistindo concerto conviventes coevos, contradizendo crença conterrâneos cariocas, certamente contando com completa combustão, cremação, calcinação corpos cônsules caipiras cisatlânticos...

Calma completa? Contrário! Cessado crepúsculo, céu continuamente crepitante. Convergem cimo curvos clarões catanúvens, cobrindo campinas celestes, crivadas constelações.

Convidados comparecem, como corujas corajosas, contra cidade camuflada. Coruscam célebres coriscos coloridos. Côncavo celeste converte-se cintilante caverna caótica, como casa comadre camarada. Crebro, cavernoso, colérico, clama colossal canhonêio. Canhões cospem cometas com cauda carmesim. Caem coisas cilindro-cônicas, calibrosas, compactas, com carga centrífuga, conteúdo capaz converter casas cascalho, corpos compota, crâneos canjica. Cavam-se ciclópicas crateras (cultura couve-colosso...). Cacos cápsulas contraaéreas completam carnificina. Correndo, (canta, canta calcanhar!...) conjurando Churchil, conjeturando Coventry, campeio competente cobertura, convidativo cantinho, coso-me com chão, cautelosamente. Credo! (como conseguir colocar-me chão carioca Confeitaria Colombo, C.C., Copacabana, Catumbi???)
Cubiço, como creme capitoso, consulados Calcutá, Cobija!... Calma, calma; conseguiremos conservar carcaças.

Contestando, comunico cá conseguimos comboiar cobre captado (colheita consular comum), creditando-o cofres consignatário competente, calculo consegui-lo-ás, contanto caves corajosamente.

Conforme contas, consideras cós curtos como cômoda conjuntura, configuradora cinematográficoa contornos carnes cubicáveis. Curioso! Caso curtificação continue, conseguiremos conhecer coxas, calças?...Cáspite
Continuarei contando. Com comoção consentânea com cogitações contemporâneas, costumo compor canções. Convém conhêças:

Cantada

Caso contigo, Carmela
Caso cumpras condição
Cobrarei casa, comida,
Cama, cavalo, canção
Carinho, cobres, cachaça,
Carnaval camaradão
Cassino (com conta certa)
Cerveja, coleira e cão,
Chevrole cinco cilindros
Canja e consideração,
Calista, cabelereiro
Cinema, calefação,
Chá, café, confeitaria,
Chocolate, chimarrão
Casemira – cinco cortes
Cada compra, comissão,
Conforto, comodidades,
Cachimbo, calma,... caixão,
Convem-te, cara Carmela?
Cherubim!...Consolação!...
(caso contrário, cabaças!
Casarei com Conceição.)
Caso contigo, Carmela,
Correndo com coração!...

Chega. Caceteei? Consola-te: concluí.

Com cordial, comovido: colega constante camarada,

Consul, capitão, clínico conceituado.

Confirme chegada carta, comunicando-me com cartão.

João Guimarães Rosa
Por Paulo Bicarato, às 14:01 de 12.12.2013 - 1 já comentou aqui
Categoria: Biblios

02.12.2013

:: (Meu) Dia do Samba ::

*Quem não gosta de samba bom sujeito não é: ou é ruim da cabeça ou doente do pé.*

A descrição cabe mais ou menos pra este alfarrabista, que foi nascer justamente no Dia do Samba -- sim, este 2 de dezembro. A cachola não é lá essas coisas, e os pés, tadinhos, já judiei muito deles... Mas aprecio sim um bom samba: taí o Martinho da Vila, que conheci num disco que minha mãe comprou lá na século passado. E, se é meu aniversário, só posso comemorar por ter esse presente maravilhoso que é a querídola Rose: *ó linda imagem de mulher que me seduz...*



E, aliás, hoje descubro a original, do Francisco Alves, lá de 1952:


Segundo clichê: samba, zambra, zambo, zamba, batuque, lundu, jongo, maculelê, samba-de-roda, maxixe, tambor de crioula, partido-alto... tó, tem mais aqui.
Por Paulo Bicarato, às 12:12 de 02.12.2013 - Comentem!
Categoria: Egotrip

08.11.2013

:: Pérsio, o Cantadô-Contadô de Causo ::

Pra começar, deixemos que o próprio se apresente:



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Pérsio e a querídola Rose, na Beira do Riacho
Chapéu de palha, o indefectível cigarrinho também de palha, o cavanhaque e o rabinho de cavalo (também parecendo de palha), o inquebrantável bom humor mesclado à indignação pra com as injustiças sociais, a eterna militância pelo bem, pela beleza ética e estética. O retrato é simplório, sei, mas resume como eu sempre o vi -- e, claro, junte-se aí o fato de o camarada ser um cantor e compositor de primeira linha, mais um contadô de causo de uma memória privilegiada, e temos um figura ímpar: Pérsio Assunção.

