10.05.2013

:: Classe Mídia-Média ::

*É mais fácil condenar quem já cumpre pena de vida.*

Esse é só um dos versos que fincam fundo e incomodam, como aquela imagem no espelho quando você acabou de acordar, ainda de ressaca. O autor é Max Gonzaga, de São José dos Campos (no bídeo a seguir, com a Banda Marginal e participação do Zé Rodrix nos teclados). Redescobri o cara numa entrevista pro Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania -- a música é de 2005, e em maio de 2006 este Alfarrábio já tinha registrado o cara aqui. Mas voltemos à entrevista ao Edu:
Todo o meu trabalho está disponível em meu site oficial:

www.maxgonzaga.com.br

Está tudo lá. As músicas dos dois CDs estão lá, no site, disponíveis para download e em alta definição para que todo mundo baixe, pirateie, não tem problema nenhum. As músicas estão lá para que todos tenham acesso.

Lá também tem fotos, a divulgação das agendas de shows que estamos fazendo e que são muito menos do que eu gostaria, mas elas acontecem.

Sobre o recado que eu gostaria de dar, é o de que a gente precisa começar a colocar, na música, mais do cidadão comum, da gente mesmo, da gente como cidadão, do que nos aflige, do que nos agrada…

Hoje em dia está difícil de um artista dizer “Olha, tem isso aqui pra você pensar”, fazendo a gente olhar para o lado e dizer: “realmente”. A correria do dia a dia é tão grande que a gente perde a percepção das coisas que estão acontecendo ao redor.

Em minha opinião, esse é o grande papel do artista. Nessa hora, a sensibilidade do artista pode fazer a diferença.


[Leia a íntegra aqui]
Com vocês, *Classe Média*, com Max Gonzaga & Banda Marginal:

Por Paulo Bicarato, às 12:43 de 10.05.2013 - Comentem!
Categoria: Pensatas

03.05.2013

:: Jesus numa Moto ::

Vira-e-mexe, a querídola Rose dá o play nessa música. Postei hoje lá no Feicebúqui, e eis que o meu caríssimo Manecão comenta que *inventou um artigo*, anos atrás, inspirado no som do Zé Rodrix, Sá & Guarabira. Tá aqui, então, a *invencionice* do Maneco [originalmente publicada na NovaE]. 'Brigado, chefia!
"Jesus numa moto"
2009-07-01 19:54:13

Por Manoel Fernandes Neto


Gosto muito da canção "Jesus numa moto", de Zé Rodrix e os irmãos Guarabira. Composta no ano 2000, tornou-se um clássico da música brasileira.

É algo inconcebível para quem é preso à letra e não ao espírito da letra, imaginar o Mestre dos Mestres, tão admirado por tantos religiosos e espiritualistas, dirigindo uma Harley Davison, uma 750, 500. Ou mesmo uma 125 ou uma lambretinha, porque um pouco de humildade não faz mal a ninguém.

Jesus seria capaz de dirigir uma moto? Sentir a liberdade da estrada, em alta velocidade ou em uma cadência contemplativa?

Baseados nas quebras de paradigmas protagonizadas por Jesus e descritas nos Evangelhos, apócrifos ou não, podemos, sim, imaginar isso. Jesus com coragem em uma moto, como quem sobe em um burrinho para adentrar Jerusalém na mais absoluta ironia a todos os reis, tetrarcas e clérigos, com seus formalismos vazios e que dominavam a elite da época. Da época?!?

Bem, as similaridades entre o que convencionamos chamar de elites políticas e sociais são muitas, com certeza. Ontem e hoje as personalidades, costumes e atitudes se repetem em moto-contínuo difícil de ser mudado. Por isso mesmo, também "Jesus numa moto" me alegra o espírito. O inusitado que traça novos caminhos e quebra nossos condicionamentos. Mas vamos à letra da canção, que mesmo sem melodia nos arrebata a novos sentimentos:

Preso nessa cela
De ossos, carne e sangue
Dando ordens a quem não sabe
Obedecendo a quem tem

Só espero a hora
Nem que o mundo estanque
Prá me aproveitar do conforto
De não ser mais ninguém

Eu vou virar a própria mesa
Quero uivar numa nova alcateia
Vou meter um "Marlon Brando" nas ideias
E sair por aí

Prá ser Jesus numa moto
Che Guevara dos acostamentos
Bob Dylan numa antiga foto
Classius Clay antes dos tratamentos
John Lennon de outras estradas
Easy Rider, dúvida e eclipse
São Tomé das letras apagadas
E Arcanjo Gabriel sem apocalipse

Nada no passado
Tudo no futuro
Espalhando o que já está morto
Pro que é vivo crescer

Sob a luz da lua
Mesmo com sol claro
Não importa o preço que eu pague
O meu negócio é viver

Sob a luz da lua...
Mesmo com sol claro...
Preso nesta cela...


Numa pesquisa rápida, no Google, podemos encontrar mestre Zé Rodrix explicando como surgiu a inspiração da canção, quando em um dia de sol ele deteve a atenção no componente de um grupo de motoqueiros conhecidos como "Hell Angels".

Rodrix explica:

Nisso, quando ele parou, tirou o capacete e era um gerente de banco, um senhor. Um senhor de quase seus setenta anos, aquela cara de gerente de banco, e estava numa moto. Aí falei para o meu filho, 'olha aí, meu filho, esse aí meteu um Marlon Brando nas ideias e saiu por aí!', exatamente onde começa a música. (...) Por isso, creio que 'Jesus numa moto' é apenas um retrato das pessoas de minha geração que, após amadurecerem, se tornam capazes de ter duas vidas, sendo uma delas aquela que lhes agrada integralmente.

Na declaração de Rodrix pode estar a bússola que nos orienta pelas estradas das nossas vidas, com uma jaqueta de couro e uma luva desgastada. Sem metáforas: temos pouca coragem de fazer diferente. Encarar que não temos controle de quase nada, somente da nossa capacidade de mudar, que ainda estamos presos a formatos ultrapassados, compreensões mofadas. Paralisados diante das oportunidades das novas atitudes. Principalmente aquelas que podem "chocar" o senso comum. Imaginar Jesus numa moto, Che Guevara nos acostamentos e o arcanjo Gabriel sem apocalipse pode assustar os corações menos preparados para novas oportunidades que nos surgem a todo momento.

Amit Goswami, autor de Física da Alma, afirmou em uma entrevista ao Roda Viva, da TV Cultura, em 2007, que metaforicamente a maior frustração no estudo da Física Quântica é o condicionamento. O mesmo fator que no mundo macro nos escraviza sem piedade, em um lugar comum que cultua as falsas certezas, infla o superficial e tenta desprezar quem tem coragem de discordar.

