27.03.2014

:: Pegue sua Toalha ::

Se vai ter água, é mero detalhe.
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*A toalha é um dos objetos mais úteis para um mochileiro interestelar. Em parte devido a seu valor prático: você pode usar a toalha como agasalho quando atravessar as frias luas de Beta de Jagla; pode deitar-se sobre ela nas reluzentes praias de areia marmórea de Santragino V, respirando os inebriantes vapores marítimos; você pode dormir debaixo dela sob as estrelas que brilham avermelhadas no mundo desértico de Kakrafoon; pode usá-la como vela para descer numa minijangada as águas lentas e pesadas do rio Moth; pode umedecê-la e utilizá-la para lutar em um combate corpo a corpo; enrolá-la em torno da cabeça para proteger-se de emanações tóxicas ou para evitar o olhar da Terrível Besta Voraz de Traal (um animal estonteantemente burro, que acha que, se você não pode vê-lo, ele também não pode ver você -- estúpido feito uma anta, mas muito, muito voraz); você pode agitar a toalha em situações de emergência para pedir socorro; e naturalmente pode usá-la para enxugar-se com ela se ainda estiver razoavelmente limpa.

Porém o mais importante é o imenso valor psicológico da toalha. Por algum motivo, quando um estrito (isto é, um não-mochileiro) descobre que um mochileiro tem uma toalha, ele automaticamente conclui que ele tem também escova de dentes, esponja, sabonete, lata de biscoitos, garrafinha de aguardente, bússola, mapa, barbante, repelente, capa de chuva, traje espacial, etc, etc. Além disso, o estrito terá prazer em emprestar ao mochileiro qualquer um desses objetos, ou muitos outros, que o mochileiro por acaso tenha “acidentalmente perdido”. O que o estrito vai pensar é que, se um sujeito é capaz de rodar por toda a Galáxia, acampar, pedir carona, lutar contra terríveis obstáculos, dar a volta por cima e ainda assim saber onde está sua toalha, esse sujeito claramente merece respeito.*
Isso tudo porque acabamos de receber um aviso:
*Povo da Terra, atenção, por favor.
Aqui fala Prostetnic Vogon Jeltz, do Conselho de Planejamento do Hiperespaço Galático. Como todos vocês certamente já sabem, os planos para o desenvolvimento das regiões periféricas da Galáxia exigem a construção de uma via expressa hiperespacial que passa pelo seu sistema estelar e infelizmente o seu planeta é um dos que terão que ser demolidos. O processo levará pouco menos de dois minutos terrestres. Obrigado.*

[terror!]

*Esta surpresa é injustificável. Todos os planos do projeto, bem como a ordem de demolição, estão em exposição no seu departamento local de planejamento, em Alfa Centauro, a 50 dos seus anos terrestres, e portanto todos vocês tiveram muito tempo para apresentar qualquer reclamação formal, e agora é tarde demais para criar caso.*

[mais terror, e alguém consegue enviar uma mensagem aos Vogons]

*Como assim, nunca estiveram em Alfa Centauro? Ora bolas, humanidade, fica só a quatro anos-luz daqui! Desculpem, mas se vocês não se dão ao trabalho de se interessar pelas questões locais, o problema é de vocês.*
Tô eu relendo, depois de uns bons anos, *O guia do mochileiro das galáxias*. Quando do informe e comentários do digníssimo Prostetnic Vogon Jeltz, do Conselho de Planejamento do Hiperespaço Galático, não consegui deixar de associar com a atual situação que vivemos com relação ao abastecimento de água na Grande São Paulo, e as brilhantes *propostas* do sr. governador -- o projeto existe, tá logo ali em Alfa Centauro, e a culpa é nossa por não termos tido interesse em conhecê-lo...

Baseado na prestigiosa colaboração do brôu Marcelo], a conclusão:
Alpha Tauri, ou α Tau, ou الدبران, ou ainda Aldebaran, fonte de energia de 39 galáxias, vai vendo, quase impotente, sua capacidade de produção e distribuição caindo a cada dia, por absoluta falta de competência do Comitê Estelar.

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Por Paulo Bicarato, às 17:02 de 27.03.2014 - Comentem!
Categoria: Primeira Edição

19.02.2014

::

Direto de Passos (MG), mas via Sampa, o copoanheiro Rai manda a homenagem pra Dona Çote, tia dele -- e, com certeza, *tia* de muita gente por lá... As Minas, e o mundo, ficam menos doces, mas deixam doces lembranças.

