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:: Intelectuais & Esquerda ::

Faz tempo que recebi essa crônica do Antonio Prata, e hoje ela caiu de novo na minha caixa postal. Não tem o que tirar nem pôr; quem não se identificar que atire o primeiro bolinho.

Bar ruim é lindo, bicho
Antonio Prata


Boteco, João Werner
Imagem roubada do
Digestivo Cultural

Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinqüenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinqüenta anos, mas tudo bem.)

No bar ruim que ando freqüentando ultimamente o proletariado atende por Betão – é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.

– Ô Betão, traz mais uma pra a gente – eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós, meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectuais, meio de esquerda, freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim.

O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e, principalmente, universitárias mais ou menos gostosas. Aí a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.

Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam cinqüenta por cento o preço de tudo. (Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato.) Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz.

Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda em nosso país. A cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelos Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gâteau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda que, como eu, por questões ideológicas, preferem frango à passarinho e carne-de-sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca, mas é como se diz lá no Nordeste, e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o Nordeste é muito mais autêntico que o Sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é bem mais assim Câmara Cascudo, saca?).

– Ô Betão, vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?

:: Toga & Internet ::

Já são mais do que recorrentes as críticas aos togados sobre a falta de compreensão de o que é a Internet. A Justiça brazuca vira-e-mexe se sai com algumas decisões absolutamente ridículas, explicitando como ainda vê a Internet como apenas um outro meio de comunicação e tentando adequá-la às mesmas regras destinadas à TV ou ao rádio. Daí que, seguindo o exemplo do Pedro Doria, nada mais justo do que reconhecer que há, sim, juízes antenados, blogueiros, twitterios. Com a palavra, Jorge Alberto Araújo, do Direito e Trabalho:

Apenas para se dar um exemplo a Associação dos Magistrados do Brasil – AMB e a Escola Nacional da Magistratura – ENM, em convênio com a Fundação Getúlio Vargas, promoveram um curso de atualização em Informática para juízes a ela vinculados.

O conteúdo do curso envolveu desde noções básicas sobre a Internet até questões bem pertinentes aos recentes debates na rede acerca de privacidade, colaboração on line e responsabilização dos provedores de conteúdo.

Foram dados elementos suficientes para que os juízes presentes pudessem refletir acerca dos prós e contras da disponibilização de espaços para a publicação livre de conteúdos em páginas como Blogger, WordPress.com, Flickr e YouTube, dando-se como exemplos situações atuais como os protestos em Myanmar, China, Tibet, em contraposição a situações de exposição pública como o caso Cicarelli que, redundou no bloqueio do servidor do YouTube para todo o país, em uma atitude que repercutiu de forma extremamente negativa internacionalmente, colocando o Brasil ao lado de países autoritários como a China, no que diz respeito ao bloqueio de sítios de Internet.

Nada obstante se debateu, por igual, a responsabilidade objetiva (independente de culpa) de empresas que disponibilizam o acesso gratuito ou pago à Internet pelos atos de seus usuários sem os identificar previamente – as lan houses – estabelecendo-se que se devem criar meios para rastrear e identificar os maus usuários, de forma a permitir a sua punição no caso de práticas ilícitas, sob pena de se perseguir os próprios provedores negligentes nesta atividade, como por exemplo o que já teria ocorrido com a empresa Terra, em um episódio no qual uma pessoa cadastrou um telefone de uma desafeto em um serviço de classificados, identificando-a como prostituta, o que teria gerado ao provedor uma ação em que fora condenada, isso sem que se impossibilitasse identificar o verdadeiro culpado para lhe pleitear o ressarcimento também em juízo.

Não apenas se pode, mas se deve exigir do Poder Judiciário uma maior aproximação com as novas realidades. Todavia não se pode admitir que as grandes empresas de informação se abstenham integralmente de sua responsabilidade no que diz respeito à utilização de seus espaços para a prática de crimes. É importante que os juízes atuem com bom senso no que diz respeito, principalmente ao bloqueio geral do acesso à Internet, mas, por igual, é necessário que as empresas que disponibilizam tais serviços desempenhem seu papel com responsabilidade, dispondo-se a colaborar com o Poder Público na prevenção e punição dos ilícitos praticados através dos meios que colocam à disposição dos usuários.

