*Vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada.* As pessoas não morrem, ficam encantadas, diria o próprio Rosa. Pois bem, 2008 marca duas efemérides (sempre quis escrever essa palavra…) daquelas: hoje, o gênio Guimarães Rosa faria 100 anos e, em setembro, completam-se 100 anos da morte de Machado de Assis. Discussão besta, a meu ver, foi lançada pelo caderno Mais! do último domingo: qual dos dois é o melhor? Não há *o* melhor. Machado é mais formal; Rosa é lúdico. *Cada um com seu cada qual*, como diria o copoanheiro Ivan. Mas, é claro, este alfarrabista não esconde sua preferência, e até já cometeu alguns abusos em homenagem ao mestre. E, por iniciativa de outro copoanheiro, tá criado o blog Copoanheiros, nome inspirado em… Guimarães Rosa. Ah!, não sabe o porquê da inspiração? Então leia Nós, os Temulentos.
Pra completar, nada melhor do que comemorar a data com o imperdível (mas que eu acho que vou perder…) lançamento do CD do Nhambuzim, com direito à bela Sarah e à trupe do Xavier, Edson & Cia. Taí a dica.
Esse é pra dar corda mesmo. Seguindo o SAmadeu, *é preciso derrotar o projeto que viola a privacidade e liberdade na rede*. Escolha o banner, copie&cole, e espalhe por aí.
Saiba mais sobre o PL aqui. Como diz o SAmadeu, *trata-se da implantação de uma sociedade da vigilância e do medo. É um projeto que nasce da mentalidade autoritária que irá igualar o Brasil ao despotismo chinês*.
Confesso que não conhecia o cara, que morreu no domingo. Mas o Almirante Nélson traz alguns aforismos do cidadão, que tem toda pinta de gente boa:
Honestidade pode ser a melhor política, mas é bom lembrar que, por eliminação, desonestidade é a segunda melhor política.
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É meio desanimador ver os médicos chamando aquilo que eles fazem de “prática”.
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Nascer é ganhar um ingresso prum freak show. Nascer nos Estados Unidos é garantir lugar na primeira fila.
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Nos Estados Unidos, qualquer um pode ser presidente. Esse é o problema.
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Eis a verdadeira razão de não existir nos fóruns uma placa com os Dez Mandamentos: anunciar “Não roubarás”, “Não cometerás adultério” e “Não mentirás” num prédio cheio de advogados, juízes e políticos cria um péssimo ambiente de trabalho.
Faz 50 anos que o Brasil ganhou a primeira Copa do Mundo. De lá pra cá, é redundância dizer que muuuita coisa mudou. Nostalgia à parte, tenho quase medo de assistir ao documentário do jornalista José Carlos Asbeg, *1958 – O Ano Em Que o Mundo Descobriu o Brasil*: uma homenagem aos heróis que arrancaram do povo brasileiro a pecha do *complexo de vira-latas* descrito por Nelson Rodrigues após a derrota para o Uruguai da decisão do Mundial de 50, em pleno Maracanã lotado. No Estadão, dia desses, li que no documentário um jogador soviético, depois do jogo de estréia do Pelé em 58, jogou a chuteira na parede do vestiário e exclamou: *eu não jogo mais. Isso que nós jogamos não é futebol. Futebol é o que eles jogam*. Vendo a selecinha hoje, é quase impossível acreditar que um dia merecemos uma declaração dessas por parte de um adversário. Mas como sou só um torcedor palmeirense que sempre era escalado pra (ou sobrava pra) goleiro — ou seja, um perna-de-pau –, passo a palavra pra quem realmente entende do babado:
>>Idelber mexe na ferida: *Ricardo Teixeira, Nike, a banalização da Seleção com jogos caça-níqueis, a compreensível falta de interesse de jogadores que já estão instalados no mercado europeu e não precisam da Seleção como vitrine, a piada de mau gosto que é ter Dunga como técnico*. >> Milton Ribeiro, *do contra*, pede uma crise que deixe o Brasil fora de uma Copa. >>Xico Sá, genial, conta como essa praga de dunguismo começou [na Folha, só pra assinantes, mas eu copio a seguir]. Saudades do futebol-arte…
1994, o ano que mal começou
Aquele triunfo fez muito mal às nossas artes ludopédicas; foi ali, naquela vitória, que o Brasil inventou o dunguismo
AMIGO TORCEDOR, amigo secador, se 1968 não findou ainda para a história, 1994 é o ano que não acabou para o futebol brasileiro. Nunca um triunfo fez tanto mal às nossas artes ludopédicas.
Tudo bem, você vai dizer que o título veio em boa hora, que atravessávamos jejum digno da quarentena de Jesus no deserto, mas, amigo, foi ali, com heróica vitória nos pênaltis, que o Brasil inventou o dunguismo.
Daquele momento por diante, o brasileiro, pusilânime e carente como prostituta do interior na Sexta-Feira Santa, abriu mão da sua maior virtude: ganhar ou perder jogando bonito. Era uma cláusula sagrada do contrato social do escrete com o populacho. Podia faltar pão na mesa, mas o circo era garantido como se vivêssemos sob ordens do imperador Júlio César na Roma Antiga: “Ad populum panis et circensis”.
Falo de contrato pescando aqui o colega Rodrigo Bueno e a sua belíssima crônica sobre o time idem da Holanda. Sim, amigo, lá, o técnico firma em cartório o dever cívico de encher os olhos do público.
Como bem disse José Mourinho, gajo que manja do babado, abrir mão do nosso jogo é, além de burrice, enterrar grande traço cultural e particularíssimo da civilização brasileira. O pior é que o dunguismo, doença infantil do teixeirismo, regime perpétuo da ex-CBD, além de jogar mais feio do que briga de foice no escuro, também não ganha mais nem do Caveirinha Futebol Clube, citando um 11 clássico formado por trabalhadores de funerárias e cemitérios da invicta e gloriosa Recife.
Não, amigo, não é pegar pesado, ou “pessado”, como nas piadas em portunhol sobre os argentinos, mas que maçada esses pebolins ou totós humanos que estamos vendo.
Se isso é futebol, eu me chamo Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares, Macedonio Fernández, Washington Cucurto, para citar só gênios da escrita do país de Maradona. