Quando o povo metareciclento resolve encarar uma discussão, sai de baixo! Agora, o papo jogado lá na lista pelo MBraz foi uma *dúvida sobre tecnologia*. Ele jogou lá:
O papo tá indo longe, é é impossível resumi-lo aqui (quem sabe outra hora eu consiga…). Mas aí vou conferir o Pedro Doria e ele dá uma bela contribuição: de inovadores, na verdade, temos muito pouco. O início da nossa *era tecnológica*, na verdade, pode ser resumido na descoberta da linguagem. Agora, a expansão dessa linguagem, que é a disseminação da informação. Fala o Pedro:
Nós, inovadores
Recentemente, me convidaram a falar para um grupo sobre inovação. É um tema vago como os diabos. Aqui vão minhas notas para a palestra – o assunto é bem atual.
Não fomos sempre inovadores.
Nós, o Homo sapiens sapiens, estamos na Terra faz 120.000 anos. Desde cedo começamos a nos espalhar pelo mundo. Mas não criávamos nada. Tínhamos pedras lascadas, é verdade. Na África, no Oriente Médio, na Europa, onde houvesse um de nós encontrava-se rigorosamente os mesmos instrumentos e eram ferramentas apenas um pouquinho mais sofisticadas do que as que o Homo erectus ou o Homo habilis já usavam fazia muitas centenas de milhares de anos.
Estamos por aqui há 120.000 anos e, por metade deste período, não criamos rigorosamente nada.
Mas aí, algo entre 60 e 50.000 anos atrás algo mudou de repente: botões, agulhas de costura feitas com ossos, lanças, lançadeiras, lâminas, desenhos nas paredes das cavernas. Repentinamente começamos a inventar. Os cientistas chamam este período de o grande salto para a frente. Ninguém sabe o que houve. Uma das teorias sugere que foi quando começamos a conversar. Com a linguagem, talvez fruto de uma mutação genética, houve diálogo e, com diálogo, criação. E a criação diferia. O botão que se fazia no Oriente Médio era diferente do colar na Europa e na África faziam uma lançadeira que ninguém mais tinha. Quando surgiu a inovação, surgiu também a diferença cultural. E a esperança de compreender onde estamos e as tentativas de produzirmos um mundo melhor para vivermos.
Algo entre 20 e 10.000 anos atrás, aprendemos a plantar. Porque plantávamos, era preciso compreender as estações do ano e manter um inventário da colheita. Nasceram ciência e matemática e escrita. Bons inventários permitiram a criação de silos com comida para muitos. Armazenagem de comida deu tempo livre. Tempo livre trouxe mais inovação. O metal, então o aço. Rodas dentadas, engrenagens. Máquinas. Eficiência tecnológica permitiu que viessem as cidades. Navios, astronomia, filosofia, arquitetura, arte. Fomos aos oceanos. Descobrimos o planeta.
Leonardo da Vinci era um homem renascentista. Ele entendia de tudo. De arte, de proporções, de anatomia, de engenharia, de astronomia. Foi o último. Depois do renascimento, o conhecimento acumulado pela humanidade ficou tamanho que gente como Leonardo deixou de ser possível. Não dá para saber tudo.
Mas continuamos em busca de compreender para inovar. O iluminismo acirrou uma estratégia que já vinha ensaiada desde os gregos: a especialização. Uns foram à biologia e nos trouxeram ao DNA, ao mapeamento do código genético. Outros foram à física: o átomo, os prótons, quarks, energia nuclear. Vimos através de telescópios que construímos vestígios do início do universo.
Estamos próximos, muito próximos, de entender tudo. Próximos de criar vidas. De curar-nos de quaisquer doenças. De entender como o mundo e o universo e tudo mais surgiram. E, no entanto, já dá para perceber que quando descobrirmos todas as respostas para as perguntas específicas que temos, elas não nos explicarão o todo.
A estratégia deu errado. Nos especializamos tanto que chegamos ao ponto de enxergar os mínimos detalhes das peças de um quebra-cabeças e perdemos a noção de como essas peças se encaixam. Há quem saiba tudo de cada peça, mas ninguém é capaz de, como Leonardo, ver o todo. Nem seria possível. Estamos próximos de saber cada detalhe do universo mas não saberemos como cada detalhe se relaciona com o outro.
O resultado de mexer com estas peças sem ciência de como elas afetam o todo é que criamos desequilíbrios e coisas como o aquecimento global.
Mas há uma saída: informação. Assim como a linguagem nos lançou num mundo de informação, outro conjunto de inovações já começam a fazer grande diferença. A Internet. Telefonia celular. Todas as tecnologias de comunicação digital que se integram numa grande rede. Este conjunto põe cientistas, engenheiros, criadores – todo mundo – em contato imediato.
Para que a rede tenha eficiência máxima, para que quem precise de informação encontre quem pode informar, é preciso munir a rede de informação. De toda informação que temos. Todos os livros, todos os artigos, todas as idéias estão sendo lentamente digitalizadas e postas online. Um médico que procura a solução para um problema misterioso e complexo poderá, no futuro, entrar num Google da vida e descobrir que um físico já lidou com algo muito semelhante. Informação disponível de forma ilimitada permitirá que comecemos a montar este quebra-cabeças.
Mas há um pequeno problema.
Nem toda informação é pública ou livre. Nem toda informação estará disponível. Governos de presto vão argumentar que certas coisas são delicadas demais, devem permanecer como segredos de Estado. Empresas alegarão que investem na criação de conhecimento e que têm direito de manter controle sobre o uso deste seu conhecimento. Gravadoras ou editoras ou estúdios de cinema dirão que a arte que financiam e distribuem é propriedade privada e ponto: é preciso pagar para consumi-la, de resto o nome disso é pirataria. Sem este financiamento dos consumidores, dizem, não haverá mais inovação. Nós mesmos dizemos que há informação a nosso respeito que queremos preservar. Chamamos a isso privacidade. E todos temos razão dentro de nossas razões, evidentemente.
Mas, assim, impomos um limite às possibilidades de a grande rede global reunir toda a informação para que seja usada por todos. Nós criamos uma barreira para que funcione da melhor forma possível.
O segredo que todos já começaram a entender mas recusam a aceitar é que esta grande rede é incontrolável. Segredos de Estado vazam. A toda hora. Segredos industriais também. Pirataria nem se fala. E privacidade? A privacidade está começando a acabar. Estamos entrando numa era de plena informação, uma era na qual toda informação é acessível. Há quem argumente que eleitores ganharão com a transparência de seus governos. Ou que a indústria é gananciosa demais ao cobrar, por exemplo, dinheiro em excesso que impede gente de ter acesso a remédios que podem lhes salvar. Plena informação criou um ambiente de plena inovação em tempos passados.
Quanto tempo vai demorar para chegarmos ao tempo da informação plena? Vinte anos? 50? 150? Não há resposta mas há pistas. Há 15 anos não tínhamos celulares. Há 10, muitos ainda não ouvíramos falar da Internet. Até 10 anos atrás, países como a Líbia não tinham como conseguir acesso a informação sobre como fazer bombas nucleares. Há 7 anos ninguém imaginava que piratear música seria tão trivial e que a indústria não teria qualquer esperança de controle sobre isso. Está tudo se transformando muito rápido.
Há um mundo novo surgindo que nos apresenta a todos, pessoal e profissionalmente, um número incrível de desafios.
Comentários