:: Pena Literária ::

Mário Azevedo Jambo — só sei que é juiz federal, lá no Rio Grande do Norte, mas já virei fã do cara. Já que a gente tá acostumado a meter o pau nos juízes & cia, taí um exemplo bacana. Direto da Folha:

Por que obras de Guimarães Rosa e Graciliano Ramos?
Jambo – O Judiciário não pode ficar na mesmice. O que percebo é que essas pessoas acabam voltando [ao crime]. Temos que criar mecanismos que permitam uma reflexão aos acusados. E por que as obras? Elas têm vínculo com o crime em si. Eles não são pobres. Nada como ler um “Vidas Secas” para perceber o que é vida dura.

Explicando: sob o título *Juiz solta hackers, mas exige que leiam obras clássicas* (hackers ou crackers? a imprensa nunca vai aprender), a reportagem conta que o juiz concedeu liberdade provisória pra três acusados de roubar senhas pela internet. Só que os carinhas vão ter que ler e resumir, de próprio punho, dois clássicos a cada três meses. E, de cara, o juiz mandou eles lerem nada menos que *A hora e a vez de Augusto Matraga*, do Guimarães Rosa, e *Vidas Secas*, do Graciliano Ramos.

Paulo Henrique da Cunha Vieira, 22, Ruan Tales Silva de Oliveira, 23, e Raul Bezerra de Arruda Júnior, 30, foram liberados no dia 17, após nove meses presos por envolvimento na Operação Colossus, da Polícia Federal.

:: Jongo ::

Coisas que esse Vale do Paraíba guarda… nos dias 25 e 26 de abril, são esperados mais de 1.000 jongueiros dos estados de São Paulo, Minas, Rio e Espírito Santo em Piquete, com apresentações coletivas, oficinas e debates. O Encontro de Jongueiros espera a presença 19 grupos de Valença-Quilombo São José, Barra do Piraí, Pinheiral, Angra dos Reis, Santo Antonio de Pádua, Miracema, Serrinha, Porciúncula, Quissamã, Campos, São Mateus, Carangola, São José dos Campos, Guaratinguetá, Campinas e Piquete. Diz o site:

Acontecerão intercâmbios de experiências com intuito de garantir a continuidade e a renovação dessas práticas culturais e o desenvolvimento de estratégias coletivas de transformação da qualidade de vida das suas populações através da arte popular.

No dia 26 à meia-noite acontecerá um mega show de samba com Dona Ivone Lara e Xangô da Mangueira na Praça Duque de Caxias.

O evento é produzido pela Associação Brasil Mestiço e o Jongo de Piquete, com o apoio da Prefeitura de Piquete e patrocínio da Petrobras Cultural, e terá portas abertas. O reduto do jongo em Piquete é a Vila Eleotério, para onde se expandiu a população afrodescendente do vizinho bairro da Raia, que recebeu muitos escravos libertos após a Abolição.

De crianças com menos de 10 anos a adultos acima dos 40, cerca de 60 jongueiros estão revivendo pontos e passos preservados pelos mais velhos, ao som do tambu e do candongueiro, apresentando-se na rua uma vez por mês. O jongo convive em harmonia com o samba da escola Império do Braz, onde os jongueiros desfilam durante o Carnaval.

:: Co-Criação ::

Lá em 2001, tive a oportunidade de assistir a uma palestra do pesquisador-professorPardal Jean Paul Jacob, junto com o EfeEfe e o HdHd. Hoje, uma colega aparece por aqui com uma revista, a Offline — projeto gráfico bacaninha, conteúdo razoável (considerando que é voltada pra universitários). Fui conferir a versão eletrônica e dou de cara com uma entrevista do Jacob (apesar do nome, é brazuca). Trechinho:

As pessoas não perceberam o que é um serviço. Ele é caracterizado por quatro coisas. A primeira delas, e a mais importante de todas, é que ele é sempre uma coprodução, uma co-criação. Guardem este conceito.

[…] Cada vez mais, produtos estão sendo projetados por grupos de usuários. Na eletrônica, isto está acontecendo muito. A Motorola, por exemplo, fez um telefone concorrente com o iPhone da Apple, que possui um monte de funções. O manual tinha 54 páginas e foi escrito pelos técnicos. Fizeram um grupo de teste com consumidores. Ninguém entendeu nada. A empresa aprendeu a lição. Distribuiu 200 aparelhos de graça para 200 pessoas e pediu que comentassem o que gostaram, o que não gostaram, de forma wiki. O novo manual foi escrito por eles e é lindo de morrer! São os usuários que sofrem e não os projetistas. Mais e mais o usuário participa, mais e mais ele constrói.