“Jesus numa moto” é continuar a desafiar a falsa beatitude e sabedoria dos fariseus contemporâneos, é curar as feridas em um sábado de sol claro ou à luz da Lua, é ressuscitar nossa coragem de sentar à beira da fogueira, a contar nossos segredos, sem máscaras de cera.

“Jesus numa moto” anda a segunda milha com mais liberdade. Senta à mesma mesa e toma pão e vinho com Lenon, Dillan e Clay. Diverte-se com um "Marlon Brando" nas ideias.

“Jesus numa moto” é nossa convicção de que somos livres para escolher nossos destinos. Discordar, esclarecer e amar é a nossa real força de aprendizado. É a ausência do medo nos encontros com os nossos demônios, no deserto.

“Jesus numa moto” é criar todos os dias o nosso presente, sem ressentimentos do passado e na convicção de que somos aprendizes do futuro.

“Jesus numa moto” é derrubarmos as celas que aprisionam o nosso cotidiano; é sorrir quando nos chicotearem; é confiar no Pai Cósmico, e ter a certeza de que não somos, mas sim, estamos.

Admitamos: quem não quer pegar uma carona nesta moto?

Manoel Fernandes Neto, 46 anos, é jornalista, pesquisador de comunidades digitais, escreve e edita revistas na Internet. Criador e editor da revista NovaE, Prêmio Ponto de Mídia Livre do Ministério da Cultura, 2009.



Segundo clichê: som de garagem é isso aê! Com o grande Kadão na viola e as participações deste alfarrabista, da querídola Rose, da Mariana, do Rodrigo, da Aline e da Letícia -- e, especialmente, do Dioguinho ;-)

Por Paulo Bicarato, às 16:05 de 03.05.2013 - Comentem!
Categoria: Pensatas

02.05.2013

:: Brincando com *Um* Átomo ::

Copy&Paste da BBC Brasil:



















Direto da BBC Brasil:
Com átomos, cientistas criam menor filme do mundo

Jason Palmer
Repórter de Ciência e Tecnologia da BBC News


Pesquisadores da IBM criaram o menor filme do mundo – uma animação simples mostrando um menino - ao manipularem átomos de carbono em uma superfície de cobre.


A animação de 90 segundos, intitulada Um Menino e seu Átomo, foi feita usando uma técnica chamada stop motion, em que o objeto (no caso, os átomos) é manipulado e filmado quadro a quadro.

O filme mostra o menino brincando com uma “bola” (feita de um único átomo), dançando e pulando. Cada esfera que forma a imagem do menino também é um átomo.

Quatro cientistas tiveram que trabalhar 18 horas por dia durante duas semanas para completar a animação, que tem 242 quadros.

Para se ter uma ideia do tamanho do filme, mil quadros dele colocados lado a lado teriam a espessura de um fio de cabelo humano.
Agulha

Os átomos foram movimentados usando um microscópio especial.

O instrumento funciona com uma agulha muito fina e com carga elétrica que, ao ser passada sobre uma superfície, "salta o intervalo” entre um átomo e outro, criando um efeito físico conhecido como "tunelamento quântico”.

Os 242 quadros do filme são, essencialmente, mapas dessas "correntes de tunelamento”.

"A ponta da agulha é tanto os nossos olhos como as nossas mãos: ela percebe os átomos para fazer imagens de onde esses átomos estão, e então é movida mais próxima aos átomos para guiá-los sobre a superfície para novas posições”, explica Andreas Heinrich, pesquisador-chefe do Centro de Pesquisas da IBM, na Califórnia.

"Os átomos se mantêm em suas posições porque formam ligações com os átomos de cobre abaixo da superfície, e isso nos permite fazer uma imagem de todo o conjunto de átomos em cada quadro do filme”.

"Entre cada quadro, nós movemos cuidadosamente os átomos para suas novas posições e fazemos outra imagem”, indica.

Heinrich diz que o objetivo do filme foi incentivar novas gerações a se interessar por tecnologia e pelas ciências.

"Isto (o vídeo) não é de fato um avanço científico. O filme é na verdade um estímulo para que as crianças e demais pessoas discutam e se empolguem com assuntos como matemática, ciência e tecnologia”, conclui.

O filme evidencia a crescente capacidade de cientistas de manipular a matéria no nível atômico, algo que cientistas esperam usar no futuro para criar novas soluções para armazenamento de dados.

No ano passado, cientistas da IBM demonstraram a possibilidade de guardar um bit – unidade digital de informação – usando apenas 12 átomos.
Por Paulo Bicarato, às 14:19 de 02.05.2013 - Comentem!
Categoria: PretoNoBranco

29.04.2013

:: Mestre Vanzolini, 89 anos ::

Peço licença à CartaCapital pra republicar aqui reportagem de janeiro de 2012 sobre o mestre Paulo Vanzolini. Nos próximos dias deve haver uma enxurrada de matérias sobre o mestre, mas fica aqui o registro. Mais, lá na Wikipedia. E, lá embaixo, a grande Inezita Barroso interpretando *Ronda*, em 1953.
A sabedoria do boêmio

por Ana Ferraz
O compositor e zoólogo Paulo Vanzolini, de 89 anos, morreu às 23h35 de domingo 28/4/2013, segundo o Hospital Israelita Albert Einsten. Confira reportagem sobre ele publicada em janeiro de 2012

Noite dessas, Paulo Vanzolini sonhou com uma poesia de Olavo Bilac que decorou quando ainda era rapazote. Os versos, que são muitos, vieram por inteiro. Aos 88 anos, o autor de composições que atravessaram gerações sem perder a força, como Ronda e Homem de Moral, conserva a prodigiosa memória e se mantém imperturbável diante da fama.

Vanzolini
Vanzolini e Adorinan Barbosa, o
"amigo de muitas cachacinhas" que
hoje ele "visita" no Mercadão.
Foto: Gustavo Lourenção
Considerado por muitos o embaixador do samba de São Paulo, ele agradece o epíteto. “Não é verdade, mas eu gosto”, diz, sorriso nos lábios. Acomodado numa poltrona de couro na modesta casa do Cambuci, “bairro cheio de bares ótimos”, o homem culto que cresceu rodeado de livros e se tornou zoólogo de reputação internacional põe em perspectiva a criação de uma vida, 70 composições e 155 trabalhos científicos. “Que glória é essa, meu Deus”, questiona, num lapso, o declarado ateu, bisneto de anarquista. “É uma glória muito humilde. Não tenho motivos para ser vaidoso.”

Nesta sexta 27, semana em que São Paulo completa 458 anos, Vanzolini concederá ao público o privilégio de tê-lo na Choperia do Sesc Pompeia. Instalado numa mesa, cervejinha à mão, o artista acompanhará alguns de seus grandes sucessos, interpretados por Ana Bernardo e Carlinhos Vergueiro. Entre uma canção e outra, o show será pontuado pelas reminiscências do compositor que, junto com Adoniran Barbosa, de quem foi “amigo de muitas cachacinhas”, traduziu a cidade de forma definitiva.