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Tacho_b.jpg

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:: Dona Çote ::

Um trago amargo
inunda o mundo
a cada vez que
morre
uma doceira
em Minas.
Ficam órfãos os filhos,
sobrinhos, netos, bisnetos,
as frutas e os tachos.
Perdem-se todos
os pontos.
Perdem-se as línguas.
Amolecem-se
os mármores
de cortar pedaços.
Choram torneiras
para dentro dos sacos
eternamente brancos
de se lavar
cidras amarguradas.
Suspendem-se
descalços
os pés de todos
os moleques.
Dessaborizam-se
os sonhos infantis.
Mela-se o voo das
abelhinhas,
perdidas,
em derredor.
Atordoam-se as
chaminés,
sufocam-se as
fornalhas e
entristecem-se as
escumadeiras.
Entardecem-se os dias
sem doçuras.
Deus devia
deixar a elas
que também
vivessem para
sempre
aqui na terra.
Iguais as
lembranças suas.
Por Paulo Bicarato, às 14:12 de 19.02.2014 - Comentem!
Categoria: Etilíricas

29.01.2014

:: Emborná ::

Eis meu alforje ou emborná ou picuá ou matula ou... e seus adereços:
- bottom *criei, tive como*: presente do Felipe Fonseca
- miniaturas MetaRec e open hardware, feitas em impressora 3D: presentes do Otávio Savietto
- o próprio alforje, direto de São Thomé das Letras: presente do Dalmo Garcia
- graffiti ao fundo: obra do Tainã Moreno

Gracias, mutchas gracias, camaradas! :-)

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Por Paulo Bicarato, às 09:47 de 29.01.2014 -
Categoria: Linux Vida Open Source

08.01.2014

:: Valeu, 2013! ::

É, eu fui um dos que não viam a hora de 2013 terminar. A impressão é a de que a Copa do Mundo chegaria, mas o ano teimava em continuar ali, reservando algumas pegadinhas até os últimos segundos -- ou depois, ainda.

Mas quero me redimir e pedir desculpas e, mais, agradecer a 2013: foi um ano difícil, sim, mas um ano de muito aprendizado, de muitas alegrias, de emoções várias. O ano, o mês, o dia são criações arbitrárias (por mais que sejam regidos por rotações e translações etc.), e servem como marcos pra renovação constante, pra esperança ganhar fôlego, como disse o Drummond.

Em resumo: valeu, 2013! E que 2014 venha com tudo, como novos e diferentes desafios, alegrias, emoções -- e surpresas!
Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. 


Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente.

Para você, desejo o sonho realizado. O amor esperado. 
A esperança renovada. 


Para você, desejo todas as cores desta vida. Todas as alegrias que puder sorrir, todas as músicas que puder emocionar. 


Para você neste novo ano, desejo que os amigos sejam mais cúmplices, que sua família esteja mais unida, que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe desejar tantas coisas. Mas nada seria suficiente para repassar o que realmente desejo a você. Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos. Desejos grandes e que eles possam te mover a cada minuto, rumo à sua felicidade!

- Carlos Drummond de Andrade
Por Paulo Bicarato, às 13:32 de 08.01.2014 - Comentem!
Categoria: Pensatas

03.01.2014

:: Em 2014... ::

Sei que não devia me assustar mais com as artimanhas e estratégias publicitárias e marquetísticas (até porque, a essa altura, tô mais pra publicitário do que pra jornalista...), mas certas coisas incomodam. E muito. Quando um verbo tão belo como *compartilhar* passa a ser sinônimo de sucesso comercial feicebuquiano -- como li na *análise* de um expert, que ironizou o sentido fraterno e franciscano do termo --, ou quando outro verbo, *desapegar*, também é totalmente subvertido e vira mote pra um site de vendas online, penso que são sinais de que a inversão de valores tá chegando a um ponto insustentável.

Nesse mundinho consumista, em que tudo e todos são mercadorias e em que a competitividade vira agresssividade e é estimulada a níveis fatais, palavras como *ganhar* e *perder* deixam de ser apenas antagônicas -- a semântica se extrapola e, de verbos, passam a ter contornos adjetivados: a primeira, sinônimo de sucesso; a segunda, de fracasso.

