Se você acha que já viu de tudo, lembre-se: nunca subestime a capacidade do ser humano de cometer asneiras. Que o diga o Sérgio Augusto, como sempre, gastando o verbo: *Já virou esporte jogar ovo no outro, às escondidas. Mais um sinal da imbecilidade que assola o planeta*. Tá no caderno Aliás do último domingo:
Sei lá… mas acho que uma boa solução pra esses descerebrados seria uma enxada e uma internação numa fazenda onde só come quem planta, ou algo do tipo. Pra quem não tá por dentro do novo *hype* (queimar índios e espancar trabalhadoras humildes já era…), que leia o artigo do mestre Sérgio e tire as próprias conclusões.
O que dizer de um grupelho de jovens grã-finos que dedica parte de seu ócio a atirar ovos nas pessoas e carros que passam pela rua?
Como “ovacionam” os passantes aboletados em terraços e protegidos atrás de cortinas, o mínimo que se pode dizer é que eles, além de desocupados, moleques e perdulários (ovos são uma portentosa fonte de proteínas e custam em torno de R$3 a dúzia), são um bando de covardes. Se lhes falta coragem para agredir passantes sem a proteção das alturas e cortinados, encarando seus alvos e arriscando-se a um revide, cinismo e burrice têm de sobra. Pois é preciso ser muito burro e/ou deslavadamente cínico para documentar seus delitos em vídeo e disponibilizar as imagens na internet.
Para quem estiver boiando, uma rápida recapitulação:
Aos ovos celebrizados por Colombo, pelo astrônomo Lemaître, pelo clássico dilema da causalidade (“Quem veio primeiro: o ovo ou a galinha?”), pelo filme O Império dos Sentidos e pelo álbum de despedida do grupo Wings, veio juntar-se, dias atrás, o Ovo de Ipanema. É por esse título que o vídeo pode ser encontrado no YouTube. Há mais de um em circulação, todos exibindo a mesma cretinice: do alto de luxuosos apartamentos da Avenida Vieira Souto, frenéticos colunáveis não só se deleitam atirando ovos pela janela, como admitem, às gargalhadas, que poucas outras atividades lhes oferecem prazer comparável, sem esclarecer se consumir drogas é uma delas.
Para os mimados filhos de nossa mais frívola burguesia, provavelmente estimulados pelos trotes de Clube dos Cafajestes e outros clássicos do asneirol hollywoodiano, a “ovação” virou um sucedâneo da cocaína e do sexo, uma forma doentia de masturbação (com o valor agregado do simbolismo testicular). A “ovação” é o novo Ecstasy, o Eggstasy.
Exibicionistas, narcisistas e prepotentes, sua mais destacada e histérica presença feminina é a socialite carioca que há muito se perdeu pelo nome, Narcisa Tamborindeguy. Aos gritos, como se de volta a antigos baratos, ela confessa que adora atirar de tudo pela janela. Seu companheiro de travessuras, Bruno Chateaubriand, orgulha-se de já ter atirado pela janela até cabos de vassoura, sem esclarecer que outra utilidade antes lhes dava. No mesmo vídeo, uma loura que não consegui identificar estende sua patologia ao resto da humanidade (“Todo mundo gosta de fazer bobagem”) e passa adiante uma receita (“Encher um saco de água, dar um nó e jogar é um estrago bom, né?”), bem menos trabalhosa que a aviada pelo global Boninho, que, antes de partir para a sua Blitzkriegg, injeta éter nos ovos, e espera três dias, até que eles apodreçam. Presumo que tenha sido com ovos podres que ele acertou “muitas vagabundas em São Paulo” sua maior bazófia no vídeo.
Apesar dos perigos que oferece (no olho, pode até cegar), atirar ovos, mesmo podres, em “vagabundas” não provoca tanta indignação quanto espancar empregadas domésticas, como recentemente fizeram quatro ou cinco pitboys cariocas, e queimar índio, como há dez anos fez a escória juvenil de Brasília. Mas, como observou Marcelo Coelho, em sua coluna na Folha de S. Paulo, “a alegria desbragada dos entrevistados, a completa certeza de que são donos do mundo, lá das alturas de um prédio de luxo, causa repulsa imediata”. Repulsa que por pouco não estrangulou o fluxo de acessos ao YouTube. Faz tempo que um vídeo não provocava tantas e tão iradas reações naquele site. Algumas, que pena, mais repugnantes que as próprias imagens que as motivaram.
Na internet, a Terceira Lei de Newton costuma sofrer uma ligeira alteração: para cada ação há sempre uma reação oposta e de maior intensidade. Besuntaram Narcisa e sua turma (entre os quais Brizolinha, neto do Brizola) de tudo quanto é insulto e palavrão. Chegaram até a condená-los à guilhotina. Mas de alguns comentários eu confesso que gostei. A proposta de se jogar uma melancia na cabeça de Narcisa, embora inútil, foi, convenhamos, divertida. O conselho para que os ovacionadores não saiam mais de carro blindado, e sim a pé, mostrando sua cara, me pareceu moralmente corretíssimo. Atirar ovos ou o que quer que seja às escondidas é mais um refúgio na impunidade praticado pela nossa sociedade. A Brasília, para “ovacionar” políticos corruptos e caras-de-pau, eles não têm coragem nem, o que é pior, vontade de ir.
Sou mais o Jaguar, que foi à posse de Roberto Campos na Academia Brasileira de Letras, em outubro de 1999, disposto a jogar um ovo no novo acadêmico. Metido no fardão que Tarcísio Meira usara no filme Independência ou Morte, o humorista acabou espalhando seus ovos sobre a calçada da ABL (“trocadilho para que ele chegue à Academia pisando em ovos, assim como todos os que votaram nele”), sem dar bola para os seguranças do prédio. Mais que uma molecagem, foi um ato de protesto, tão legítimo e intrépido quanto as ações daqueles atiradores de tortas, que volta e meia aprontam uma na Europa e nos EUA, lambuzando personalidades de variada plumagem e diversificadas culpas no cartório. Infiltram-se, praticam seus atos torterroristas às escâncaras, e, impávidos, vão presos.
Atirar ovos tornou-se uma praga internacional, uma idiotice globalizada, com blogs e sites na Internet. Até “esporte” já virou. São idiotas, mas afinal nenhum dano causam os torneios de lançamentos de ovos (egg throwing games), aqui e ali disputados por gente capaz de atirar longe ovos ou apará-los com as mãos, sem sequer lhes trincar a casca. Chama-se Johnnie Foley e é texano o recordista mundial da especialidade: seu ovo aterrissou intacto nas mãos de seu primo, postado a 98 metros de distância.
Pobres não participam de tais folguedos. Ovo, para eles, é só alimento. Também são filhinhos de papai todos aqueles adolescentes que atiram ovos sem, digamos, respaldo esportivo – como os egg throwers de Ipanema, São Paulo e onde mais essa espécie seja chocada. Há dois anos, um garoto de 15 anos foi morto a tiros, em Indiana, pelo invocado proprietário de uma picape atingida por meia dúzia de claras e gemas. No fim do ano passado, outro adolescente, de 14 anos, teve o mesmo fim, no interior de Ohio. Em Bath, na Inglaterra, o comércio já não vende mais de uma certa quantidade de ovos para moças e rapazes. Ordem da polícia. Não vai adiantar muito, mas já é alguma coisa.
O problema não é dificultar a compra de ovos, mas conseguir que os pais eduquem melhor seus filhos e, sobretudo, os mantenham longe das amizades podres. Podres como os eterizados ovos do Boninho.
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