01.07.2016

:: Elias: Matemágica ::

Se é de verdade, confesso que não consegui checar. Mas que é impressionante, isso é! O Elias não sabe ler nem escrever, mas tem um dom mágico. Como disse o brôu Marcelo:
putz, o mais lôco é que o cara não sabe ler números nem conhece os símbolos matemáticos!

ou seja, as contas que ele faz de cabeça NÃO SÃO matemática! são qualquer outra coisa, menos matemática.

Por Paulo Bicarato, às 15:24 de 01.07.2016 - Comentem!
Categoria: Almanaque

28.06.2016

:: Literatices: HQ ::

Ye_Monkix
Sou só um pretenso literato: sei que li mais do que a média (o que não é mérito nenhum), mas muito menos do que deveria ou queria ou poderia. No meio dessas infinitas descobertas que são os livros, de uns tempos pra cá venho me embrenhando noutras linguagens: os quadrinhos. Muito por culpa dos meus irmãos, o Marcelo e o Cacá, que abriram a Monkix. De zines a autores independentes, passando por adaptações de clássicos da literatura e outras surpresas, tem de tudo um pouco lá: um pequeno universo do que há de mais expressivo na área. Sem contar que, vira-e-mexe, tem algum lançamento ou tarde de autógrafos ou um auê qualquer com direito a cerveja e rock'n roll.

Da leva mais recente, destaco dois livros -- diametralmente distintos no tema e na linguagem, mas com algo em comum: sensibilidade. O primeiro, uma ficção marcada pelos traços mais suaves do Guilherme Petreca, mescla piratas, bruxas, malandros e monstros na jornada muda do menino Ye, numa narrativa fantástica pincelada de aventura e magia.

Já o segundo, Ghetto Brother, vem com traços mais 'brutos', como aliás convém ao roteiro: o cenário de guerra das gangues do Bronx na década de 1970, e a busca pela paz liderada por Benjy Melendez, num histórico acordo com os líderes das gangues que inspirou filmes como Warriors - Os Selvagens da Noite e é considerado o considerado o marco inicial da cultura hip hop. Tudo fruto das pesquisas do fotógrafo alemão Julian Voloj, traduzido nas ilustrações da também alemã Claudia Ahlering.

Sei que esse é só um registro das minhas parcas impressões, e tá longe de ser uma resenha mais profunda (nem tive essa pretensão): fica como dica pra quem se interessar. Dicas, aliás, que vieram do Marcelo, que saca tudo e mais um pouco de quadrinhos: pode charmar ele aí no feicebúqui que ele responde. Mas -- garanto! -- vale a pena ir pessoalmente lá na Monkix pra bater um papo com ele.

:: Momento jabá ::
>> Monkix: o site
>> Monkix no Feice
Ghetto_Monkix
Por Paulo Bicarato, às 16:33 de 28.06.2016 - Comentem!
Categoria: Biblios

22.06.2016

:: Guarabyra: um Causo 'Licoroso' ::

Sabe aquele típico causo, quando um cantador-contador relembra quando e como foi feita determinada música? E, em se tratando de uma canção que faz parte do repertório popular, ganha um tom quase que familiar pra quem ouve o causo. Foi o que aconteceu em abril, no EducaMais Jacareí, num show memorável do meu camarada Tuia Lencioni, lançando o CD 'Reverso Folk', com as participações especialíssimas do Tavito, Guarabyra e Zé Geraldo. Lá pelas tantas, o Guarabyra soltou o causo. Deixemos que ele conte.

Íntegra do show pode ser (re)vista aqui, num oferecimento da TV Câmara Jacareí.

Por Paulo Bicarato, às 11:56 de 22.06.2016 - Comentem!
Categoria: Etilíricas

16.04.2016

:: Febeapá ::

Fiquem à vontade pra classificar como non sense, imbecilidade, irracionalidade, intolerância ou simplesmente burrice mesmo -- ou tudo isso junto e mais um pouco. Ou, ainda, um ensaio digno do Teatro do Absurdo, do Beckett, e as infinitas possibilidades de exploração da *incomunicabilidade humana*, como lembrou meu caro amigo Claudio Mendel -- na definição de Martin Esslin:
*O teatro do absurdo se esforça por expressar o sentido do sem sentido da condição humana, e a inadequação da abordagem racional, através do abandono dos instrumentos racionais e do pensamento discursivo e o realiza através de 'uma poesia que emerge das imagens concretas e objetificadas do próprio palco'*
Quem me mandou foi o brôu Marcelo, que comentou: *nem nos seus delírios mais febris Stanislaw Ponte Preta poderia imaginar um Febeapá nesse nível*.

O causo é do Gamba Junior, que não conheço, mas agradeço desde já. Segue:
14 de abril às 09:14 · Rio de Janeiro, RJ

UM CAUSO SOBRE A ÚLTIMA MANIFESTAÇÃO PRÓ-IMPEACHMENT

tfp
Eu fui à passeata para fotografar. Na ala pró-intervenção militar estava um grupo com banda, a TFP. Fui pedir um folheto da instituição para ler os absurdos. Como já havia acabado, um senhor foi pegar no carro um último e me deu. Enquanto ele me explicava o conteúdo do fôlder que tinha como título "para os sucessores do PT", uma fiscal da passeata se aproximou e perguntou que folheto o senhor estava distribuindo. Eu mostrei, mas ao ver o título começou a bradar aos seus parceiros que tinha alguém distribuindo folhetos do PT.

