Depois de passados alguns meses da chamada inicial o Mutirão conseguiu reunir material de diversos autores, relatando de imagens e práticas até críticas e ensaios.
Cruzeta, Rio Grande do Norte: *já tomei dois, vô tomá mais treis pra renová...* E os pacatos moradores podem ser... presos. [Não tenho informações sobre a data da reportagem.]
Tá, tudo bem, talvez peque pelo excesso. Mas a dica do @meu irmão vale -- e rende umas boas risadas (quando não explicita as tragédias cometidas pelos coleguinhas):
Sob a manchete que grita que o *Vale do Paraíba é a região mais violenta do estado de São Paulo*, a foto se abre em seis colunas e ocupa quase toda a capa do jornal. O azul do céu emoldura três policiais, armas em punho, avançando por entre barracos do que se supõe uma favela. Fica explícita a relação *violência – miséria – repressão*.
Na reportagem, página inteira ilustrada por mais fotos de PMs em ação. Em todos os textos, números e mais números se sucedem, a partir de estatísticas da Secretaria da Segurança Pública, entremeados por frases burocráticas que ressaltam a necessidade de um *plano de ação para frear o aumento da violência*, que tem *forte relação com o tráfico de drogas*, definido como *prioridade* para o combate. Análises superficiais, ainda que vindas de especialistas renomados, atribuem as causas a um *problema de gestão* que culminam na óbvia constatação de que *a estratégia atual não está funcionando*, com ressalvas de que a *polícia foi mais eficaz, prendendo e apreendendo mais*.
O tom geral: segurança pública é sinônimo de repressão, e de todos os lados a solução aponta para a necessidade do *aumento do efetivo policial*. Depois de percorrer a página inteira, somente no último parágrafo do último texto há a menção ao fato de que *políticas de prevenção ao crime são tímidas e as ações de segurança pública, desarticuladas*, e a constatação que deveria ser a primeira de todas: *não há políticas preventivas, como investimentos em lazer, esporte e cultura*. Prevenção, portanto, é o de menos.
No mesmo dia, ficamos sabendo que o governador paulista quer trocar o nome da Polícia Militar para *Força Pública*, com a intenção de *aproximar a polícia da população*. Bela jogada de marketing: seria o primeiro estado em que a polícia ficaria sem o termo *militar* -– a expressão *Polícia Militar* passou a ser utilizada em 1970, durante a ditadura, por imposição do Exército.
Da análise fria do jornal, com números exibidos às pencas para corroborar a necessidade de mais e mais repressão, ao marketing oportunista (redundância, né?), parece que ninguém se lembra que a construção de cidades estéreis, que nos distanciam uns dos outros, é um modelo absolutamente fracassado. Sem que seja revista toda a nossa concepção de cidade -– enquanto espaços de convivência, por excelência -–, qualquer repressão só vai estimular mais violência.
Lá nos anos 1960, Jane Jacobs lançou o *Vida e Morte das Grandes Cidades*. Em resumo, ela dizia apenas que a rua quando movimentada, frequentada e apropriada é capaz de garantir a única segurança contra a violência: basta a presença do outro. Simples, e nem precisa de repressão.
Momentos de instabilidade aqui no Alfarrábio, que ativaram os sensores de (in)segurança. Algum sacana hackeou o blog -- é, não chegou a crackear --, que estava sendo redirecionado prum outro endereço. Graças, porém, à valiosa colaboração do copoanheiro Adauto[se precisarem de um adevogado-hacker, podem falar comigo -- cobro só 10% de comissão, fora a cerveja], o código virulento foi estirpado. Mas, como já vínhamos cogitando há algum tempo, foi mais um sinal pra que migremos, definitivamente, do Nucleus pro Wordpress. Vou estudar um pouquinho[RTFM!], mas se alguém tiver alguma dica, agradeço.
Entre os debates mais interessantes e originais da Campus Party, estavam a discussão sobre a brasileiríssima gambiarra como elemento de evolução tecnológica [...]
Um exemplo de como o Estadão, ao lado da TV Cultura, foi dos poucos veículos da “grande mídia” que souberam ver além a Campus Party. Sobre o verbo ver, aliás, sintonias finas: abro o reader hoje e dou de cara com um post do Cyrano:
Ver enxergar
É preciso atentar para as inverossimelhanças.
E, no espírito #mutsaz-gambiarra-cparty, o desafio de ver:
Ó p'cê vê: tautologia insistente, persistente, implora de maneira direta a que -- só isso! -- exercitemos um sentido vital de percepção do mundo. É como um clamor para que do sentido quase desprezado passemos à contemplação, percepção, interpretação, compreensão: o sentido além do sentido. Na corruptela, um resumo do possível-necessário. Olhe, veja bem... da simplicidade da expressão popular à profundidade do(s) significado(s), qualquer verborragia – como esta – é vã. Até vil. O conselho-ordem exprime por si a urgência de não apenas se render às evidências, e encará-las, mas desembaçar a miopia, abrir-se às potencialidades do não-sensível, re-significar o invisível (o essencial?). O senhor mire veja: tatear olfatos, degustar silêncios – é coisa perigosa. Viver é perigoso. Mas a mesma redundância reforça o pedido para que o outro compartilhe essas percepções. E exclama: “é óbvio”! Olhe, mire, veja! Verbos imperativos ou humildes pedintes? “Careço só de óculos não, doutor”, me lembra meu Miguilim.