*Ô, meu chapa!* A saudação sempre vinha acompanhada do abraço sincero e do sorriso bonachão. Bom de papo e de copo, não recusava um convite pra cerveja (sempre meio-quente, pra não ferir as cordas vocais) e a cachacinha, de preferência num boteco pé-sujo. Há pouco mais de um ano, mudou-se pra Ubatuba, *pra ficar pertinho da mãe* -- desde então, não foram poucas as vezes em que me ligava, nos horários e dias mais improváveis, só pra dizer que estava admirando o mar e tomando uma cervejinha: *lembrei docê, cabôclo*. (Fosse outra pessoa que ligasse no horário de trabalho, diria que é provocação; mas no caso do Pérsio era mesmo uma espécie de *cobrança* por eu só ficar adiando uma descida da serra...)

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Comigo com a *chefinha* Nydia, também na Beira do Riacho
Paulistano da Freguesia do Ó, veio aqui pro Vale do Paraíba em 1986. Em mais de 20 anos de carreira, viajou e mochilou pelos vários *Brasis*, como gostava de falar. Desceu o Rio São Francisco e andou pelo sertão nordestino, percorreu a Amazônia desde a Ilha do Marajó até o Acre. Cantou pelo Pantanal e pelos Pampas Gaúchos, além de atravessar fronteiras e levar sua música e sua prosa pra Buenos Aires, Assunción e várias cidades da Bolívia e do Peru (Puno, Cuzco e Puerto Maldonado, na Amazônia peruana).

Em São José dos Campos gravou, em 1990, o disco (LP) *Língua de Violeiro*, com a participação de 25 artistas da região como músicos convidados. Mudou-se para Curitiba em 1993, onde viveu até 2003, quando retornou pro Vale. Ficou fora dos palcos por uns tempos, quando trabalhou na Fundação Cultural de Curitiba, Fundação Cultural Cassiano Ricardo (de São José dos Campos) e Fundação Cultural de Jacarehy. Mesmo com a insistência dos amigos, só foi montar seu último espetáculo em 2010, *Meio amargo/Meio doce – Causos & Cantoria*, em que interpretou composições antigas e inéditas de sua autoria, além de músicas de outros compositores, como *Lua Bonita*, de Zé do Norte e Zé Martins (que foi tema do filme *O Cangaceiro*, de 1953), e ainda *Amor de Beija Flor*, de Carlos Alberto Leal, o Cal.

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Apreciando, como sempre, uma boa cachaça
Apesar de toda essa rica carreira, o Pérsio é daqueles que mereciam um reconhecimento maior. Esse privilégio (ou dever!) ficou pros amigos, que ele sempre alimentou fielmente. Mas que ninguém o convidasse pra tocar e cantar e contar causo num boteco ou numa festa: orgulhoso e ciente do potencial, se recusava a ser um mero *animador de ambiente* -- quando se apresentava era pra ser ouvido e apreciado e degustado, como mesmo era pra ser.

Na quarta-feira, dia 6, o Pérsião foi cantar e contar causo em outras paragens-dimensões. Dono de um coração enorme, foi vítima desse mesmo coração que talvez não encontrasse por aqui o carinho correspondente ao que dedicava aos amigos e à sua arte. Deixa saudades, muitas saudades, mas também o exemplo de alegria contagiante e de amor à nossa cultura mais pura, sem deixar de lado sua erudição e formação musical. O Brasil ficou menos melodioso.

'Brigado, meu chapa! De coração!



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Com vocês, um pouco do nosso querido Pérsio:

Aqui, na Rádio Aguapé, com o Cesinha:


E, pra copletar, uma entrevista (dois blocos) à TV Câmara de Jacareí, feita pelo Rodrigo Romero:





E uma reportagem sobre o cantadôe suas andanças por esse Brasilzão-sem-frontêra:

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Por Paulo Bicarato, às 15:19 de 08.11.2013 - 5 comentários
Categoria: Etilíricas