Muitos outros vieram e ele explicava que era da TFP e não do PT. Eu também expliquei que o título era: "aos sucessores do PT", mas não adiantou, ela gritava "então, do PT, sucessor do PT é PT"! Chegou mais gente dizendo que se ele era do PT não podia estar ali, começaram a querer expulsar o velhinho e sua banda. A esta altura eu já estava defendendo o senhor de tamanha burrice: "o texto é para quem for substituir, não para quem está!" Ele só repetia "não sou PT, sou TFP!"

A horda de indignados coxinhas aumentava até que outro senhor do grupo de fiscais se meteu no meio e berrou "vocês estão loucos? Eles são da TFP - Tradição, Família e Propriedade, o grupo que apoiou a ditadura militar e que é de extrema-direita". Explicou mais uns detalhes sórdidos enquanto os demais se acalmavam. Todos os fiscais entenderam, se acalmaram, abraçaram o velhinho da TFP, pediram desculpas e a bandinha seguiu com a passeata.

Esse causo vai entrar para minha história como o dia em que tive que defender um senhor da TFP.

Esse causo vai entrar para os anais da ignorância de como um grupo tão ignorante pode achar que a TFP defendia o PT.

Esse causo vai entrar para história provando que essa nova direita considera a TFP muito à esquerda dela!

(História verídica)
P.S.: nada a ver, ou, sei lá: enquanto rascunho isso aqui tá tocando Aqualung, do Jethro Tull.
Por Paulo Bicarato, às 16:54 de 16.04.2016 - 1 já comentou aqui
Categoria: Primeira Edição

11.04.2016

:: Rádio Rock ::

Lá nos longínquos 80's e 90's, lá em Guará, havia uma galera que produzia uns programas independentes e alternativos de rádio, only rock'n'roll. Tudo ao vivo, com uma boa (over)dose de improviso. Invariavelmente, o estúdio da rádio era 'invadido' por uns & outros, que sempre davam um pitaco aqui e ali e interferia na 'programação' -- que, na verdade, era uma grande brincadeira. Patrocínio? Eram amigos que se cotizavam pra comprar o horário da rádio, e olhe lá...

Um dos mais expressivos foi o 'Ressonância', esse aí que eu 'vesti a camiseta', numa foto lá dos tempos da faculdade de botecos antigos, ao lado dos comparsas de República Marcos Correa e Marcelo Pedroso.

E no último sábado parte desses dinossauros se reuniu nos estúdios da 97,1 FM pro 'Ressonância Especial Quando a Rádio Era Rock': Luiz Carlos Verza, Beto Branco, Luciano Amazonas e Petrônio Vilela -- são os quatro elementos aí da foto mais abaixo.

Mas, com vocês, seguem aí quase três horas com as mais variadas expressões do rock:



Brôus - Ressonância
Eu, Marcos & Marcelo


Ressonância - Beatles
Luiz Carlos, Luciano Amazonas, Petrônio e Beto Branco


Ressonância


Segundo clichê: com a valiosíssima colaboração do Luís Ricardo, seguem os nomes dos responsáveis culpados pelos programas:
.:: Ressonância: Tchélo Nunes [in memorian]
.:: Overdose: Luiz Carlos
.:: Radiação: Petrônio
.:: Geração 90: Chico
.:: Comando Brasil: Oldemar Telles e Luís Ricardo


Terceiro clichê: e o post atiçou a prodigiosa memória do meu irmão, o Marcelo, que manda mensagem e o link pra *Amanhã*, do Caetano:
*sobre o *Comando Brasil*: o programa rolava aos sábados à noite, e essa foi uma que eles tocaram num dia 31 de dezembro, quase certeza que foi 1988*
Me assusto, claro, e pergunto se houve algo marcante naquela noite, enquanto confiro no Google em que dia da semana caiu aquele tal de 31/12/88 -- é, foi um sábado! E ele, como se fosse a coisa mais óbvia e clara do mundo:
*31 de dezembro, um sábado, eles tocaram *Amanhã*, do Caetano. O Oldemar ainda falou uma mensagem de ano novo antes da música. Saímos do programa, fomos pra casa cear e depois, Itaguará.
Ele se refere ao Itaguará Country Clube, palco de réveillons obrigatórios -- só não digo também *inesquecíveis* porque, invariavelmente, o ano começava com um certo teor etílico algo acima do normal, o que frequentemente provocava amnésia...

Erramos: Marcelo também acaba traído pela memória prodigiosa -- ele me chama e avisa:
*ah, uma lembrança que me veio ontem, vale a correção: a versão de *Amanhã* que o Oldemar tocou no programa foi do Guilherme Arantes, e não do Caetano.
Então, taí:



Mas, ainda assim, fiquemos também com o Caetano, e com a bela lembrança do Marcelo:

Por Paulo Bicarato, às 17:14 de 11.04.2016 - 2 comentários
Categoria: Etilíricas

08.04.2016

:: Trevas Culturais ::

~ Breve Histórico ~

Estamos em um cidade que se orgulha de sua pujança econômica, de ser um polo tecnológico, de se autointitular a *capital* da região, de estar na vanguarda (?), de ser terra natal do modernista (e nacionalista) Cassiano Ricardo.