2010 chegou com tudo. Tragédias em São Luiz do Paraitinga e Cunha, enchentes em São Paulo, mortes e destruição abrem o ano com um clima pesado, cabendo ao Haiti o tristíssimo papel de protagonizar as cenas mais chocantes dos últimos tempos. No meio disso tudo, no entanto, multiplicaram-se gestos de solidariedade e fraternidade, fazendo com que as lágrimas de tristeza dessem lugar às de mais pura emoção. E, pra tirar este Alfarrábio do limbo (esse abandono temporário foi vítima de puro desleixo mesmo), ao mesmo tempo em que reafirmo aqui a esperança de que sim!, preciso ter sempre esperanças, deixo aqui a imagem que quero preservar pra mim e compartilhar com quem puder. É do fotógrafo americano Matthew McDermott, com a descrição da Adriana Carranca:
quando já não havia mais esperança, surge do caos no Haiti a imagem de um menino de 8 anos resgatado com vida dos escombros de sua casa. Magro, ferido, desidratado, ele olha para a lente do fotógrafo, abre os braços esticados para o ar, que quase lhe faltou por completo, como se quisesse agarrar a própria vida. E sorri um sorriso impossível de descrever porque a imagem diz tudo. Inesquecível. Assista o vídeo, da CNN.
Só um adendo, Adriana, por mais piegas que seja: sorriso impossível de descrever, mas prova de que sorrisos são sempre possíveis ;-)
Com todos os méritos, já que tá no sangue, a coleguinha Cristiane Prizibisczki*, cá de terras valeparaibanas, foi a grande vencedora do Earth Journalism Awards. Ao lado de Andreia Fanzeres, a Cris teve a sua Trajetória da Fumaça selecionada pra ser apresentada na 15ª COP, a Conferência do Clima em Copenhague. O anúncio dos vencedores do prêmio saiu ontem, devidamente comemorado pela Chefinha, tia-coruja da Cris.
As moças passaram cinco meses percorrendo o centro-oeste e a Amazônia, fazendo uma radiografia sobre as causas-efeitos das queimadas: *o problema das queimadas está diretamente ligado ao modelo de exploração das Amazônia, e uma das questões que mais chama a atenção é que a população local quer resolver o problema, não quer mais depender do fogo, mas não tem condições para isso*, resumiu a Cris, em entrevista recente. Mas, chega de papo: confiram o trabalho das meninas aqui.
Taí, valeu, Cris & Andreia! Parabéns!
* Só a Chefinha sabe pronunciar...
** Registre-se, o Copoanheiro também acompanhou e ficou na torcida pela Cris
Segundo clichê: a seguir, mensagem da Cris, direto d'além-mar:
Olá, pessoal.
Eu e Andreia Fanzeres gostaríamos de agradecer a todos que votaram em nosso trabalho A Trajetória da Fumaça no Earth Journalism Awards.
Graças ao apoio de vocês conquistamos também o prêmio da noite, o Voto Popular. Dos cerca de 6.239 votos, nosso trabalho conquistou cerca de 1.700! Com isso, ele também chegará às mãos de negociadores aqui em Copenhague.
Agora continuamos nosso trabalho na cobertura da Conferência do Clima da ONU, que vocês podem conferir pelo site O Eco www.oeco.com.br.
Um grande abraço a todos,
Cristiane
Terceiro clichê: a Chefinha volta aqui e explica que há duas pronúncias pro sobrenome da Cris: em polonês, é *Prichibichéski*; já em português é *Prizibíski* mesmo... E, a seguir, algumas fotos da premiação:
Programação em-cima-da-hora, mas vamos lá: o Lira Paulistana completa 30 anos, e uma série de shows celebra esse marco da cultura alternativa da década de 80. Fundado em 1979, na rua Teodoro Sampaio, próximo à praça Benedito Calixto, o teatro se tornou um celeiro cultural e impactou o meio artístico em São Paulo. Shows na sala Guiomar Novaes -- alameda Nothmann, 1.058, tel.: (11) 3662-5177) -- e na praça Benedito Calixto.