Mas eis que me deparo com um textinho do Alexandre Caliman que me serve de alívio:
Desejo que o próximo ano seja um ano de muitas perdas, pra mim e pra você. Vamos perder tempo jogando conversa fora. Vamos perder a pressa. Vamos perder a culpa, o medo de amar. Vamos perder a cabeça, nos apaixonar todos os dias. Vamos perder a vergonha. Perder o juízo quando o coração pedir, desejar, implorar... Vamos perder nossa certezas, o ódio, o preconceito, as "frescuras", os melindres, o ego. Vamos perder tudo aquilo que a gente sabe que é bom perder (e a gente sabe)! E... quando a gente perder o que não quer... vamos perder a mania de achar que somos perdedores. A gente não perde nada, porque nada, nem ninguém, nos pertence de fato...
Faço minhas as palavras do Caliman. E, nessa linha, gostaria de complementar, reforçando o mantra que rezo todas as manhãs e somando aos votos de saúde&paz&amor e ao meu eterno agradecimento por tudo o que aprendi e vivo aprendendo todos os dias:
Desejo, sim, de coração, que eu e todos ganhemos muito esse ano. Mas como ninguém ganha nada de graça, e nada vem de graça, nem o pão nem a cachaça, que eu tenha a graça de alimentar a cada dia minha fé e minha esperança em dias melhores, em um mundo mais justo e humano. Que eu tenha coragem pra encarar as adversidades, aliada à sabedoria de estar sempre pronto a aprender mais e à humildade de reconhecer os meus limites. E que possamos, todos os dias, desfrutar e espalhar e compartilhar a alegria -- e o prazer -- de saber ver a beleza de um sorriso, de um abraço, de brincar e de não se levar a sério demais.
Por Paulo Bicarato, às 15:55 de 03.01.2014 - Comentem!
Categoria: Pensatas

02.01.2014

:: Back to the 90's ::

alfa_retro.jpg


Tá estranhando essa imagem? Pois veja então ela *animada*, cheia de gifzinhos e otras cositas típicas lá dos anos 90, início dos 2000, quando o Geocities ainda imperava. O resultado é do projeto Deleted City, de arqueologia digital, do designer Richard Vigjen. Se quiser ver como seria o seu site naqueles moldes, confira aqui.

[Confira a matéria e a entrevista completas com o idealizador do projeto na revista SeLeCt]

Por Paulo Bicarato, às 15:41 de 02.01.2014 - Comentem!
Categoria: Tecnologices

23.12.2013

:: Crise de Identidade ::

Duas menininhas mais do que lindinhas, umas graças mesmo! E, além de tudo, espertas. E, mais ainda, filhas de amigos mais-que-queridos: a Sofia, filha da Renatinha e do Paulo, e a Maria Porã, filha do Wendell e da Flavinha.

As duas têm mais ou menos a mesma idade, na faixa dos dois aninhos. Mas têm uma diferença enorme, e que tá me deixando encafifado -- cada uma me vê (sim, eu mêsss!) de maneiras um tanto distintas, pra não dizer antagônicas:
- pra Sofia, eu sou sinônimo de *trabalho*: imitando a mãe, ela fica pra lá e pra cá com o celularzinho de brinquedo na orelha, *conversando* com o... *Bica*! *Tô trabaiando, mamãe!*

- já a Porãzinha... Outro dia, a família foi dar um rolê em Parahytinga, São Luís. Chegando na praça, ela viu de longe um hippie, cabelo comprido e tal, montando seus artesanatos. Virou pro pai e pra mãe e apontou: *ó o tio Bica, tio Bica!*
Bom, dizem (e acredito) que criança tem o olhar puro, e se solta umas dessas assim, espontaneamente, só posso deduzir que é exatamente como me vêem, cada uma com seu cada qual ponto de vista. Mas, quanto a mim, só digo que as duas menininhas, do alto de seus dois aninhos de idade, estão me provocando uma crise de identidade daquelas... E aí? [clique pra ampliar]

Assim?
bicatrampo.jpg
.::|::.Ou assim?
bicachapada1.jpg
Por Paulo Bicarato, às 15:36 de 23.12.2013 - Comentem!
Categoria: Egotrip

12.12.2013

:: Cesso Contumélias ::

Há tempos eu procurava essa carta que li, se não me engano, no extinto Folhetim (ah, isso é quando a Folha de S.Paulo ainda era legível...). E carta ao diplomata Jorge Kirchhofer Cabral, o mestre Guimarães Rosa critica e cobra o colega e conta causo, e desfia seu vocabulário usando somente palavras iniciadas com a letra *C*. Deliciem-se:
Cônsul caro colega Cabral,

Compareço, confirmando chegada cordial carta.

