Escrevi isso em meados de 2005, quando a economia estadunidense ainda não passava pela crise atual. Na época, o Maneco publicou na Novae e, devido a uns probleminhas de troca de servidor etc., o artigo saiu do ar. Hoje, pedi pro Maneco fuçar nos becapes dele lá e mandar pra mim. Mas ele fez mais: republicou, na capa. Confiram a Agonia da Besta. Valeu, Maneco!
A agonia da besta
A Besta e barulho do papel de bala
Há coisas realmente indecifráveis. Por exemplo, é impossível abrir uma bala sem fazer barulho. Essa foi a conclusão da pesquisa dos físicos Eric Kramer, do Simon’s Rock College, de Great Barrington, Massachussets, e Alexander Lobkovsky, do Instituto Nacional de Padrões de Tecnologia, de Gaithersburg, Maryland, segundo artigo publicado no New York Times. Além da aparente ironia de que a pesquisa possa estar revestida, sabe-se que muitas das mais importantes descobertas científicas foram fruto do acaso: ao procurar “A”, um cientista acaba por descobrir “B”. “A física das embalagens revelou ser surpreendentemente complexa”, disse Kramer, que descobriu analogias com as mudanças de conformação de grandes moléculas de proteína no corpo humano e nas propriedades magnéticas dos materiais usados em memórias de computador”, revela a reportagem do NYT.
Até aí, tudo bem. Mas o que me intriga, na verdade, é o funcionamento de determinadas mentes humanas (se é que se pode classificar assim), como a do sr. George W. Bush, completamente indecifrável, inexplicável. Para ficar no mínimo, chego a considerar a hipótese de se tratar de algo patológico, que mereceria um tratamento especial, ou ainda que se transformasse em objeto de estudo – mas devidamente confinado a um laboratório previamente preparado para evitar quaisquer possibilidades de vazamento químico, biológico ou energético que pudesse contaminar as comunidades e ambientes no entorno. Mas talvez eu esteja sendo cruel ao personificar essa tese no sr. Bush. Ela resume, sim, todo um modo de pensamento gerado por uma sociedade incapaz de sobreviver digna e pacificamente, considerando diferenças e autodeterminando-se um isolamento que, já se antevê, culminará na sua própria ruína.
Ganância, sede de poder, arrogância são alguns termos já utilizados à exaustão quando se refere ao presidente dos Estados Unidos. O descrédito que ele vem acumulando junto à comunidade internacional (e mesmo junto a setores da própria sociedade estadunidense) aponta para uma situação desesperadora, forçando-o a tomar atitudes cada vez mais insanas. Já fora de seu próprio eixo, busca de qualquer maneira encontrar algum novo ponto de apoio. Acuado pela própria insensatez, brada seus últimos rugidos e tenta se defender – ou ao menos ganhar mais alguma sobrevida – sacrificando seus parcos aliados, que, por sinal, aventam secretamente promover um motim, destituir o “chefe” e promover a restauração da ordem natural das coisas.
Se fosse apenas antipática, a postura do sr. Bush poderia até ser aceitável, digamos assim. Mas, muito além disso, ele faz questão de colocar em risco a própria humanidade e o planeta – ou o que ainda resta deles. O Protocolo de Kyoto foi simplesmente ignorado, e quaisquer questões ambientais são tratadas, quando muito, como assuntos que não lhe dizem respeito. A ONU, aos olhos desse sr., hoje não passa de uma “pedra no sapato”, incomodando a todo momento e insistindo em querer se meter nas decisões que só a ele mesmo interessam. Fácil: basta desprezar a ONU e todos os países e os respectivos diplomatas que a integram.
Para completar, o sr. Bush se dá o direito de promover agora “ações preventivas” – eufemismo que permite simplesmente mobilizar centenas de caças, frotas inteiras e milhares de soldados para atacar qualquer nação ou homem que seja considerado “hostil”. Eu teria pena do vizinho do sr. Bush, não fossem os custos de uma operação de guerra (ah, desculpem: não é operação de guerra, é “ação preventiva”) como essa. Custos que, segundo alguns chatos de plantão, poderiam minimizar a fome de milhões de pessoas. Mas como essas pessoas não são estadunidenses, ele não tem nada com isso. Mesmo assim, acho que seria interessante se o sr. Bush utilizasse os parcos neurônios que lhe restam e tentasse entender o que o dramaturgo Bertolt Brecht profetizou: “Está se aproximando um tempo tenebroso em que as crianças pobres temerão a fome e as ricas temerão as pobres”.
E, se não fosse pedir muito, recomendaria ao sr. Bush que fizesse um esforço extra e tentasse enxergar à sua própria volta. Os mesmos milhões de dólares que, sem hesitar, são queimados nas suas ações preventivas, estão minguando. Aliás, na verdade esses dólares nunca existiram: foram criados artificialmente por um sistema meramente especulativo. Não é à tôa que mais de uma geração de estadunidenses cresceu jogando “Monopólio”, ou “Banco Imobiliário”. O problema é que o sr. Bush pensa que ainda está jogando… Enquanto isso, debaixo de seus próprios olhos, outros jogadores vão se dirigindo à bancarrota. Enrom, WordCom, Xerox eram “sócias” do sr. Bush no mesmo jogo. Inventaram de colocar alguns zeros a mais nos seus balanços financeiros, ratearam a diferença entre amigos, ajudaram a custear a campanha política de outros… Tudo, porém, absolutamente irreal, culminando na eleição do próprio sr. Bush, que não foi eleito pela maioria mas se apossou da Casa Branca por causa de um voto lá da Flórida.
Toda a empáfia e arrogância daquela pseudo-noção de onipotência foi abalada pelo fatídico 11 de Setembro de 2001. Mas, mesmo depois de ver, com os próprios olhos, que era tão vulnerável quanto qualquer outra nação, o sr. Bush decide alimentar ainda mais o monstro que cria dentro de casa: vamos nos “proteger” das ameaças, e ampliar ainda mais a diferença entre ricos e pobres, espoliando ainda mais o “terceiro mundo” – que, afinal, sempre pagou a conta. Essa concentração de riquezas absurda, ou esse monstro criado e alimentado por essa economia surreal, está dando seus últimos suspiros – ou urros. Como um câncer que destrói o órgão que o alimenta, esse modelo econômico está corroendo a nação que o criou e alimenta. O paciente sobrevive à base de medicamentos caros, que estão no fim do estoque. Suas parcas forças que ainda restam são aplicadas num último grito de guerra, num esforço patético de pretensa demonstração de poder.
Muitas vítimas, ou mártires, ainda vão perecer – e não será em vão – até que esse monstro indecifrável se autodestrua completamente. Mas, assim, extirpado o câncer, a Humanidade nascerá para uma nova vida. Para uma vida saudável. Os mistérios indecifráveis do mundo, então, serão apenas mistérios como o barulho do papel de bala.
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