Sala Giomar Novaes 3/12 - quinta-feira às 19h: Futuro Antigo e Smack convida O SURTO
4/12 - sexta-feira - 19h: Déo Lopes e Paranga convidam o Cataia
5/12 - sábado - 19h: Arrigo Barnabé convida Cumieira
6/12- domingo - 20h: Isca de Polícia convida Anelis Assumpção
10/12- quinta-feira - 19h: Instrumental Faria & Banda convida Percutindo Mundos
11/12 - sexta-feira - 19h: Lucina e Suzana Sales convidam Estrambelhados
12/12 - sábado - 19h: Mercenárias convidam Seychelles
13/12 - domingo - 20h: Língua de Trapo convida Zabomba
Praça Benedito Calixto
6/12 às 13h: Arrigo Barnabé, Língua de Trapo, Premê, Passoca e Isca de Polícia
Taí! Pra quem tá em Sampa nesse domingo, uma ótima pedida. E tenho certeza de que o Dani DPádua Sapolino estará presente, de alguma maneira, junto com o Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro. Segue copy&paste:
Amig@s!
Neste domingo 29/11, no centro de São Paulo, faremos um grande cortejo de Maracatu para divulgar o lançamento do www.maracatu.org.br, um portal dedicado à Cultura do Maracatu de Baque Virado. Desenvolvido para que as Nações e Grupos de Maracatu constituam, na Internet, uma grande rede, organizando e compartilhando informações sobre esta cultura.
Na fase inicial do projeto, 5 grupos de São Paulo participaram de oficinas piloto para construírem suas paginas no Maracatu.org.br, atualmente em pleno desenvolvimento. Passados os testes, o projeto deve começar a se expandir para outros estado, principalmente Pernambuco, crescendo na medida da participação de todos!
[Este Alfarrábio ficou completamente abandonado nas últimas semanas. Foi, talvez, por algum apagão particular meu aqui, que deixei que o domínio expirasse – mas, por culpa do copoanheiro Adauto, que assumiu a parte burrocrática da coisa, eis que voltamos à ativa. Um retorno doloroso pelas circunstâncias, mas que exige nossa modesta homenagem a um grande Camarada:]
Imagens, lembranças, sensações se mesclam enquanto ainda tento absorver a notícia de que o DPádua partiu pra batucar o maracatu do Seu Estrelo em outras paragens. Ficamos sem a companhia -- física -- de um grande amigo imaginante, pirata nômade, espírito compartilhante e livre. Posso assegurar que, muito mais do que um ativista, era um praticante apaixonado da filosofia open source, de compartilhamento do conhecimento. E, sim, como o próprio diria, era um cara *buuunito, e cocrante*. Deixo o relato do outro Daniel, o Duende, que exprime da melhor maneira o que eu poderia dizer nesse momento.
Daniel Padua, o narigão, o sapão, o anatólio, o imaginante, o sátiro pulapulante, o barbudo, o meu melhor amigo, meu irmão nesta vida, e discretamente um de meus heróis...
É tão difícil falar neste momento. É difícil, não só pelo sentimento vazio da partida. É difícil porque meu querido amigo sabia muito bem como gostava que falassem dele. E eu tenho certeza de que ele iria ficar uma arara comigo se eu fizesse um testemunho sofrido, circunspecto e triste. Então, com todo o meu profundo respeito pela minha dor e pela dor de todos os meus amigos... amigos queridos dele também... eu vou me limitar a dizer umas poucas frases do jeito que ele gostava.
Meu amigo sempre gostou de dizer que era ficção para nossos sentidos. Eu sempre impliquei com a palavra ficção na frase dele. Sempre achei que a gente precisava de uma palavra muito maior para descrever o que éramos um para o outro, uns para os outros, todos nós do bando. E um dia nós achamos esta palavra. Nós somos mitos para/nas narrativas-vida uns dos outros.
DPadua era, além de tudo mais que eu já disse no início deste desajeitado email, um de meus mitos maiores. Sua existência alterava meu universo imaginário... o de todos nós... de uma maneira por vezes difícil de medir ou explicar. Ele simplesmente transformou tudo aquilo que tocou. De barba em riste e sorriso grande aberto, meu amigo DPadua mudou todas as nossas vidas e todas as nossas histórias: para alguns de seu jeitinho discreto, de mineirinho de Vila Velha, para outros trazendo mudanças gigantescas e inexprimíveis.
DPadua é hoje parte de todos nós. E me aconchega o coração saber que hoje ele descansa, livre das dores da convalescência e do aperto no peito de sentir a inevitável dor de seus amados. Descansa, e repousa dentro de todos nós -- nós que nos tornamos todos um pouquinho DPadua depois que ele passou por nossas vidas. Em nós, ele vive enquanto vivermos. E espero que o DPadua dentro de todos vocês possa novamente cantar e dançar em breve.
Eu posso dizer que eu conheci o cara. E se posso dizer mais uma coisinha, digo esta:
Se querem homenagear o cara, festejem a vida que ele trouxe. Não se concentrem em sua partida. Como nômade que era, DPadua cedo ou tarde sempre partia em busca de novas viagens. Longa vida à vida IMAGINANTE e AMOROSA que ele nos trouxe.
E até mais, meu amigo.
A gente se vê nas ilhas imaginárias.
"tecnologia é mato, o importante são as pessoas" – Daniel Pádua
Como diria o Rosa, *as pessoas não morrem, ficam encantadas*. O Sapolino se encantou.
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