Contestando, concordo, contente, com cambiamento comunicações conjunto colegas, conforme citada consolidação confraria camaradagem consular. Conte comigo: comprometo-me cumprir cabalmente, cabralmente condições compendiadas cláusulas contexto clássico código. (Contristado, cumpre-me consolidação coligar cordialmente conjunto colegas?... crês?... crédulo!... considera:... "cobra come cobra!..." coletividade cônsules compatrícios contém, corroendo cerne, contubérnios cubiçosos, clãs, críticos, camarilhas colitigantes... contrastando, contam-se, claro, corretos contratipos, capazes, camaradas completos.) Concluindo: contentemo-nos com correspondermo-nos, caro Cabral, como coirmãos compreensivos, colaborando com colegas camaradas, combatendo corja contumaz!...

Contudo, com comedida cólera, coloco-me contra certos conceitos contidos carta caro colega, cujas conclusões, crassamente cominatórias, combato, classificando-as como corolários cavilosos, causados conturbação critério, comparável consequências copiosa congestão cerebral. Caso concordes cancelá-los , confraternizaremos completamente, com compreenção calorosa, cuja comemoração celebrarei consumindo cinco chopes (cerveja composta, contendo coisas capiciosas: corantes complicados, copiando cevada, causando cólicas cruéis...)

Céus! Convém cobrar compostura. Cesso contumélias, começando contar coisas cabíveis, crônica comtemporânea: como comprovo, continuo coexistindo concerto conviventes coevos, contradizendo crença conterrâneos cariocas, certamente contando com completa combustão, cremação, calcinação corpos cônsules caipiras cisatlânticos...

Calma completa? Contrário! Cessado crepúsculo, céu continuamente crepitante. Convergem cimo curvos clarões catanúvens, cobrindo campinas celestes, crivadas constelações.

Convidados comparecem, como corujas corajosas, contra cidade camuflada. Coruscam célebres coriscos coloridos. Côncavo celeste converte-se cintilante caverna caótica, como casa comadre camarada. Crebro, cavernoso, colérico, clama colossal canhonêio. Canhões cospem cometas com cauda carmesim. Caem coisas cilindro-cônicas, calibrosas, compactas, com carga centrífuga, conteúdo capaz converter casas cascalho, corpos compota, crâneos canjica. Cavam-se ciclópicas crateras (cultura couve-colosso...). Cacos cápsulas contraaéreas completam carnificina. Correndo, (canta, canta calcanhar!...) conjurando Churchil, conjeturando Coventry, campeio competente cobertura, convidativo cantinho, coso-me com chão, cautelosamente. Credo! (como conseguir colocar-me chão carioca Confeitaria Colombo, C.C., Copacabana, Catumbi???)
Cubiço, como creme capitoso, consulados Calcutá, Cobija!... Calma, calma; conseguiremos conservar carcaças.

Contestando, comunico cá conseguimos comboiar cobre captado (colheita consular comum), creditando-o cofres consignatário competente, calculo consegui-lo-ás, contanto caves corajosamente.

Conforme contas, consideras cós curtos como cômoda conjuntura, configuradora cinematográficoa contornos carnes cubicáveis. Curioso! Caso curtificação continue, conseguiremos conhecer coxas, calças?...Cáspite
Continuarei contando. Com comoção consentânea com cogitações contemporâneas, costumo compor canções. Convém conhêças:

Cantada

Caso contigo, Carmela
Caso cumpras condição
Cobrarei casa, comida,
Cama, cavalo, canção
Carinho, cobres, cachaça,
Carnaval camaradão
Cassino (com conta certa)
Cerveja, coleira e cão,
Chevrole cinco cilindros
Canja e consideração,
Calista, cabelereiro
Cinema, calefação,
Chá, café, confeitaria,
Chocolate, chimarrão
Casemira – cinco cortes
Cada compra, comissão,
Conforto, comodidades,
Cachimbo, calma,... caixão,
Convem-te, cara Carmela?
Cherubim!...Consolação!...
(caso contrário, cabaças!
Casarei com Conceição.)
Caso contigo, Carmela,
Correndo com coração!...

Chega. Caceteei? Consola-te: concluí.