Segundo clichê: no final da entrevista há um resumo de um relatório de 2008, editado pelo The New Media Consortium, com as cinco tecnologias que prometem transformar a educação :

>> Vídeos em massa
>> Web colaborativa
>> Banda larga móvel
>> Junção de dados (“data mashups”)
>> Sistemas operacionais sociais. O ingrediente essencial da próxima geração de redes sociais serão os sistemas operacionais sociais que serão a base da organização das redes em torno de pessoas, mais do que de conteúdos. Esta simples mudança conceitual promete profundas implicações para o mundo acadêmico e para todas as maneiras como concebemos conhecimento e aprendizagem. Os sistemas operacionais sociais darão suporte a novas categorias de aplicações que tecem conexões implícitas e pistas que deixamos em todos os lugares, enquanto seguimos com nossas vidas e as usamos para organizar nosso trabalho e nosso pensamento em torno das pessoas que conhecemos.

A íntegra do estudo está em www.nmc.org/pdf/2008-Horizon-Report.pdf

:: Internet e as Eleições Municipais ::

Discussão recorrente, e que ainda vai render muita água por baixo da ponte — em primeiríssimo lugar, os ilustres togados do TSE precisam fazer um esforço pra entender o que é a Internet. Entregar santinhos de mão em mão é bem diferente de usar ferramentas de redes sociais pra uma campanha — reputação é tudo, conversações são fundamentais. E eis que o copoanheiro Adauto faz um resumo básico do que tá rolando: segue o copy&paste na íntegra; faço minhas as palavras dele.

Internet e as eleições municipais

Ontem à noite acompanhei, pela TV Cultura, um debate (ao vivo) pra lá de acalorado no programa Opinião Nacional. O tema: uso das ferramentas da Internet nas eleições municipais. Tudo isso em função de um malfadado parecer da assessoria técnica do TSE — Tribunal Superior Eleitoral, mas já, já, voltaremos a falar sobre isso.

Eram seis os debatedores. Sérgio Amadeu e Marcelo Tas dispensam apresentações. Ana Flora França e Silva, Diretora Geral do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná, José Américo, vereador do PT em São Paulo, Julio Someghini, deputado federal do PSDB por São Paulo, e Manuela D’Ávila, deputada federal do PC do B pelo Rio Grande do Sul — simpaticíssima, 27 aninhos e uma gracinha (não necessariamente nessa ordem).

O grande perrengue da coisa toda é que recentemente a assessoria técnica do Tribunal Superior Eleitoral emitiu um parecer através do qual procuram regular e limitar o acesso e uso da Internet por parte dos candidatos a cargos políticos. Segundo informado pela Ana Flora — que também é doutora advogada de direito jurídico — esse parecer não estaria inovando em absolutamente nada, pois já existiria a Resolução nº 22.718 do TSE, que teria sido, inclusive, elaborada após consulta e apoio de representantes dos partidos políticos, bem como também há a própria legislação eleitoral, Lei nº 9.504/97, a qual sofreu importantes alterações através da Lei nº 11.300/06.

Nem preciso dizer que depois dessas afirmações, a casa caiu… Os políticos presentes, indignados, ressaltaram que o TSE não consulta os partidos coisíssima nenhuma. Simplesmente comunica o que pretende fazer e efetivamente faz o que lhe der na telha.

Aliás, falando nos políticos, aí vai uma sinopse (mais um feeling) de cada um deles. A Ana Flora (coitada) estava lá apenas marcando presença, pois limitou-se tão-somente a passar a posição oficial da Justiça Eleitoral. O tal do Julio Someghini (PSDB) estava, na verdade, usando o debate como um belo dum palanque para tentar apresentar as discussões que estão rolando na Câmara — em especial no que diz respeito à Internet. O José Américo (PT) fazia parte da turma do *deixa disso*, pois no decorrer do debate vivia tentando arregimentar simpatizantes para que houvesse uma reunião e discutir os mais variados temas. Já a Manuela D’Ávila (ah, Falbalá…) demonstrou uma lucidez ímpar, destacando que obteve quase 300 mil votos com uma campanha baseada mais em blogs, Orkut, Youtube etc., que na propaganda tradicional propriamente dita.