“Adoniran era ótima pessoa, nos dávamos muito bem. O cara mais desligado que já conheci. Vinha de família italiana do Vêneto. De menino o chamavam de Joanim.” Os longos papos entre Vanzolini e João Rubinato (Adoniran), que em sua simplicidade dizia não entender bem o que o cientista fazia (“ele mexe com zoológico, sei lá”), jamais renderam samba. “Sempre me pedem para contar como era nossa conversa. Era muito cotidiana. Não tinha nada demais. Era nossa conversa.”

A famosa Tiro ao Álvaro, relembra, surgiu como um presente do jornalista e escritor Osvaldo Molles ao amigo Adoniran. Foi Molles também o criador do personagem Charutinho, de tiradas engraçadas embaladas por sotaque italianado, que interpretou com grande sucesso na Rádio Record. “Adoniran acabou assumindo na vida real o personagem da ficção. No fundo, ele era mesmo só o Joanim.” Quando a saudade aperta, Vanzolini dirige-se ao Mercado Municipal, o Mercadão da capital paulista. “Colocaram uma estátua do Adoniran numa mesa. De vez em quando vou lá tomar uma cerveja com ele.”

A prosa animada de repente silencia. O olhar do compositor vagueia pela sala, ambiente que Ana Bernardo, sua atual mulher, define como “totalmente masculino”. Justifica-se a quase queixa: sobre um aparador, uma grande cobra de madeira exibe a boca aberta (souvenir comprado na Espanha). A seu lado, outra, bem mais modesta nas medidas, porém, verdadeira, exibe-se sobre um tronco. Para alívio dos visitantes, o exemplar não se move, foi plastificado graças a uma técnica especial. A terceira fica na mesinha de centro. Ao lado da porta de entrada, o cabideiro dá pistas sobre a atividade profissional do dono da casa. Ali estão os chapéus que Vanzolini usava para adentrar o mato em busca de bichos.

Foi com a zoologia que o boêmio ganhou a vida. Ele fez-se médico pela Universidade de São Paulo somente para facilitar o doutorado em zoologia, em Harvard, nos EUA. Especialidade: répteis. “Nunca examinei um doente na vida.” Por motivos óbvios, tem grande apreço por lagartos e lagartixas. Até hoje mantém a postos seu kit de pegar bicho. No ano passado, uma editora reuniu toda a sua produção científica. Também em 2011, a Fundação Conrado Wessel concedeu seu prêmio máximo a Vanzolini. “Vou receber em junho, na Sala São Paulo. É bom pra burro, são 300 mil reais”, admira-se. “Só que vou ter de pagar Imposto de Renda.”

Em um ano repleto de homenagens, Vanzolini receberá a Medalha Armando de Salles Oliveira. Um gesto de reconhecimento ao homem de números científicos robustos: 47 anos de trabalho no Museu de Zoologia, 31 deles como diretor, 40 mil animais capturados e a construção do mais completo acervo sobre répteis da América do Sul. A paixão pelos tais bichos começou quando ele ainda era imberbe. Aos 14 anos já estagiava no Instituto Biológico, onde foi iniciado na branquinha. “Todo fim de expediente rolava uma cachacinha, eu ganhava meia.”

No rastro dos répteis, muitas histórias. “Durante um trabalho na Argentina, fui comprar um disco da Mercedes Sosa e saí de braço dado com um soldado”, diverte-se. “O agente da polícia queria saber por que eu estava comprando aquele disco. Disse: ‘Ela é uma boa cantora’. O sujeito ficou olhando na minha cara. Me ameaçou, mas não podia fazer nada.”

Em tempos de ditadura, Vanzolini foi surpreendido por um convite impossível de ser recusado. O general Golbery do Couto e Silva, o “feiticeiro” do regime militar, o convocava a Brasília. Sem mais explicações. Enviou passagem aérea e limusine com motorista. “Ele mandou me chamar para passar um sabão. Queria me dizer que eu era contra o governo. E eu era. Me disse que isso poderia dar mau resultado.” Com calma inabalável, o cientista retrucou: “Isso vai depender de quem aguentar mais tempo, nós ou vocês”. Conversa encerrada, voltou para São Paulo.

Foi durante o tempo em que serviu na cavalaria que Vanzolini compôs um de seus maiores sucessos, Ronda, clássico que adquiriu a impressão digital de Márcia, sua mais reconhecida intérprete. “Eu sou Ronda”, já assumiu a cantora ao autor. A música é líder de pedidos nos karaokês até hoje. “As japonesas são as que mais pedem. No bar em que a Ana canta, vem escrito no guardanapo: Honda”, conta o compositor, rindo. A verdade, confessa, é que sua relação com a canção inspirada nas mulheres que observava no entra e sai dos bares à procura dos parceiros se desgastou. “Sabe o que as minhas filhas dizem? Fez, agora aguenta!” Vanzolini argumenta que a composição, de melodia pungente, é uma piada. “Começa dando a impressão de que a mulher procura o sujeito para se reconciliar, mas é para desperdiçar um pente de revólver.”

Vanzolini começou a compor quando frequentava a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo. Diz não ter ideia de qual foi a primeira composição. “Aliás, lembro, mas joguei fora, não prestava.” Outra meia dúzia teve a mesma infausta sorte. A criação favorita? “Não me ocorre nenhuma.” Dali a pouco cita aquela que considera uma de suas melhores, Longe de Casa eu Choro. “Fiz em Cambridge, pensando em São Paulo. Era uma poesia minha. O Paulinho Nogueira pegou o livro e disse: ‘Você não é poeta, é sambista. Aqui está cheio de letras de samba esperando música’. Paulinho era meu amigo de infância. Fez a melodia com Eduardo Gudin.” Outra que também teve o auxílio luxuoso de Paulinho Nogueira é Valsa das Três da Manhã. “Paulinho era um sujeito de qualidade humana excepcional.” A que mais rendeu? “Só uma deu dinheiro, Volta por Cima. Comprei livros para o Museu de Zoologia.”

Paradoxalmente, e para assombro de quem não o conhece, Vanzolini nada sabe de música. “Tenho péssimo ouvido. Não sei ler música, não sei o que é acorde”, jura. “Meu professor foi o rádio.” O método para preservar as composições consistia em decorá-las. “Se esquecesse perdia tudo. Dá uma mão de obra danada, por isso larguei”, diz. “Fica uma coisa obsessiva. Até que a música saia você não pensa em outra coisa.” O método Vanzolini de compor é outro mistério. “Inspiração a gente procura. Na cabeça. Geralmente começa com uma frase. Aí vem tudo junto, letra e melodia.”