Com cordial, comovido: colega constante camarada,

Consul, capitão, clínico conceituado.

Confirme chegada carta, comunicando-me com cartão.

João Guimarães Rosa
Por Paulo Bicarato, às 14:01 de 12.12.2013 - 1 já comentou aqui
Categoria: Biblios

02.12.2013

:: (Meu) Dia do Samba ::

*Quem não gosta de samba bom sujeito não é: ou é ruim da cabeça ou doente do pé.*

A descrição cabe mais ou menos pra este alfarrabista, que foi nascer justamente no Dia do Samba -- sim, este 2 de dezembro. A cachola não é lá essas coisas, e os pés, tadinhos, já judiei muito deles... Mas aprecio sim um bom samba: taí o Martinho da Vila, que conheci num disco que minha mãe comprou lá na século passado. E, se é meu aniversário, só posso comemorar por ter esse presente maravilhoso que é a querídola Rose: *ó linda imagem de mulher que me seduz...*



E, aliás, hoje descubro a original, do Francisco Alves, lá de 1952:


Segundo clichê: samba, zambra, zambo, zamba, batuque, lundu, jongo, maculelê, samba-de-roda, maxixe, tambor de crioula, partido-alto... tó, tem mais aqui.
Por Paulo Bicarato, às 12:12 de 02.12.2013 - Comentem!
Categoria: Egotrip

08.11.2013

:: Pérsio, o Cantadô-Contadô de Causo ::

Pra começar, deixemos que o próprio se apresente:



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Pérsio e a querídola Rose, na Beira do Riacho
Chapéu de palha, o indefectível cigarrinho também de palha, o cavanhaque e o rabinho de cavalo (também parecendo de palha), o inquebrantável bom humor mesclado à indignação pra com as injustiças sociais, a eterna militância pelo bem, pela beleza ética e estética. O retrato é simplório, sei, mas resume como eu sempre o vi -- e, claro, junte-se aí o fato de o camarada ser um cantor e compositor de primeira linha, mais um contadô de causo de uma memória privilegiada, e temos um figura ímpar: Pérsio Assunção.

*Ô, meu chapa!* A saudação sempre vinha acompanhada do abraço sincero e do sorriso bonachão. Bom de papo e de copo, não recusava um convite pra cerveja (sempre meio-quente, pra não ferir as cordas vocais) e a cachacinha, de preferência num boteco pé-sujo. Há pouco mais de um ano, mudou-se pra Ubatuba, *pra ficar pertinho da mãe* -- desde então, não foram poucas as vezes em que me ligava, nos horários e dias mais improváveis, só pra dizer que estava admirando o mar e tomando uma cervejinha: *lembrei docê, cabôclo*. (Fosse outra pessoa que ligasse no horário de trabalho, diria que é provocação; mas no caso do Pérsio era mesmo uma espécie de *cobrança* por eu só ficar adiando uma descida da serra...)

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Comigo com a *chefinha* Nydia, também na Beira do Riacho
Paulistano da Freguesia do Ó, veio aqui pro Vale do Paraíba em 1986. Em mais de 20 anos de carreira, viajou e mochilou pelos vários *Brasis*, como gostava de falar. Desceu o Rio São Francisco e andou pelo sertão nordestino, percorreu a Amazônia desde a Ilha do Marajó até o Acre. Cantou pelo Pantanal e pelos Pampas Gaúchos, além de atravessar fronteiras e levar sua música e sua prosa pra Buenos Aires, Assunción e várias cidades da Bolívia e do Peru (Puno, Cuzco e Puerto Maldonado, na Amazônia peruana).

Em São José dos Campos gravou, em 1990, o disco (LP) *Língua de Violeiro*, com a participação de 25 artistas da região como músicos convidados. Mudou-se para Curitiba em 1993, onde viveu até 2003, quando retornou pro Vale. Ficou fora dos palcos por uns tempos, quando trabalhou na Fundação Cultural de Curitiba, Fundação Cultural Cassiano Ricardo (de São José dos Campos) e Fundação Cultural de Jacarehy. Mesmo com a insistência dos amigos, só foi montar seu último espetáculo em 2010, *Meio amargo/Meio doce – Causos & Cantoria*, em que interpretou composições antigas e inéditas de sua autoria, além de músicas de outros compositores, como *Lua Bonita*, de Zé do Norte e Zé Martins (que foi tema do filme *O Cangaceiro*, de 1953), e ainda *Amor de Beija Flor*, de Carlos Alberto Leal, o Cal.