A Fundação Cultural local, batizada com o nome do poeta, encaminha à Câmara o projeto pra criação do Sistema Municipal de Cultura. Mas eis que do texto original são extirpadas, sem dó nem piedade, todas as menções a *diversidade*, *transversalidade* e afins, excluindo trechos e conceitos como *respeito às diferenças culturais*, *liberdade de expressão e criação*, *combater a discriminação e o preconceito de qualquer espécie ou natureza*, *direito à identidade, diferenças e diversidade culturais*.

O autor da façanha é um senhorzinho de 70 anos, um oriental de feições simpáticas que lembra aquele feirante atencioso e bonachão. Mas, do alto de sua quinta (5ª!) legislatura, o senhor Walter Katsunori Hayashi conseguiu, numa facada só, sugerir a alteração de 22 artigos do texto original, mutilando completamente o conceito, a forma e o conteúdo da proposta.

A justificativa do sr. Hayashi seria risível, se não fosse trágica e remetesse a mesma cidade vanguardista às brumas medievais (putz!, consegui). E, com toda candura, ele diz com todas as letras em entrevista à tv que, ironicamente, se chama *vanguarda* -- confiram com seus próprios olhos e ouvidos aí no vídeo.

- O texto original acabou sendo aprovado, após a mobilização da classe artística e cultural. Mas passou raspando, com o placar final de 11 a 9. Ou seja: o medievalismo segue vivo, e à espreita, pronto pro próximo bote [*].



Pra saber mais: "Diversidade Cultural" incomoda vereadores da oposição em São José

[*] Basta conferir, por exemplo, a reação dessa moça ao extrapolar toda sua energia em nome do *povo cristão* e da *família joseense*: clique aqui.
Por Paulo Bicarato, às 16:42 de 08.04.2016 - 2 comentários
Categoria: PretoNoBranco

10.03.2016

:: Travessia ~ Margem ::

Camarada Luciano Coca manda a provocação, a partir de *cena registrada no Bairro do Raizeiro, zona rural de Parahytinga, São Luiz, em um fim de tarde primaveril*:
Nosso novo desafio: resuma em uma frase qual é o sentimento que essa cena desperta em você. Ou seja: "Que encanto é esse?".
Solte sua imaginação e boa viagem.
E a cena:

Como sempre, soltei lá, ainda que impunemente:
*margens do porvir, terceiras margens no navegar preciso à luz do ser tão humano*
É mais do que óbvia a referência ao Guimarães Rosa, e a um de seus mais emblemáticos contos (talvez *o* conto). Mas cena diz muito mais, e poderia ficar horas e horas repetindo-a, e a cada momento surgiriam novas interpretações. Essa *provocação* do Coca, e essa riqueza infinita de cenas, cores, gentes, cheiros e paisagens, integram um projeto maior do próprio Coca, o Revelando o Vale:
uma jornada fotográfica pelas histórias, estórias, paisagens, miragens e cenas, tradições e costumes da Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte de São Paulo.
O acervo tá crescendo a cada dia, mas bem sei da missão impossível a que o Coca se propôs: essa nossa região é pródiga em belezas e gentes e causos. Aliás, pra ficar ainda mais impossível: duvido que o camarada conte, em causo, a feitura de cada foto...

Mas, a propósito, eis que o jornal Estado de Minas dá um tempo nas manchetes espúrias desses tempos nebulosos que vivemos e nos brinda com uma reportagem pra lá de bacana:
Estado de Minas inicia homenagens aos 60 anos da obra fundamental de João Guimarães Rosa com relatos das jornadas de vidas e mortes de anônimos Diadorins do sertão mineiro em busca da própria identidade. Pessoas que, como a misteriosa criação do escritor, tiveram coragem para enfrentar os perigos e, tão certas de si, vivem "o calor de tudo".

***Travessia***
Gustavo Werneck (textos), Alexandre Guzanshe (fotos) e Fred Bottrel (vídeos)
>> confira aqui
Revelando o Vale

Só pra constar, registre-se o pretenso ensaio que cometi em 2002, pra marcar o início dessa história toda:
Foi publicado originalmente na NovaE no dia 19 de maio de 2002, exatamente no aniversário de 50 anos do início da viagem que resultou no *Grande Sertão: Veredas*.
>> confira aqui
Por Paulo Bicarato, às 13:47 de 10.03.2016 - 2 comentários
Categoria: Biblios

26.02.2016

:: Petaloso Pretupitério ::

Que a língua é viva e tem dinâmica própria a gente já sabe. E vive e se multiplica e se replica independentemente e à revelia e contra as regras academicistas. Por isso é linda e apaixonante e, por si mesma, inspiradora. Que o diga o Mestre-maior-de-todos, Guimarães Rosa:
*De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira... Mas ainda haveria mais, se possível...: além, dos estados líquidos e sólidos, porque não tentar trabalhar a língua também em estado gasoso?*
João Guimarães Rosa, em carta a João Condé (1946)
Claro que não resisto a citar o Rosa, ainda que impunemente, em um textinho gasoso e improvisado como esse. Improviso e gambiarra que também são ingredientes dessa alquimia que (re)transfigura a língua permanentemente. Ou: ó p'cê vê..