Para quem supõe haver sempre algo autobiográfico em cada letra, o mestre desmente. “Nunca sofri com dor de cotovelo, por exemplo, é só um tema.” Na belíssima Quando Eu For Eu Vou sem Pena, interpretada por Chico Buarque em Acerto de Contas, coleção com quatro CDs que reúne a obra do autor (“essa caixa completou a minha vida”), o tom é triste. Uma tocante despedida. Mas não se trata exatamente disso. A inspiração atende pelos nomes de Miriam, Marina, Carol e Cris. “Eu estava numa fazenda, durante excursão do museu. Comecei a pensar em como seria quando partisse”, conta. “Eram as alunas que estavam ali, ele fez para elas”, entrega Ana Bernardo, diante do olhar risonho do poeta fingidor.

Boêmio de carteirinha, mulherengo apenas “na medida da necessidade”, Vanzolini adorava percorrer as ruas de São Paulo até altas horas, sozinho. Nesse périplo pela então metrópole da garoa, fez várias descobertas. “Uma vez abri uma porta e descobri os Macambiras. De outra, Virgínia Rosa.” Ana Bernardo, companheira dos últimos 15 anos, também foi um encontro patrocinado pela música. A filha do fundador dos Demônios da Garoa encantou o compositor com sua voz firme e melodiosa. “Ela entende a música que canta. É minha melhor intérprete.”

Autodefinido sambista tradicional, Vanzolini mantém o entusiasmo pela música. Ouve com admiração Noel Rosa, Dorival Caymmi, Nelson Cavaquinho, Sílvio Caldas, Cartola e Paulinho da Viola, entre outros grandes. E considera-se realizado. “Estou recebendo mais do que esperava. É muita recompensa no fim da vida”, comenta, com a sabedoria dos modestos. Na segunda-feira que antecede o carnaval, a Banda Redonda, fundada por Plínio Marcos, vai homenageá-lo. O enfarte que lhe surpreendeu em 2004, roubando-lhe 70% da capacidade cardíaca, provou ser incapaz de deter o poeta. “Estarei lá, lógico”, garante, com brilho no olhar.

Por Paulo Bicarato, às 13:24 de 29.04.2013 - Comentem!
Categoria: PretoNoBranco

26.04.2013

:: Traveling Wilburys ::

Numa canja com Traveling Wilburys :-P
[uns caras aí, tipo George Harrison, Jeff Lynne, Roy Orbison, Bob Dylan e Tom Petty]

Gracias ao Tainã Moreno e à Fernanda Vinhas

Traveling Wilburys

Aí saiu um sonzim assim:
Por Paulo Bicarato, às 15:36 de 26.04.2013 - Comentem!
Categoria: Etilíricas

:: Botecos ::

Petkovic & Rocky. Não, o primeiro não é jogador de futebol, nem deve conhecer Fluminense, Vasco ou Flamengo. E, não, o segundo não é lutador de boxe, e tem jeito de ser bem mais simpático que o Stalone.

E: sim, o boteco é pra lá de bacana -- tanto é que atrai fregueses tão especiais. Direto da BBC:

















Por Paulo Bicarato, às 11:44 de 26.04.2013 - Comentem!
Categoria: Etilíricas

25.04.2013

:: 25 de Abril: Dos Cravos ::

Já lembrei da data outras vezes, aqui mesmo no Alfarrábio. Fiquemos hoje, ora pois, só com a música. Canta, Chico!

Aqui, a versão original:


Aqui, Maria Medeiros, com Grândola, Vila Morena:


Aqui, duas versões, com entrevista do Chico:
Por Paulo Bicarato, às 18:35 de 25.04.2013 - Comentem!
Categoria: Primeira Edição

:: Rosa ::

Há quase 12 anos cometi esse pretenso-pequeno-ensaio. Foi publicado originalmente na NovaE no dia 19 de maio de 2002, exatamente no aniversário de 50 anos do início da viagem que resultou no *Grande Sertão: Veredas*. Sei lá porque cargas d'água, vire-e-mexe preciso procurar e pesquisar e fuçar pra, enfim, achar o texto original. Fica aqui, portanto, republicado na íntegra.
Nasce uma Obra

Rosa
"A gente estava em maio. Quero bem a esses maios, o sol bom, o frio de saúde, as flores no campo, os finos ventos maiozinhos. (...) Ali, a gente não vê o virar das horas. E a fogo-apagou sempre cantava, sempre."

Da Sirga à fazenda São Francisco, passando pela Tolda, Pindóia, Santa Catarina, Andrequicé, Vereda do Catatau, Meleiro, Cordisburgo. Para Manuelzão, Zito, Santana, Bindóia, Gregório, Sebastião de Morais, Aquiles, Sebastião de Jesus, o trajeto de 40 léguas, ou cerca de 240 quilômetros, já era bem conhecido. Para o auto-intitulado "vaqueiro-amador", tocar as 600 cabeças de gado de uma fazenda a outra, num percurso de dez dias, a viagem serviu de matéria-prima para uma obra que instiga pesquisadores, confunde leitores não-iniciados, desafia tradutores.

Acompanhando a boiada, atento a cada detalhe da fauna e flora do norte das Minas Gerais, sem deixar passar nenhum causo, piada, aventura, cantoria dos vaqueiros, o médico-diplomata João Guimarães Rosa mantinha presa a um cordão, no pescoço, uma cadernetinha. Os registros da viagem incluem, também, as impressões do escritor, como as frases que abrem este artigo.

Era maio, dia 19 de maio de 1952. Há 56 anos começava a viagem que resultou em "Grande Sertão: Veredas". Nonada, o neologismo hermético que inicia a fala de Riobaldo Tatarana ao baldear o "Gaiola" rumo ao norte, rumo ao "desejo de Deus", Diadorim, entraria de vez para o léxico português.

"Tenho de segredar que - embora por formação ou índole oponha escrúpulo crítico a fenômenos paranormais e em princípio rechace a experimentação metapsíquica - minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos. Sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda sorte de avisos e pressentimentos. No plano da arte e da criação - já de si em boa parte subliminar ou supraconsciente, entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase à reza - decerto se propõe mais essas manifestações. (...) Quanto ao Grande Sertão: Veredas, forte coisa e comprida demais seria fazer crer como foi ditado, sustentado e protegido - por forças ou correntes muito estranhas", diria Rosa, em "Tutaméia", sobre como a obra se fez, ou foi feita.

Presença frequente nas maiores antologias literárias, "Grande Sertão: Veredas" teve mais um reconhecimento recente. O jornal inglês "The Guardian" convocou cem escritores de todo o planeta para elegerem as cem maiores obras literárias da humanidade. O único representante brasileiro: "Grande Sertão: Veredas". Vale lembrar que Rosa e Machado de Assis disputam o título de maior escritor brasileiro. Coincidência ou não, Rosa nasceu exatamente no ano em que Machado morreu, 1908. Seria um dando continuidade à obra do outro?