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Apreciando, como sempre, uma boa cachaça
Apesar de toda essa rica carreira, o Pérsio é daqueles que mereciam um reconhecimento maior. Esse privilégio (ou dever!) ficou pros amigos, que ele sempre alimentou fielmente. Mas que ninguém o convidasse pra tocar e cantar e contar causo num boteco ou numa festa: orgulhoso e ciente do potencial, se recusava a ser um mero *animador de ambiente* -- quando se apresentava era pra ser ouvido e apreciado e degustado, como mesmo era pra ser.

Na quarta-feira, dia 6, o Pérsião foi cantar e contar causo em outras paragens-dimensões. Dono de um coração enorme, foi vítima desse mesmo coração que talvez não encontrasse por aqui o carinho correspondente ao que dedicava aos amigos e à sua arte. Deixa saudades, muitas saudades, mas também o exemplo de alegria contagiante e de amor à nossa cultura mais pura, sem deixar de lado sua erudição e formação musical. O Brasil ficou menos melodioso.

'Brigado, meu chapa! De coração!



= = =

Com vocês, um pouco do nosso querido Pérsio:

Aqui, na Rádio Aguapé, com o Cesinha:


E, pra copletar, uma entrevista (dois blocos) à TV Câmara de Jacareí, feita pelo Rodrigo Romero:





E uma reportagem sobre o cantadôe suas andanças por esse Brasilzão-sem-frontêra:

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Por Paulo Bicarato, às 15:19 de 08.11.2013 - 5 comentários
Categoria: Etilíricas

20.10.2013

:: Quadro no Masp ::

Já pedi e insisti, incontáveis vezes, pro Rai soltar a mão e escrever mais. Por quê? Segue só um pequeno exemplo, textim dele, enviado especialmente pro Alfarrábio:
esquálido, perpendicular como um guindaste de obra, mas nada fixo, suave, meio noia, passando um pano, logo cedo, antes das sete, quase nada, só uma silhueta, ao sol, do vão do museu indo ao mirante, olhar que não se via. o distanciamento.

amarrotado, perdido em moderníssimo parangolé, feito de cobertor, vagabundo, fibras toscas, sem cor alguma, nobre como púrpura, transido, ostentação de passarela, bem curtido, impregnado, do odor das ruas, para outros olhos. o abençoado.

perdido, fincado em pés de gárgula, garatujando escrita meio divina, cambaleante, esvaziado de razão, indeciso, rasgando o chão, no vento, passarim sem asa quando debruça aborta o voo, sombra sem parede, moldura sem quadro. saco vazio que para em pé.

desbotado, sem lugar para sair, sem lugar para ficar, achando um canto, caçando nota, sinfonia qualquer, engolindo lamento, marcando um passo, um epitáfio, de algum lugar, alguém que nunca se importa. alma esburacada que não se enterra.

e assim, meio de lado, ungido de auréola, pelo ao contrário, carregando as luzes, coroado, gravado em pincel divino, descabelado feito loureiro de dafne, em plenitude, perdoando tudo. cabeça de medusa, antes da ira de minerva.
Vai, Rai, ser gauche na vida. Mas escreva, cara!
Por Paulo Bicarato, às 22:23 de 20.10.2013 - Comentem!
Categoria: Coleguinhas

27.09.2013

:: Sobre Nobres e Nobrezas ::

Sim, fui um dos incautos que xinguei (e não economizei adjetivos) o conde-playboy Chiquinho Scarpa no episódio da campanha da ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos). Sim, e também elogiei a sacada magistral de marketing que foi a campanha, com a ressalva que não, não apoio a estratégia -- foi uma campanha ousada, criada pela Leo Burnett Tailor Made, mas que usou um estratagema no mínimo discutível. Coisas do mkt: os meios justificam os fins, né?

Já escreveram e comentaram o causo com muito mais propriedade, e ainda vai render muito (outro aspecto essencial do mkt bem-sucedido: tonar-se um *case* memorável, antológico). Mas o que me me incomodou, e ainda me incomoda, é *só* um detalhe sórdido no meio de toda a trama, e que me instigou ainda mais depois de ler hoje um artigo de uma amiga que considero, a Letícia Maria: Amor por carros & pessoas.