Mas isso porque, por intermédio ou culpa do mestre Sergio Léo, fico sabendo da deliciosa história do delicioso causo do surgimento da palavra *petaloso*, em italiano. Mestre SLeo invoca o *não-preconceito linguístico*, com propriedade, o que não tira o sabor e o colorido da poesia que nasceu de um *belo erro* (transgressão voluntária ou não) e da sensibilidade da professora: *petaloso* foi criada por Matteo, de 8 anos.
petaloso
“Petaloso”. Esta é a mais nova palavra do idioma italiano e foi criada por um menino de 8 anos de idade, em um “erro” escolar. O curioso caso gerou tanta repercussão na Itália que até o primeiro­-ministro, Matteo Renzi, e a montadora Fiat já adotaram a expressão, que significa literalmente “ter muitas pétalas”, mas se refere a algo “bonito”. Matteo, filho do casal Lisa e Marco, escreveu a palavra “petaloso” durante uma aula na escola primária “Marchesi”, localizada na cidade de Copparo, região da Emilia Romagna. A palavra foi bem­ vista pela professora Margherita Aurora, de 42 anos, que divulgou a criação de Matteo.

Em poucas horas, “petaloso” já despontava nos trendings topics do Twitter e do Facebook. “Matteo foi muito inteligente, mas isso poderia ter acontecido com qualquer outra criança da turma, pois eu sempre tento desenvolver nos meus alunos uma certa fantasia, criatividade. Acredito que o que aconteceu tenha sido fruto do trabalho que fazemos todos juntos”, disse Aurora.

De acordo com a professora, a palavra surgiu durante uma atividade sobre adjetivos. O menino escreveu “petaloso” para definir a palavra “flor”. Apesar de Aurora circular o termo com uma caneta vermelha para sinalizar o “erro”, acrescentou um comentário na correção para estimular a criança: “belo”. “Apesar da palavra não existir, gostei dela. Por isso, recomendei enviá­-la à Academia Crusca para uma avaliação”, explicou Aurora. Após analisar o novo termo, a Academia admitiu que a palavra pode ser incorporada ao idioma italiano caso seu uso passe a ser recorrente.

Matéria original da Ansa:
Menino de 8 anos inventa nova palavra no idioma italiano
"Petaloso" já foi usada pelo premier Renzi e pela FCA
Se a criatividade e liberdade e *molecagem* do Matteo e das crianças são naturais, consolo-me por saber que esse mesmo espírito lúdico pode -- e deve! -- ser preservado. E a gente brinca e tem o privilégio de respirar e compartilhar os ares e paisagens de algumas *crianças*. Claro que, obviamente, há ares e lugares e paisagens que favorecem a proliferação de certas espécies especiais, estas, por sua vez, genitoras de espécimes sui generis e endêmicos como um Marquinho Rio Branco. Há outros diversos, nascidos e criados em bambuzais e amamentados em alambiques imemoriais, alguns até que camaleonicamente se disfarçam de professores ou fotógrafos ou jornalistas ou açougueiros ou advogados (ou... ou...), mas todos cientes da missão sagrada de vivenciar e difundir a gostosa e saudável loucura de se reinventar e transgredir a cada dia, a cada lua. E, pois, abram aspas:
Domun Lorelapa
Claro que, enquanto *cidadãos de bem* e *defensores da família brasileira* que somos, permitimo-nos o uso de palavras de baixo calão somente em casos excepcionais, e/ou como exercício pleno da nossa expressão mais pura. Que interjeição ou exclamação, por exemplo, é mais clara e direta que um sonoro *putaqueopariu!*?

Mas, com o intuito de enriquecer nosso léxico já tão maltratado, filho bastardo dessa inculta e bela, fica, pois, instituída a mais genuína contribuição de Jacareí não apenas pras letras brasílicas, mas pra todo o mundo, quiçá o universo -- e não poderíamos deixar de registrar tão nobre gesto, digno, naturalmente, do Domun Lolerapa #:

Cultora de um vocabulário à la Rui Barbosa, mas não satisfeita, de lavra própria a digníssima sra. Rose Bicarato cunhou o termo, que carece ainda de um estudo à altura por parte de nossos filólogos e quetais -- interjeição? exclamação? adjetivo? substantivo? ou ainda um vocábulo que transcende a gramática convencional, sendo multicaracterizado como potencialmente detentor, a um só tempo, de todos os atributos de todas as classes gramaticais?

Toda essa verborragia tenta fazer jus a um momento tão solene -- mas apenas tenta, em vão, por maiores que sejam os nossos (parcos) esforços. Resignemo-nos, pois, à grandeza da ilustríssima e nobilíssima sra. Rose Bicarato, e exaltemos sua expressão maior:

*PRETUPITÉRIO*

Que assim seja.
Ou: de como a visão pura (um *belo erro*) da criança de 8 anos ganhou *vida* sob o olhar lúdico e sensível da professora.