O João Rosa, como o chamavam os vaqueiros, fez apenas uma exigência durante a viagem: que ninguém o chamasse de "doutor". Montando a mula Balalaika ou o burro Canário, o médico e diplomata, àquela altura já consagrado por "Sagarana" e então chefe de gabinete do ministro João Neves da Fontoura, quis apenas resgatar suas próprias origens, viver ao relento, começar o dia com um gole de cachaça e um punhado de feijão tropeiro ("Dormidas: 1ª noite: tapera de paiol. 2ª noite: garage de caminhão. 3ª noite: uma rebaixa de engenho", registrou Rosa em sua caderneta).

E percorrer as veredas, apreciar o pôr-do-sol moldado pelos buritis, saborear a sabedoria nata daqueles homens e reses tão brutos quanto sensíveis. "Isso porque a vida de vaqueiro é bebida, briga e rapariga, e a alegria de pobre é um dia só: é uma libra de carne e um mocotó", resume Bindóia (ou Raimundo Ferreira do Nascimento) no livro "Nas Trilhas do Rosa", de Fernando Granato. Bindóia, o campeiro da expedição, chamou a atenção de Rosa por um detalhe: sempre descalço, mantinha uma espora amarrada ao calcanhar.

A exemplo de Bindóia, outros vaqueiros da expedição acabaram imortalizados como personagens de Rosa. O mais famoso deles: Manuel Nardi, o Manoelzão, o caboclo de 1,90 metro de altura que protagonizaria "Corpo de Baile", ou "Manuelzão e Miguilim". E não apenas as personagens, mas boa parte das cenas narradas por Rosa, são mais do que verídicas. A inauguração da capela construída por Manuelzão em homenagem à mãe, com direito a festa e participação de todos os moradores da redondeza, é fato. Restam hoje apenas as estruturas de madeira da velha capelinha, na entrada da fazenda da Sirga, que se chamaria "Samarra" no conto "Uma Estória de Amor".

Personagem de si-mesmo, Rosa fez daquela viagem o reencontro de sua meninice em Cordisburgo, "quase só lugar." "É uma região de muito isso", diria Rosa em seu discurso de posse na Academia, exatos três dias antes de falecer, em novembro de 67. Hoje, a casa em que Rosa nasceu é sede da Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa. Entre objetos pessoais e fotos, no grande cômodo da frente está caracterizada a antiga "venda" do sr. Florduardo, ou melhor, "seu" Fulô, pai do JGR. (Parênteses: outubro de 99, estive lá. Deixei meu registro na página 55 do livro de presenças.)

Na venda de seu Fulô, Rosa teve os primeiros contatos com vaqueiros. O comércio, em frente à estação ferroviária Central, era ponto de parada dos cavaleiros. A mesma estação, hoje praticamente desativada, que, com um pouco de imaginação, pode-se "ver" o conto "Sorôco, sua Mãe, sua Filha". Entre um gole e outro de cachaça, os causos dos viajantes começavam a formar o universo literário de Rosa, depois revivido na viagem de 52, da fazenda da Sirga ao pasto do Capão do Defunto.

Ascese literária

Rosa
Da via-crucis das baldeações de Riobaldo pelo "Gaiola" à busca metafísico-existencial da Terceira Margem do Rio; da aquiescência do mundo sob a ótica do Burrinho Pedrês à purificação penitenciosa de Augusto Matraga; do non-sense sentimental do Cavalo que Bebia Cerveja à audição surda mas onipresente das orações de um sapo por parte de Maria Euzinha.

As letras como instrumento da ascese místico-medieval de Santo Tomás e Ruisbröeck; os desejos de Deus --Diadorim-- ao encontro do Fausto. A narrativa fluida mas consistente como as de um rio, "que é sempre igual sem ser o mesmo". A dureza de homens que choram e se submetem à noite da encruzilhada. Mitos junguianos revistados emoldurados pela dignidade simples --legítima!-- das durezas das lágrimas, buritis, São Francisco, chuva. Águas sempre presentes na estiagem do sertão. O sim pelo não.

O mundo concentrado num cenário infinito -"o sertão é do tamanho do mundo". Personagens que de tão normais ganham dimensões épicas incomensuráveis. Tempo legitimamente concentrado em instantes que remetem a histórias imemoriais. Tudo costurado por linhas mestras de uma linguagem única, reconstrutora de sintaxes indiferente ao pensamento cartesiano-ocidental, subvertendo lógicas à zen budismo. "Tens panos para remendos? Sim, mas de que cor são os buracos?"

Páginas herméticas acessíveis a não-iniciados; disposição de espírito, entrega de alma. "Quem tem medo de viver não nasce..."

Rosa não se furtou ao destino, e selou-o com a presença legítima em quaisquer das antologias mundiais que se prezem. O que, no entanto, tornou-se problema para os bibliotecários: onde classificá-lo? Filologia? Filosofia? Sociologia? Literatura...

Ironia do destino fazer essa confusão com os homens dos livros. Borges, quem sabe, na sua cegueira, pudesse entrever essa classificação. Ambos cosmopolitas ao extremo, marcando a literatura por detalhes locais; o Grande Sertão ou a Recoleta. Fantástica viagem pelos labirintos do ser-tão veredas.

Os óculos de Miguilim embaçaram-se. A capela de Manuelzão ganhou seu santo definitivo. Tresaventuras...

Rosa humanista

Rosa
Diplomata, servindo em vários países, João Guimarães Rosa teve uma faceta particular revelada apenas há alguns anos. Em 1938, Rosa é nomeado cônsul adjunto em Hamburgo, e segue para a Europa; lá fica conhecendo Aracy Moebius de Carvalho (Ara), que viria a ser sua segunda mulher. Durante a guerra, por várias vezes escapou da morte; ao voltar para casa, uma noite, só encontrou escombros. Ademais, embora consciente dos perigos que enfrentava, protegeu e facilitou a fuga de judeus perseguidos pelo nazismo; nessa empresa, contou com a ajuda da mulher, D. Aracy.

Em reconhecimento a essa atitude, o diplomata e sua mulher foram homenageados em Israel, em abril de 1985, com a mais alta distinção que os judeus prestam a estrangeiros: o nome do casal foi dado a um bosque que fica ao longo das encostas que dão acesso a Jerusalém. A concessão da homenagem foi precedida por pesquisas rigorosas com tomada de depoimentos dos mais distantes cantos do mundo onde existem sobreviventes do Holocausto. Foi a forma encontrada pelo governo israelense para expressar sua gratidão àqueles que se arriscaram para salvar judeus perseguidos pelo nazismo.