O Sérgio Amadeu (caboclinho arretado!) foi bastante enfático em todas suas colocações. Seu maior temor é que ocorram os costumeiros exageros que usualmente impedem a democracia. Destacou que a Internet como um todo, os blogs de maneira especial, são visitados por quem quiser. Diferentemente das campanhas políticas tradicionais, os usuários não são massacrados com a propaganda eleitoral, uma vez que o computador nada faz sozinho. É preciso teclar, é preciso interagir — e isso é que faz toda a diferença. Ao contrário do que dizem a Internet não é a chamada Terra de Ninguém, na realidade é a Terra da Reputação. Quem tem reputação, quem tem competência, se estabelece. Simples assim. É uma ferramenta que permite aos eleitores uma verdadeira pesquisa a fundo acerca de seus candidatos, não tendo que se contentar com os *santinhos* distribuídos nas ruas.

Marcelo Tas, na mesma linha, literalmente bradou que tentar controlar a Internet é o maior dos absurdos, pois, por essência, a Internet é incontrolável. A Internet não é uma rede de computadores, é uma rede de gente. E quanto aos candidatos, ao contrário da máscara vestida nos programas de TV, o candidato que resolver se mostrar, que aguentar o tranco, que souber ouvir as críticas, que verdadeiramente debater com seus possíveis eleitores, pois bem, esse candidato só vai crescer. O político inteligente não vai tratar seu público como imbecil. A Internet é uma ferramenta extremamente benéfica nesse sentido.

Mas o mote principal do debate — e que foi bastante martelado pelos presentes — é que em toda eleição, sem exceção, a legislação muda. Ana Flora tentou uma saída pela direita, a la Leão da Montanha, dizendo que a legislação é a mesma, que não mudou. Ora, mera tecnicidade, pois ainda que a lei seja a mesma o TSE vem reiteradamente mudando suas resoluções, ou seja, está legislando através de resoluções. Que eu saiba esse papel seria do Legislativo, não do Judiciário. Acuada, Ana Flora limitou-se a explicar que os cartórios pelo Brasil inteiro estariam conectados via intranet, não necessariamente dispondo de Internet, de modo que o Tribunal simplesmente não tem capacidade para fiscalizar a obediência ou não de suas imposições. Esse papel acaba ficando relegado aos próprios partidos políticos…

Enfim, pela polêmica toda da coisa ainda há a possibilidade de o TSE rever seu posicionamento. Mas, particularmente, acho difícil. O grande problema é que, conforme foi dito no debate (acho que foi o Sérgio Amadeu, mas não tenho certeza), *mentes antigas acham que o melhor meio de tratar o novo é reprimir o novo*.

Que fique bem claro: na minha opinião resolução não é lei, parecer não é lei. Simples assim. Os candidatos ainda não fazem parte da máquina administrativa — são meros aspirantes a políticos. Não estão adstritos ao Princípio da Legalidade — *se a lei não prevê, é proibido*. Desse modo devem seguir a regra geral, ou seja, *se a lei não proíbe, é permitido*.

A atitude do TSE de tentar limitar o acesso dos candidatos às ferramentas da Internet, ainda mais com uma falta de tecnicidade ímpar, através de resoluções, é tentar matar uma mosca com uma pá. Está fadada ao fracasso. Como muito bem colocado no debate, a Internet é incontrolável. E é benéfica. Penso que é o melhor conceito de Anarquia jamais visto. Entenda-se: anarquia *enquanto ideal comum a todos aqueles que advogam a liberdade*. Pela Internet todo e qualquer candidato tem meios de chegar diretamente ao seu eleitorado. E vice-versa. Não dependem de campanhas milionárias (que, muitas vezes, só enchem o saco), nem tampouco estão limitados aos parcos recursos financeiros disponíveis — quando muito uns *santinhos* e olhe lá.

Pela Internet o eleitor pode buscar, segundo seu próprio livre arbítrio, o candidato que tem mais condições de atender seus anseios, suas expectativas. É como consultar um livro: a pessoa vai na página que quer. Não importa a quantidade de informações que vá ser disponibilizada. O eleitor é inteligente. Sabe diferenciar o joio do trigo. Velhas técnicas de difamação, calúnia ou injúria (sempre tive problemas em distinguir esses conceitos) simplesmente não funcionam na Internet, pois, como definido com primor, a reputação é que vale.

Enfim, há que se ter em mente que a Internet é uma terra de oportunidades digitalmente virtual mas constituída de gente de carne e osso. É um admirável mundo novo, com inúmeros recursos de utilização para o bem, mas que vem tentando ser tolhido e regulamentado por dinossauros fadados à extinção.