Assim como nos mais variados textos que destrincharam o causo, a Letícia, e nem eu, e nem ninguém em sã consciência questiona a doação de órgãos. Mas não é isso que me incomodou desde o início. Nas palavras da Letícia, *todo o estardalhaço teve um motivo muito maior do que a nobreza de seu interlocutor: a doação de órgãos*.

Se a palavra *nobreza* estivesse entre aspas, perfeito. Mas não. E não vi nenhuma ironia fina no texto: ela quis mesmo exaltar a nobreza do *conde*, da mesma maneira que a grandissíssima maioria. Afora a palhaçada toda, o playboy saiu por cima, enaltecido pelo seu gesto ousado e... *nobre*.

É aqui que tá o problema: o fato de termos acreditado que um imbecil tivesse mesmo a pachorra de enterrar seu carrão, um Bentley Continental Flying Spur avaliado em R$ 1,5 milhão, por puro apego materialista, imitando os faraós e levando seu *bem* mais precioso pro túmulo. Se alguém é potencialmente capaz de cometer uma aberração dessas, há algo errado -- o que não é, nem de longe, um ato *nobre*.

***

Melhor ficar mesmo com o texto do Gilberto Amendola, no Estadão: A cascata do conde [reproduzo na íntegra a seguir]. E quero distância dessa nobreza arcaica, tosca e que, no final das contas, só fez mesmo de tontos um monte de gente. Quero, sim, nobreza de caráter, de alma, de gestos e ações -- valores que, certamente, o *conde* Scarpa desconhece. [leia mais...]
Por Paulo Bicarato, às 18:03 de 27.09.2013 - 3 comentários
Categoria: PretoNoBranco

20.08.2013

:: Pra Vocês Estarem Entendendo ::

Eu estava indo tão bem, caminhando e cantando e seguindo a canção. E, sempre, tocando processos em frente, fazendo e acontecendo, promovendo pessoas e ações, acalentando corações, instigando poetas, ajudando a criar, escrevendo a história, mantendo vivos corações e mentes.

De repente, tornei-me um estorvo, um pária a ser evitado, um ser que passou a ser tão mal visto como a escória das escórias, o mau gosto em pessoa. Logo eu, um filho legítimo, herdeiro dessa fama injusta da minha mãe, tachada de inculta e bela.

Suspeito que a culpa seja de um primo bastardo, lá da gringolândia, que aportou por aqui mal-traduzido -- refletindo, no entanto, a pobreza da construção e do conteúdo monocórdio e repetitivo dessa praga que se tornou o telemarketing e seus afins. Sim, porque foi por causa dessa praga que caí em desgraça, já que com ela o primo bastardo foi ficando ganhando voz. E nessa construção procrastinatória ele começou a estar ganhando cada vez mais espaço e indo empurrando tudo com a barriga e estando machucando nossos pobres ouvidos e ficando reverberando e estando contaminando tudo ao redor enquanto alguém vai estar providenciando a nossa perda completa de paciência...

E eu, coitado, entrei de gaiato: redatores publicitários passaram a me evitar a todo custo, como se eu fosse o agente contaminador, e artesãos de palavras me excomungaram peremptoriamente. Eu, o gerúndio, tão comportado, tornei-me o vilão dos vilões -- mas quero deixar claro, claríssimo, que não tenho nada a ver e nunca tive relações com esse primo bastardo, o gerundismo. Ele que vá estar cantando suas nêgas lá pra cima do Equador. De minha parte, afirmo categoricamente: sou vítima inocente dessa praga. E sigo andando de cabeça erguida.
Por Paulo Bicarato, às 23:52 de 20.08.2013 - Comentem!
Categoria: Pensatas

07.08.2013

:: Crise Insolúvel (?) ::

Boteco pé-sujo, 14h27 de uma segunda-feira. A moça, meio enviesada de tanto judiada, pede uma tubaína. Quente. Se sente a mais deslocada do mundo:

- Não sei o que sou. Acham que nasci pra separar, me usam com propósitos separatórios. Eu sou só um tropeço. Eu sou só uma pedra no meio do caminho. E nem sei coordenar uma oração e outra -- mas era tudo o que eu queria: articular pensamentos e argumentos e ideias, ser uma ponte pra clarear proposições...

Ela é reticente na sua crise existencial. Sabe que sua colocação no mundo tem o poder de inverter e subverter decisões, refazer e desfazer amores, ganhar e perder -- tudo. Mas sabe também que é uma desprezada, jogada aqui e ali como um tempero barato, só pra parecer que deu gosto -- mas azedou o prato.