Rosa, na condição de cônsul adjunto, facilitava vistos aos judeus em fuga para o Brasil. Os vistos eram proibidos pelo governo brasileiro e pelas autoridades nazistas, exceto quando o passaporte mencionava que o portador era católico. Sabendo disso, a mulher do escritor, D. Aracy, que preparava todos os papéis, conseguia que os passaportes fossem confeccionados sem mencionar a religião do portador e sem a estrela de Davi que os nazistas pregavam nos documentos para identificar os judeus. Nos arquivos do Museu do Holocausto, em Israel, existe um grosso volume de depoimentos de pessoas que afirmam dever a vida ao casal Guimarães Rosa.

O escritor, que fez o que fez, sempre se furtou a comentar o assunto. Ele apenas fez o que devia.
Por Paulo Bicarato, às 15:14 de 25.04.2013 - Comentem!
Categoria: Biblios

24.04.2013

:: Contro-versos ::

Bica_HdHdSons turvos
Luzes caóticas
Odores cáusticos

A percepção distorcida
Dói
Sentidos pervertidos
Clamam atenção

Sóis soem brilhar
Luas tênues diamantam
Luz de vida própria
Silentes, calmas,

Cientes: ruídos torpes
Não passam de ruídos
O silêncio,
A paz,
Prevalecem.

E calam,
Risonhos mas fraternos,
Pela pobreza inútil
Do desperdício fútil
Do que poderia ter sido
E não foi.


[*Contro-versos* foram rascunhados no celular, e o camarada Hernani rascunhou artezinha também no celular, que ficam como ilustração]
Por Paulo Bicarato, às 14:40 de 24.04.2013 - Comentem!
Categoria: Etilíricas

06.04.2013

:: Graffiti ::

1. Pesquisa básica:
Led Zeppelin icons

2. Materiais básicos:
graffiti1

3. Rascunho básico:
graffiti2

4. Recortes básicos do stêncil:
graffiti3

5. Teste básico na garagem (forçando o dedo e deixando vazar):
graffiti5

6. Seguindo passos básicos do Saci:
graffiti4

7. Resultado básico final:
graffiti6
Por Paulo Bicarato, às 17:12 de 06.04.2013 - 1 já comentou aqui
Categoria: Linux Vida Open Source

18.03.2013

:: Solidão ::

Solidão não é o vazio de gente, é mais que isso...
Solidão não é a falta de gente para conversar, namorar, passear ou fazer sexo... Isto é carência.

Solidão não é o sentimento que experimentamos pela ausência de entes queridos que não podem mais voltar... Isto é saudade.

Solidão não é o retiro voluntário que a gente se impõe, às vezes, para realinhar os pensamentos... Isto é equilíbrio.

Solidão não é o claustro involuntário que o destino nos impõe compulsoriamente para que revejamos a nossa vida... Isto é um princípio da natureza.

Solidão não é o vazio de gente ao nosso lado... Isto é circunstância.
Solidão é muito mais do que isto.

Solidão é quando nos perdemos de nós mesmos e procuramos em vão pela nossa alma....

Francisco Buarque de Holanda
Fátima Irene Pinto

Solidão
[Roubartilhado do Nassif]
Segundo clichê: autoria devidamente corrigida, conforme indicação do dotô Adauto.
Por Paulo Bicarato, às 19:04 de 18.03.2013 - Comentem!
Categoria: Etilíricas

08.03.2013

:: Mulheres da Minha Vida ::

Desculpem-me se o título causa alguma expectativa, mas o texto não é meu -- é do meu pai, o *seo* Toninho, escrito há cerca de um ano e meio. Resgatei o texto lá do Chuva Criadeira como uma homenagem ao Dia Internacional da Mulher.
As mulheres da minha vida

Entre as teorias sobre a origem do homem, há os que, na esteira de Darwin, teórico da evolução das espécies, dizem que o ancestral mais recente do homem é o macaco. Sem questionar se estão certos ou errados, como também sem me apegar ao que diz ipsis litteris o texto, digo logo que acho mais nobre o que afirma a Bíblia: “Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida, e o homem se tornou ser vivo” (Gn 2,7).

Simplesmente imagino Deus numa tarde de outono, contemplando as maravilhas da natureza que criara. Viu que ali faltava algo. Agachou-se, começou a brincar com o barro, plasmou com ele um boneco, achou-o bonito, mas sem vida. Inspirado, “soprou-lhe nas narinas o sopro da vida, e o homem se tornou ser vivo”. Estava criada sua obra-prima. “Mas… que será que ainda está faltando” – pensou. Ah! já sei. “Não é bom que o homem esteja só. Vou dar-lhe uma companheira que lhe corresponda.” E aí, até ele se surpreendeu com a maravilha que criou. Sorrindo, apresentou-a para Adão que, extasiado, exclamou: “Desta vez sim, é osso de meus ossos e carne de minha carne! Chamar-se-á ‘mulher’, porque do homem foi tirada” (Gn 2,23).

Mais feliz que Adão, não tive uma, mas várias mulheres. A primeira, é claro, foi minha mãe. Mesmo analfabeta, foi a mulher forte que, quase sem a ajuda de papai, que labutava de sol a sol para levar o pão para nossa mesa, educou quatro filhos com a sabedoria dos simples. Não poupou a vara quando necessário, mas hoje nenhum dos filhos se queixa de que tenha sido assim. Cedo, porém, me ausentei de casa para estudar e, após o retorno, pouco tempo convivi com ela, pois logo me casei. À distância, contudo, nunca deixou de acompanhar nossa vida, até que Deus a levou depois de 88 anos bem vividos.

Casados, eis que já no primeiro ano de nossa vida a dois, surge nosso primeiro rebento. Rostinho redondo, pele morena, olhos castanhos roubados da mãe, vivos e buliçosos. Linda como uma flor! Patrícia Carla foi o nome que lhe demos no batismo. A mulher decidida e que sabe bem o que quer já se manifestava na criança que aos 4 anos começou a frequentar a escola. E crescia em formosura e sabedoria. A mãe, que já aos nove anos mexia nos livros do tio e lia romances, desde cedo incentivou-a à leitura. Patrícia, como os irmãos, viveu rodeada de livros. Rabiscados – diz ela que pelos irmãos –, eles existem até hoje em nossa biblioteca. Narizinho arrebitado, senhora de si, teve vários namorados, mas casou-se com o Luís Ricardo, casamento que perdura há 19 anos. Orgulho-me de ser pai de tal filha. (Aliás, se a estas alturas da vida pelo menos esse orgulho me é permitido, orgulho-me de todos os filhos que tenho.)