E que não se esqueçam: toda regra já nasce pronta para ser quebrada…

Até mesmo a regra acima.

Os hackers que o digam!

:: Habeas Pinho ::

Lembrei desse causo num papo com o copoanheiro Adauto. E não é que ele tinha postado há tempos? Bons tempos em que a Justiça estava envolvida com causos desse naipe, e com decisões idem.

Em 1955, em Campina Grande, na Paraíba, um grupo de boêmios fazia serenata numa madrugada do mês de junho, quando chegou a polícia e apreendeu o violão.

Decepcionado, o grupo recorreu aos serviços do advogado Ronaldo Cunha Lima, então recentemente saído da faculdade e que também apreciava uma boa seresta. Ele peticionou em Juízo, para que fosse liberado o violão.

Aquele pedido ficou conhecido como *Habeas Pinho* e enfeita as paredes de escritórios de muitos advogados e bares de praias no Nordeste.

Mais tarde, Ronaldo Cunha Lima foi eleito deputado estadual, prefeito de Campina Grande, senador, governador e deputado federal.

Eis a famosa petição:

HABEAS PINHO

Exmo. Sr. Dr. Juiz de Direito da 2ª Vara desta Comarca:

O instrumento do crime que se arrola / Neste processo de contravenção
Não é faca, revólver nem pistola. / É simplesmente, doutor, um violão.

Um violão, doutor, que na verdade / Não matou nem feriu um cidadão.
Feriu, sim, a sensibilidade / De quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura, / Instrumento de amor e de saudade.
Ao crime ele nunca se mistura. / Inexiste entre eles afinidade.

O violão é próprio dos cantores, / Dos menestréis de alma enternecida
Que cantam as mágoas e que povoam a vida / Sufocando suas próprias dores.

O violão é música e é canção, / É sentimento de vida e alegria,
É pureza e néctar que extasia, É adorno espiritual do coração.

Seu viver, como o nosso, é transitório, / Porém seu destino se perpetua.
Ele nasceu para cantar na rua / E não para ser arquivo de Cartório.

Mande soltá-lo pelo Amor da noite / Que se sente vazia em suas horas,
Para que volte a sentir o terno açoite / De suas cordas leves e sonoras.

Libere o violão, Dr. Juiz, / Em nome da Justiça e do Direito.
É crime, porventura, o infeliz, / cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, e afinal, será pecado, / Será delito de tão vis horrores,
perambular na rua um desgraçado / derramando na rua as suas dôres?

É o apelo que aqui lhe dirigimos, / Na certeza do seu acolhimento.
Juntando esta petição aos autos nós pedimos / e pedimos também DEFERIMENTO.

Ronaldo Cunha Lima, advogado.

O juiz Arthur Moura sem perder o ponto deu a sentença no mesmo tom:

Para que eu não carregue / Muito remorso no coração,
Determino que seja entregue, / Ao seu dono, o malfadado violão!

Segundo clichê: a propósito, lembrei do Chico Buarque:

*Juca foi autuado em flagrante / Como meliante
Pois sambava bem diante / Da janela de Maria
Bem no meio da alegria / A noite virou dia
O seu luar de prata / Virou chuva fria
A sua serenata / Não acordou Maria

Juca ficou desapontado / Declarou ao delegado
Não saber se amor é crime / Ou se samba é pecado
Em legítima defesa / Batucou assim na mesa
O delegado é bamba / Na delegacia
Mas nunca fez samba / Nunca viu Maria*
– *Juca*, 1965

:: Lixo Eletrônico ::

Mais uma das boas que o EfeEfe, HdHd e outrxos aliadxs vêm aprontando, a partir do weblab: um blog sobre lixo eletrônico. O próprio EfeEfe explica:

A história por lá é partir do estudo que a equipe do Dalton realizou no ano passado para a Waste.nl, procurando entender um pouco mais sobre a indústria de reciclagem de resíduos eletroeletrônicos no Brasil, e passar a coletar informações e referências, às vezes traduzir trechos de artigos que saem pela internet. Agitar a conversa, porque o assunto é cheio de espinhos e falta bastante informação sobre isso no Brasil.

Daí que montamos o blog não só como plataforma pra espalhar o estudo — que está disponível em PDF com uma licença CC — mas também pra chamar pessoas que se interessem pelo assunto. Por enquanto, eu e o camarada hdhd estamos blogando, e a equipe vai crescendo.