# Domun Lolerapa: fui desafiado pelo camarada Luciano Coca a integrar tão ambicioso projeto e, ainda que ciente das minhas limitações, aceitei honrado. Mas, como tudo o que vem de Parahytinga, São Luiz, e de mentes tão inquietas e ébrias como a de cidadãos como o supracitado (típicas, aliás, daqueles rincões), o projeto foi postergado -- ou melhor, foi colocado em algum barril de carvalho pra envelhecer e ganhar aroma e sabor. Enquanto isso, o Coca saiu por aí, tirando retratos e mais retratos do nosso Vale do Paraíba (tenho pra mim que, na verdade, ele foi contratado pra algum projeto secreto do IBGE pra fazer o censo das porteiras por esses sertões nossos). Ah! sobre o Domun Lolerapa, saiba mais aqui.
Por Paulo Bicarato, às 14:50 de 26.02.2016 - 2 comentários
Categoria: Etilíricas

08.01.2016

:: Pesadelo Refrigerado ::

Se há algo que sempre me intrigou é o fascínio que os EUA exercem sobre uma parcela considerável dos brasileiros (assim como no resto do mundo, mas fiquemos por aqui), e dentro dessa parcela outra mais considerável devido, em tese, ao nível cultural e de instrução. Dirão que é ingenuidade minha: nem o acesso a uma formação cultural razoável é garantia de bom-senso e discernimento, nem a autopropaganda estadunidense deveria ser menosprezada.

Mas a recente (ou nem tão recente) e crescente onda reacionária, que não raro evoca *valores* importados lá do país do norte (num patriotismo patético e contraditório ao vestir a camiseta canarinho), e que tem como um de seus paradigmas o sonho de consumo de morar em Miami, amplifica essa minha sensação de intriga. (Ressalte-se que sou um cara que não alimenta, nem nunca alimentou, nenhum sentimento xenófobo, e o que se segue são links e fatos e a análise visceral de um... estadunidense.)

Como, por exemplo, exaltar um país campeão de massacres, vários cometidos em pacatas escolas? Ou onde resistem -- e se multiplicam -- abomináveis homens de capuz, excrescências de ares medievais? Ou ainda onde rancheiros racistas se acham no direito de fazer suas próprias leis? Ou, por fim, onde na *terra do progresso* o que se vê é a proliferação de homeless inservíveis, que apenas, e tão-somente, enfeiam e custam caro? Isso pra não falar do insano apoio ao nome do Donald Trump e da ainda mais insana política de incentivo à indústria da guerra, e às guerras, entre outras aberrações.

Talvez a paranóia existencial que moldou a cultura estadunidense explique isso tudo -- e retroalimente isso tudo. Sintomaticamente, pipocou (ou viralizou) nas redes um trecho da série The Newsroom, da HBO (thanks, brôu Marcelo) -- volto logo após o vídeo:



Pesadelo Refrigerado
E, mais emblematicamente ainda, tive a grata surpresa de ganhar um daqueles presentes absolutamente inesperados, mas que parecem vir no *momento certo*. A gentileza foi do grande camarada Carlos Bueno Guedes -- um livro que, confesso, não conhecia: *Pesadelo Refrigerado*, o livro censurado de Henry Miller, nesse interessante artigo que achei na Revista Bula. Vale a pena ler o artigo, mas pincei alguns trechos do prefácio:
*... Chamar isso aqui de sociedade de povos livres é uma blasfêmia. O que temos a oferecer ao mundo além da superabundante pilhagem que com total indiferença arrancamos da terra sob a maníaca ilusão de que essa atividade insana representa progresso e iluminação?
[...]
*... não é um mundo em que eu queira viver. É um mundo adequado a monomaníacos obcecados com a ideia de progresso -- mas um falso progresso, um progresso que fede. [...] o sonhador cujos sonhos não sejam utilitários não tem lugar neste mundo.*
Miller escreveu isso em plena 2ª Guerra -- depois de passar uns 10 anos na Europa, voltou e fez uma viagem de uns três anos pelos EUA -- o livro é o relato dessas impressões de viagem, falando tudo o que ia contra o sentimento patriótico pra lá de exacerbado naquele momento. Mas, se naquele contexto a guerra era até um pretexto (discutível) pra justificar o comportamento doentio da nação, hoje nem esse pseudo-pretexto há (ou há, mas faz parte exatamente dessa cultura que se alimenta do medo, do ódio e da dor): é a cegueira de um povo que não admite, não quer ver, o fosso cruel que eles mesmos criaram. É esse *tipo sociológico*, ao mesmo tempo vítima e algoz, que faz parte de uma sociedade doentia -- e que o Miller apontou e descreveu com precisão há uns 70 anos, mas segue mais (morto-)vivo do que nunca.

> também no Medium
Por Paulo Bicarato, às 15:40 de 08.01.2016 - 2 comentários
Categoria: Biblios

22.12.2015

:: Língua: Vida, Cinzas ::

Grande Sertão - 50Sob a tristeza de ver a notícia e as imagens, e no calor (literal) do incêndio que destruiu o Museu da Língua Portuguesa, fui até a estante e peguei o meu exemplar n° 601 (de uma tiragem de 10 mil) da edição comemorativa dos 50 anos do *Grande Sertão: Veredas*, com o catálogo e o DVD da instalação montada pela Bia Lessa pra inauguração do Museu, em 2006. Abri o catálogo a esmo e tirei a foto (ao lado), mas só depois de publicá-la fui reler todo o catálogo -- e a página que escolhi (ou que me escolheu) tinha um quê de profética:
*A linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente. Isto significa que como escritor devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas.*
João Guimarães Rosa
Me arvorei em *ostentar* que, sim!, tenho em mãos parte do acervo do Museu. Ainda que eu saiba que todo o acervo é digitalizado, o fato de ter o catálogo e o DVD, presente da minha querídola Rose, me trouxe a lembrança de ter visitado a exposição de abertura, com a Rose, o que me deu outro significado ao próprio prédio e, claro, ao presentaço.
Mas acho que essas palavras não vão sair da minha cabeça tão cedo:
*A linguagem e a vida são uma coisa só. [...] O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas.*
Sei, porém, que há uns tantos abnegados que resistem em buscar essa *porta para o infinito* infefinidamente, ainda que tenham(os) que nos embrenhar *sob montanhas de cinzas*...