Depois dela, vieram o Paulo Henrique e o Marcelo Renato. Marcelo é solteiro e Paulo, em 2010, se casou com a Rose. Os dois já se conheciam há alguns anos, mas a família só veio a saber da Rose não faz muito tempo. Tempo, no entanto, que foi suficiente para nos revelar a meiguice e simplicidade que lhe são próprias. Professora, essa raça parece estar em extinção, tal o menosprezo que nossos homens públicos têm pela cultura e educação em nosso país. Aliás, com o mau exemplo vindo de cima, toda nossa sociedade pouco apreço tem por essa profissão. E de fato são tal mal remunerados os mestres do saber que, num mundo que valoriza muito mais o ter que o ser, a busca primeira é por profissões que rendem mais. Idealista, a Rose continua sua luta. Inglória, dirá alguém, mas que não deixa de semear o bem em corações. E o bem sempre dará frutos.

Dias atrás, a Maria Paula completou 14 anos. É a filha da Patrícia e do Ricardo. No buquê de flores femininas que me rodeiam, é botão desabrochando. Quando nasceu, era fotocópia tão idêntica da mãe que, lá pelos seus seis ou sete anos, ao lhe mostrarem a foto da mãe bebê, dizia que era ela e não a mãe. O sangue mouro do bisavô paterno tingiu-lhe a pele com a cor do jambo. Pacata, meiga, educada, só é teimosa com o pai e a mãe. Aluna há dez anos de uma das boas escolas de São José, a Monteiro Lobato, sempre esteve entre os primeiros da classe. Quase todos os dias vem para a casa do vô depois das aulas. Quando chega dizendo que teve prova e lhe pergunto como foi, invariavelmente responde: Mais ou menos. Poucas vezes, entretanto, a nota desse mais ou menos é menos que 10!

Ao entrar para a família, Rose trouxe, de seu primeiro casamento, mais uma mulher: a Mariana. O Paulo a adotou como filha, ela o adotu como pai e amigo, consequentemente eu a adotei como neta. Há pouco, acabou de se formar esteticista, que, para mim, era uma profissão simplesmente para cuidar da beleza das pessoas. Eu mesmo, no entanto, já fui alvo de ela demonstrar que não faz apenas isso. Examinou uma pequena manhca no meu rosto e disse que aquilo poderia vir a ser um câncer de pele, apontando em seguida os cuidados que deveria tomar. Ou seja, já lucrei com sua vinda.

Depois de dois filhos homens, eis que nos vem mais uma filha mulher. Maria Cristina é o nome dessa outra boneca. O sorriso no rosto ela o trouxe já do parto e a acompanha até hoje. Sorriso e beleza que guardam por trás a menina corajosa e destemida que é. Com a família toda morando em São José e Jacareí, e solteira ainda, mora sozinha em Guará. Agora, numa casa pequena, mas em 1999/2000, também só, morou um ano em nossa casa da Gustavo Molica, que era enorme. Só, e Deus. Só e seu Anjo da Guarda. Mesmo tendo curso superior, luta destemidamente por se manter. Nem por isso o sorriso a abandona. Esse, talvez, seu maior segredo.

Contrastando com a pacatez da Maria Paula, o caçula, Antonio Carlos, e a Cristiane nos deram a Isabela. Vivacidade e inteligência fora do comum. Aprende as coisas com facilidade espantosa. Ai do vô se mexer no computador ao lado dela. “Não é assim, vô!” Não para um minuto. A energia é tanta que tem necessidade de queimá-la ininterruptamente. De pele clara, puxando certamente aos avós maternos, é bela até no nome. Desde pequenina, estuda também na escola Monteiro Lobato. Além do curso normal, faz balé, estuda música, inglês… É rosa ainda em botão!

Quem falta? Ah, falta a intelectual da família, a Cristiane, esposa do Antonio Carlos e mãe da Isabela. Formada em Engenharia Elétrica, com mestrado em Sistemas e Controles, trabalha atualmente na Embraer. Se um avião cai, não sei se lhe podemos atribuir a causa, mas trabalha na área de projetos. Brincadeira à parte, é na verdade, junto com centenas e milhares de outros, responsável pela atualização desse invento fantástico de Santos Dumont. É a mulher que menos vemos na família, pois trabalha de sol a sol e ainda usa horas da noite para estudar, se necessário até em fins de semana.

Bem, e paro por aqui. Mas como, se nada falei daquela que, além de minha mãe, é a origem de todas essas mulheres em minha vida? Esqueço, por acaso, da mãe de minhas filhas, mãe de meus filhos, sogra de genro e noras, avó das minhas netas? De maneira alguma. Depois de mamãe, ela poderia ter encabeçado a lista. Mas foi proposital deixá-la para o fim. Para fechar com chave de ouro essa galeria que pobres palavras mal dizem de sua importância para minha vida. Povoou os dias todos de meus cinquenta últimos anos, de forma física, palpável, visível, trabalhando, vencendo e caindo, sorrindo e chorando, lutando por ideais e novas realizações, incentivando-me a mim e aos filhos em tudo. Ardorosa amante da vida, por quase dez anos batalhou contra a doença insidiosa que a fez passar à minha frente na volta à casa do Pai.

Não te vejo mais, Benê, a não ser em sonho e nas fotos. Não te toco mais, não te abraço, não te beijo. Mas continuas povoando minha mente e coração, pois figura como você jamais passaria pela vida de um homem sem deixar marcas que o tempo consiga apagar.

Toninho

27/08/2011
Por Paulo Bicarato, às 18:20 de 08.03.2013 - 2 comentários
Categoria: Etilíricas

26.02.2013

:: El Chol, Natal de 1993 ::

Lá nos idos dos 80's do milênio passado fomos colegas de escola. Me lembro quando terminamos o colegial e o Jarbas, um magrelo com cara de Visconde de Sabugosa e Professor Pardal nato, se preparava pra uma trip maluca: ir de bike até o... Alasca! Ficamos décadas sem nos ver, e acabei por reencontrá-lo em Monteiro Lobato, onde ele faz um trabalho muito bacana com a comunidade. Não à toa, acabou sendo eleito vereador -- tenho certeza de que fará história na Câmara de Monteiro.

Mas essa introdução é só uma desculpa pra copiar&colar um texto dele, em que conta um pouco da aventura que foi a trip. Com vocês, Jarbas:
El Chol, Guatemala, 7 de dezembro de 1993

Jarbas Presépio
Acabo de chegar a este pequeno povoado no interior, entre montanhas e nuvens e passado. Percebo no agito e cores da “plaza” central que dever haver alguma comemoração em andamento. Encosto a bicicleta no muro ao lado do cemitério e sento no cimentado que forma umas três fileiras quase como uma arquibancada para o pequeno campo de futebol. Ali adultos e jovens se revezavam com suas espingardas calibre 22 num campeonato de tiro. Impossível não ser notado com uma bicicleta e aparência tão exóticas para a localidade. Em minutos tenho um público questionando sobre a viagem e meninos e meninas curiosas com todas aquelas tralhas no “rocinante” (foi o apelido carinhoso que minha companheira ganhou na Venezuela). Conheço logo em seguida Carlos, um dos organizadores da festa de “Nuestra Señora de La Concepción”, que seria celebrada no dia seguinte. Recebo convite para pousar em sua casa, já que não haveria pensão ou nada parecido livre no povoado naquela semana. Senti muita sorte e poder passar meu aniversário numa ocasião e lugar tão especiais.