Na outra ponta do balcão, a cara grave acentua o dilema de outro gaiato, também enjeitado, e coincidentemente bem parecido fisicamente com a moça. Ele, porém, tem um quê aristocrático, superior, tá acostumado a níveis mais altos e é ainda mais mal compreendido. Sua crise é mais complexa, digamos, remetendo a origens clássicas que remontam à Grécia antiga. Sem contar sua pendência naturalmente sinistra: vai ser 'gauche' na vida, ouve o poeta murmurar.

- Sou -- ou deveria ser -- a síntese, um elemento elegante e nobre, que dá o tom sutil com minha simples presença, mas com a humildade de sempre querer ser econômico e prático. Mas não: me achincalham a torto e a direito (logo eu, que nunca fui de direita), me metem onde não sou querido e me ignoram onde deveria ser acolhido. Ou, mais grave ainda, distorcem minha inclinação natural à esquerda, ou ainda me confundem com outra classe, revestindo-me com um 'h' que me faz sentir um idiota mal-vestido, totalmente fora de lugar.

Ela esvazia a garrafa de tubaína, e ele já tá no terceiro uísque. As inquietações e a crise existencial são idênticas, e sintonizam o casal. Como ela tá na ponta esquerda do balcão, inclina-se pra direita e encara o outro, que tá na direita e volta-se à esquerda. Nessa geometria, percebem que são convexos, nunca se encaixariam -- sem contar a diferença de altura entre os dois.

Resignam-se. Ela sabe que vai seguir sua sina de incompreendida, que sua breve parada no bar mal significa um suspiro e o fôlego pra encarar o discurso que fará na frente do espelho. Ele tenta se consolar com outro poeta: o que represento não foi feito pra humilhar ninguém.

A vírgula se levanta, e tropeça. O acento grave, gentilmente, deixa o assento e vai acolher a dama maltratada.
Por Paulo Bicarato, às 15:04 de 07.08.2013 - Comentem!
Categoria: Pensatas

02.08.2013

:: Vingancinhas ::

Família grande, nove filhos, sabe como é, né? Travessuras (eu ia dizer *sacanagens*) e briguinhas e perrengues entre a filharada são parte do dia-a-dia, mais frequentes que o arroz-com-feijão. Em tempos difíceis, então, a disputa pelo melhor pedaço do frango (quando havia...) ganha contornos épicos, com pitadas cômicas -- isso quando não quase trágicos.

A criançada vai crescendo, e as *artes* vão naturalmente ficando mais elaboradas, num processo lúdico de sobrevivência e criatividade pra superar determinadas carências. Uma das filhas, já moçoila, descobre que a autoestima faz bem e descobre o sentimento de orgulho e satisfação quando consegue, a muito custo e à custa do próprio suor, comprar suas coisinhas básicas. E, mais ainda, quando se dá o direito de um simples desodorante, por exemplo. Um artigo de luxo (e olhe que é daqueles de tubinho, dos mais simples, nada de spray ou aerossol), que ela usa com parcimônia pra render o máximo possível.

Um dos pirralhos mais novos, claro, tem que dar o ar da graça e meter o bedelho nas coisinhas dela. Uma das fixações do moleque: exatamente o desodorante -- é só ela dar uma vacilada que lá vai o *meliante* di-menor surrupiar o desodorante, encharcar-se e levar a mocinha ao desespero.

Todos foram criados na mesma *escola*, e o moleque sabe que vai ter troco. Num dia em que se depara com o tubo do desodorante vaziinho-de-tudo, quase que sem nem o cheirinho, a mocinha vai à forra: reenche o tubinho com uma mistureba de óleo, vinagre, pimenta, água sanitária e sabe-se lá mais o quê, deixando pronto pro moleque um negócio fedido de doer, mas já saboreando a vingança.

Só que... bem, as coisas não acontecem exatamente como planejadas. Naquele dia, naquele fatídico dia, é a mãe quem *empresta* o desodorante...

(Menos mal que, já que não era acostumada a usar esses trem, a mãe mal se deu conta das axilas lambuzadas e da roupa manchada.)

[Causo eminentemente fictício. Qualquer semelhança com personagens reais é pura coincidência.]
Por Paulo Bicarato, às 12:41 de 02.08.2013 - Comentem!
Categoria: Etilíricas