Por Paulo Bicarato, às 14:30 de 22.12.2015 - 2 comentários
Categoria: Biblios

10.12.2015

:: Jornalismo & Literatura ::

João do Rio
João do Rio, 1908:
*O literato do futuro é o homem que aprendeu a ver, que sente, que aprendeu a sentir, que sabe porque aprendeu a saber, cuja fantasia é um desdobramento moral da verdade, misto de impossibilidade e sensibilidade, eco da alegria, da ironia, da curiosidade, da dor do público -- o repórter.*
Eis a definição. E, pra mim, uma pretensão talvez inatingível. Talvez tardiamente só agora eu tenha um contato maior com o João do Rio, uma daquelas referências um tanto óbvias e evidentes, mas ao mesmo tempo meio que procrastinadas a sabe-se lá qual momento mais... oportuno?

Mas que tenha chegado a hora: a coleção João do Rio, em três volumes bem bacanas da Editora Carambaia: crônica, folhetim e teatro, com uma *seleção de crônicas, reportagens, contos ficcionais, entrevistas, peças, sainetes, folhetins e artigos produzidos entre 1899 e 1919. Boa parte dos textos nunca saiu em livro, apenas nos jornais – que permaneceram mais de 100 anos guardados em arquivos e bibliotecas*.

Além da minha óbvia predileção e admiração pelo Guimarães Rosa, nomes como os do Antonio Maria ou Nelson Rodrigues [*Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino)] são daqueles que sempre me assombraram. Referências que se mesclam, umas mais, outras menos, e das quais busco beber sempre, saboreando cada construção, cada encadear de palavras e signos e significados.

E me surpreendo (mesmo com, e apesar da, ansiedade e expectativa) com João do Rio: logo nas primeiras páginas, a confirmação e superação do que eu supunha. Numa crônica sobre os *reclamos* do início do século, ele define as *tabuletas* como *os brasões da rua [...] escudos de uma complicada heráldica, do armorial da democracia e do agudo arrivismo dos séculos*, e segue com a prosa poética, deliciosamente, por mais umas quatro páginas e por ruas e avenidas do Rio de Janeiro.

Décadas antes de *movimentos* como o *new journalim* do Tom Wolfe, Gay Talese & cia., ou ainda do *jornalismo gonzo* do Hunter Thompson, arrisco dizer que o João do Rio inovou na linguagem, na forma, no olhar e no fazer jornalísticos. Se hoje há, sim, muita gente bacana, infelizmente há, também, muitos mais que (se) extrapolam e se perdem na própria arrogância. Tive o prazer de conhecer e conviver e trabalhar com um sem-número de (bons) escribas, mas ao repassar as linhas (e a biografia) do João do Rio é quase inevitável a associação direta com um camarada em particular, que atende perfeitamente à descrição que abre esse texto: o Raimundo Oliveira, o Rai. Tenho a certeza de que vou *enxergar* outros colegas nas próximas páginas dos três volumes da coleção -- o que é, confesso, uma maneira de tentar *me enxergar* e alimentar a pretensão de cronista e a implacável relação com *a musa urbana, dotada de uma alma encantadora – a rua* -- [brinde aqui, pra download].

Segundo clichê: se há algo gratificante, é isso! Desse textinho despretensioso, provocar reflexões e sentimentos, e sabe-se lá o que mais lá bem no íntimo de uns e outros. E atiçar *cronistas urbanos* como, por exemplo, o meu irmão, o Marcelo:
*a loja fica numa ladeira, ao lado duma esquina com semáforo, onde o dia inteiro soam buzinas impacientes e intolerantes.
elas me incomodam muito, muito, muito mesmo.

mas eis que cai na timeline post do Rai citando trecho do João do Rio que você mandou, sobre a rua.

no mesmo instante – no mesmo instante mesmo! – a rádio começa a tocar *the sound of the silence*, de simon & garfunkel.

buzinas gritavam nesse momento aqui do lado por causa de um caminhão com dificuldade de fazer a curva.

eu ouvi todas elas, mas não me incomodaram, pelo menos agora.

a música e o texto foram mais altos.*
Publico aqui sem pedir a anuência do próprio Marcelo. Esse foi apenas e tão-somente um comentário dele, mas deixa clara a sensibilidade do cara, né? Valeu, brôu!
Por Paulo Bicarato, às 14:34 de 10.12.2015 - 4 comentários
Categoria: Biblios

01.12.2015

:: Sobre o Design Reaça ::

disáin_reaça
Quando o fator estético reflete o ético, e vice-versa -- ou: a ética como cultivo da *beleza*, esta no sentido do grego *ethos*, o caráter e valores morais ou, como dizia Platão, aquilo que conduz ao bem, que inspira e motiva.