Decidi permanecer uns dias mais no vilarejo. A amizade com Carlos e sua família se estreitou e numa das muitas longas conversas, o assunto caiu em presépios. Ele construía todos os anos um enorme em sua sala. Era costume quase todas as residências terem um e ocorrer uma peregrinação de visitas a presépios por todo o mês. Carlos mencionou que seu sonho era criar bonequinhos com movimento, mas que não tinha idéia como fazê-lo. Indaguei se ele tinha motorzinhos e me disse que seu irmão havia mandado uma sacola cheia do Alabama, mas não sabia como usá-los. Depois de mais algumas perguntas sobre as escassas ferramentas que possuíam (a vila toda tinha um telefone!!) decidi por ficar lá e construir umas peças, já que eu brincava com mecanismos desde minha infância.

As semanas que seguiram foram de longas horas de trabalhos, risos e sonhos compartidos. Crianças disputavam o espaço como força motriz do esmeril a manivela e eram rápidas e encontrar o que fosse requisitado. Deliciosas tortilhas com queijo fresco perfumavam a casa. “Luisito; tienes que comer bien para tan largo viaje”, repetia a mãe de Carlos todas as manhãs.

No dia de Natal meia dúzia de bonequinhos criaram vida; com carinhas de papel machê feitas por Carlos e roupinhas costuradas por sua esposa. Mecanismos de motores de toca-fitas, eixos de bambu, polias de papelão, correias de elástico e câmaras de ar eram os responsáveis pela magia. Serradores e pescadores e tiradores de água de poço colocavam brilho nos olhos dos pequeninos visitantes de pés descalços. E dos grandes também.

Tenho doces memórias dos natais de minha infância, com cheiro de Panetone caseiro e castanhas quebradas nas dobradiças das portas às escondidas. Com o raro spray de neve nos natais que as economias permitiam. Com o pequenino presépio que vinha peça por peça de brinde em algum produto do supermercado, pintado a guache e hoje todo descascado, com seus camelos sem pernas pelo plástico ressecado.

Mas o Natal de El Chol foi o melhor de minha vida.

E, naquela noite, fiz a promessa de que, o dia que fincasse raízes, faria um presépio com o mesmo brilho de olhos de criança para minha cidade adotiva.

Um Feliz Natal, Monteiro Lobato.

Um agradecimento de coração aos amigos especiais Alex, Aleandro, Letícia e Primo que abraçaram este sonho e dedicaram muitas horas neste trabalho. E aos demais que ajudaram diretamente ou indiretamente para que desse certo.

Jarbas
Segundo clichê: no Natal de 2012, a pracinha em frente à Prefeitura de Monteiro Lobato ganhou um grande presépio animado, com inúmeros bonequinhos se movimentando. Obra do Jarbas, feita colaborativamente com a comunidade.
Por Paulo Bicarato, às 14:43 de 26.02.2013 - Comentem!
Categoria: Linux Vida Open Source

14.02.2013

:: Bridge Over Troubled Water ::

Com a devida licença do sr. Wagner, faço hoje aqui a minha estreia com as *Versões*, com nada menos que *Bridge Over Troubled Water*, do Simon & Garfunkel -- disco que era um dos preferidos da minha mãe, a dona Benê. Taí, Mama! :-)

Roy Orbison:


Elvis Presley:


Jonnhy Cash & Fionna Apple:


E aqui, os *pais*: Simon & Garfunkel:


Detalhe: cinco Grammys em 1970, e dezenas de gravações, com os mais variados nomes -- mais aqui. Letra e tradução, aqui.
Por Paulo Bicarato, às 17:07 de 14.02.2013 - Comentem!
Categoria: Etilíricas

29.01.2013

:: Eis a tragédia do espetáculo, ou o espetáculo da tragédia ::

Eu mal vejo TV. Mas outro dia peguei uma chamada pro novo *humorístico* da Globo, o Pé na Cova, tendo à frente um dos caras mais abomináveis que já vi, o Miguel Falabella (que triste sina, a da competente atriz Débora, ter o mesmo sobrenome desse infeliz). Comentei no Facebook, só a título de registro, sobre o mau gosto, pra dizer o mínimo, do tema escolhido pro humorístico.
Fiz uma pesquisa rápida, e achei no site da Globo o release sobre o programa. A chamada:*O negócio deles é de morte! Saiba mais sobre Pé na Cova*. Sim, o negócio deles é de morte. Independentemente de qualquer tragédia, pensei em como o *show da vida* (ou da morte, como queiram) vale mais do que qualquer vida.

É a *força da grana que destrói coisas belas*, diria o Caê. E, aqui, destrói o que de mais belo e valioso temos: a vida. Mas a grana fala mais alto: ouço, aqui, de orelhada, outro ser abominável, o Fausto Silva, anunciar: *veja daqui a pouco no Fantástico a reconstituição completa da tragédia em Santa Maria*. Sim, triste sina a da cidade gaúcha, ter o nome da Santa. Mas o *show da vida* tem que continuar, atiçando a morbidez espetacularizada, dando o close nos rostos dos familiares, exibindo o perfil de cada um daqueles jovens...

O negócio deles é de morte. Se, todos os dias, alguém perde um ente querido, o que motiva um pretenso humorístico a escrachar a morte? Mesmo o executivo da Globo mais prático, digamos, pensando em termos comerciais, não considerou que são centenas (milhares?) de telespectadores a menos naquele dia do programa?

Essa semana, no dia desse fatídico *humorístico*, a Globo vai perder a audiência de pelo menos umas 240 famílias (isso numa contabilização direta, sem contar os amigos, colegas de trabalho etc.). Se a sensibilidade moral, humana, solidária já não existe mais, que sintam, portanto, a *força da grana*. É o que lhes resta, infelizes e pobres seres (eu ia escrever *almas*, mas seria contraditório demais -- eles não as têm).

Não sei quem são os culpados pela tragédia de Santa Maria, mas tenho algumas suspeitas: a grana, falando mais alto do que a vida. Quando a morte vira piada comercial, insensível, o riso que essa mesma piada pretensamente deveria provocar só gera lágrimas. E doloridas, irrecuperáveis.

O poeta John Donne já disse, e Hemingway apropriou-se do verso: *a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti*. Choro, porque os sinos já nem mesmo dobram -- ou, apenas, na TV, pra compor a trilha sonora do show...
Por Paulo Bicarato, às 10:41 de 29.01.2013 - 1 já comentou aqui
Categoria: PretoNoBranco