Tenho, entre meus livros de cabeceira, o *Seis Propostas para o Próximo Milênio*, do Italo Calvino. Lembrei dele por causa de um artigo interessantíssimo na revista Fórum: *Design Reaça: uma anatomia do pensamento crítico pixelizado -- Como as redes sociais gestaram um padrão estético para o exercício do conservadorismo no Brasil*.

Como que negando as *seis propostas*, o artigo mostra como a feiúra deliberada e a pobreza estética são padrões assumidos pelo *design reaça* (penso em como, até certo ponto, esse padrão *pobre* é responsável por ficarmos em desvantagem na *batalha da comunicação* -- *não é possível que não exista nenhum designer de direita em todo o país*, diz o autor, Murilo Cleto, historiador e mestre em Cultura e Sociedade). Ou, como resumiu o brôu Marcelo, *nunca o pensamento rasteiro e superficial foi 'tão bem' elaborado; é o ideário da estupidez na sua 'melhor' forma, para quem não lê, só vê figurinha*.

Vale ler na íntegra, mas seguem uns trechos:
*O resultado desta modalidade de pensamento que se vende como crítico não poderia ser outro. Além dos desmontes do senso comum com mais senso comum, e não menos, multiplicam-se como nunca boatos sem qualquer verificação que dizem mais sobre quem compartilha do que efetivamente sobre o seu objeto de crítica.*
[...]
*Em geral, os memes políticos nas redes são bem-sucedidos porque são, em primeiro lugar, autossuficientes. Quer dizer, bastam por si próprios, sem a necessidade de links que fundamentem com maior espessura sua posição. E, por isso, vêm apresentados com imagem e texto. Mas, mais do que isso, porque orientam com ideias feitas as interpretações sobre questões atuais sem a necessidade de qualquer elaboração maior, preenchendo o vácuo deixado tanto pela urgência quanto pela desconfiança algo generalizada nas instituições.*
Mas fui buscar o texto que tá na contracapa da minha edição das *Seis Propostas*:
*Declaração de ética, mais que de poética, as conferências que Calvino preparou para a Universidade Harvard representam o testamento artístico de um dos protagonistas literários do fim de milênio. Em meio à crise contemporânea da linguagem, cada vez mais aguda, o grande escritor italiano identifica as seis qualidades que apenas a literatura pode salvar - leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade, consistência -, virtudes a nortear não apenas a atividade dos escritores mas cada um dos gestos de nossa existência. Feitas de divagações, memórias, trechos autobiográficos, as Seis propostas de Calvino constituem um precioso legado do milênio para as gerações do ano 2000.*
Peço desculpas ao Calvino se o invoco aqui por causa exatamente do contrário do que ele pregou. Mas é o que me consola me serve como antídoto diante das agressões, éticas e estéticas, a que somos submetidos. Vou reler, mais uma vez, o Calvino.
Por Paulo Bicarato, às 14:47 de 01.12.2015 - 2 comentários
Categoria: Pensatas

24.11.2015

:: Seu Toninho ::

Hoje, 24/11, faz um ano que o seu Toninho, meu pai, *encerrou* sua missão aqui na terra. *Encerrou* entre aspas, sim, porque ele segue presente na memória e no coração de todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo -- e mesmo quem não o conheceu pessoalmente, mas que tem a oportunidade de ler algum de seus ricos escritos, testemunhos de vida, de fé, de amor.

Há vários textos dele aqui no Alfarrábio -- não consegui filtrar tudo, mas em meio a buscas por *Papa* (sim, como eu o chamo) ou Toninho pode-se encontrar bastante coisas. Meio que aleatoriamente, pincei só duas frases enquanto repassava por alguns textos:
*Faça o que bem entender com textos meus. Sempre. Uma vez escritos, já não me pertencem. E se por acaso algum bem fizerem a alguém... Deus seja louvado! Quer paga melhor que isso?*
~ ~ ~
*Tenho para mim que toda bela sinfonia, toda cantata, concerto ou serenata, valsa ou moda de viola são trechos da sinfonia maior que é todo o Universo. Melhor: são trechos que, em momentos de arroubos, os músicos surrupiaram dos céus.*
É claro que há a saudade da presença física, da alegria dele nas reuniões em torno da mesa (farta!), de vê-lo apreciando um bom vinho, de tê-lo compartilhando, sempre sereno, suas histórias de vida, seu conhecimento e erudição -- isso sem nunca ostentar a vasta cultura, mas com a humildade e o prazer de compartilhar o que sabia.

Mas me consola saber que ele tá feliz, ao lado da minha mãe, dona Benê -- sim, ela também presente por aqui em textos como o *Chapéu de Palha* ou *Asas do Sonho* (este, escrito pra mim -- 'brigado, Mama). E fico feliz por ter a certeza de que o seu Toninho cumpriu, com louvor, sua missão por aqui (e segue cumprindo...).

No *santinho-lembrança* da missa de um ano dele, a sensibilidade do texto & arte do Marcelo. Valeu, brôu!

Nas fotos, um churrasco lá de 2011 (o título, *bota-fora*, é porque ele estava indo pra Brasília, proutra missão).


Bênça, papa! Bênça, Mama!

PapaMama1ano

Por Paulo Bicarato, às 16:07 de 24.11.2015 - 3 comentários
Categoria: Pensatas

13.11.2015

:: Polêmica ::

Sobre o *esvaziamento* e a banalização das palavras -- by Renata Corrêa:
Queridas pessoas da imprensa,

Eu sei. Não fiz faculdade de jornalismo. Talvez eu esteja falando bobagem. Sou apenas uma roteirista. Eu escrevo ficção. Umas coisas que saem da minha cabecinha e que vivem e existem só numa representação. Mas como parte do nosso material de trabalho é o mesmo, a língua portuguesa, gostaria de falar sobre o uso da palavra "polêmica".

Polêmica é uma uma situação de debates e controvérsia. Nas redes sociais praticamente tudo gera muitos debates e controvérsia e polarização -- mesmo assuntos que, pelo bom senso, pelo sentimento de humanidade sequer deveriam ter a denominação de polêmica. A defesa da pedofilia, por exemplo.

Tolstoi era um escritor russo maneirinho. Ele pensava que deveríamos, como defesa da nossa humanidade, chamar as coisas pelo nome delas. Sou super do time dele.

Então queridas pessoas da imprensa, eu gostaria de ajudar vocês a entender coisas que não são polêmica para que vocês possam encontrar o nome correto para elas.

- Ataques misóginos contra Lola Aronovich não são polêmica. Chama-se crime.

- Os ataques contra a atriz Tais Araújo não se chamam polêmica. O nome que se dá é racismo.

- Geraldo Alckmin fechar escolas e mandar a tropa de choque para cima de adolescentes que as ocupam não gera polêmica. Gera violência do estado contra cidadãos exercendo seu livre direito de se manifestar.

- Namorado enforcar a namorada não é polêmica. É assassinato e feminicídio.

- Quando homens atacam e debocham da hashtag primeiro assédio isso não é polêmica. É machismo.

- Quando um secretário de estado espanca a esposa repetidas vezes e o seu governador sai em sua defesa, o nome disso não é polêmica. É canalhice. Se vocês não puderem usar a palavra canalhice, citem a lei maria na penha.

- O que aconteceu em Mariana com o derrame de lama tóxica destruindo vidas e o meio ambiente não gerou nenhuma polêmica também. Gerou mortes por conduta irresponsável. E gerou também uma desconfiança irreversível no que vocês escrevem.

O uso da palavra polêmica nesses casos só mostra o não posicionamento diante de questões difíceis e dolorosas. Não se posicionar significa estar do lado do agressor. E o uso desse eufemismo contemporâneo vazio e babaca não vai salvar vocês da mediocridade. E nem dos passaralhos, que fique claro.
Por Paulo Bicarato, às 12:23 de 13.11.2015 - 1 já comentou aqui
Categoria: PretoNoBranco

26.10.2015

:: Culturas Vivas ::

Agromerarte
Essa semana passada foi particularmente interessante -- o que não quer dizer que não tenhamos surpresas e causos interessantes no resto do ano, já que a capacidade do ser humano é infinita, seja pra criar ou pra fazer besteiras. Mas apesar do episódio deplorável de pedofilia explícita do MasterChef ou a baixaria na livraria Cultura, ou ainda o histórico Enem, que colocou em pauta discussões pertinentes e urgentes, e a emocionante homenagem ao Vladimir Herzog na Catedral da Sé, entre inúmeros outros fatos que ganharam destaque, registro aqui dois exemplos que me reforçam a esperança nessa nossa tão desesperançada espécie: comunidades, coletivos independentes, *gentes* se articulando e botando a mão na massa pra fazer a diferença, incrementando articulações e conversas e vivências entre arte, cultura, ciência, tecnologia, sociedade, ecologia, tradições e o que mais der na telha.
Tropixel


Falo de duas iniciativas (eventos?, festas?, intervenções? -- ou tudo isso e mais) que se desenrolaram, prática e sintomaticamente, nos mesmos dias, com objetivos essenciais em perfeita sintonia, ainda que distantes centenas de quilômetros uma da outra: o Agromerarte, na comunidade do Jardim Pedramar, em Jacareí, e o Tropixel, em Ubatuba. Em comum, fundamentalmente, o espírito colaborativo e de construção conjunta de conhecimento, de coisas e fazeres.

De intervenções artísticas a oficinas e workshops (de manifestações culturais tradicionais à apropriação de tecnologias), passando por ações comunitárias, graffiti, feira da roça (de artesanato a produtos orgânicos e pingas), e mais música e literatura (com direito a inauguração da Biblioteca Comunitária no Pedramar), o Agromerarte e o Tropixel são provas vivas de que ideais podem e devem ser compartilhados e construídos coletivamente -- e produzem, sim, resultados concretos, dão sequência a processos que se autofortalecem e geram referências riquíssimas pra outras iniciativas.

Sei que esses são apenas dois exemplos entre incontáveis outros que pipocam, ou emergem, por aí. Tenho plena consciêncida de que as personagens e agentes envolvidos são inúmeros, e corro o risco de ser até injusto em citar apenas dois amigos -- mas faço questão de registrar minha admiração ao Thiago Vinicius e ao Felipe Fonseca, respectivamente dois dos *cabeças* à frente do Cultura no Morro e do Ubalab. Parabéns, e obrigado, camaradas!
Por Paulo Bicarato, às 14:17 de 26.10.2015 - 4 comentários
Categoria: Linux Vida Open Source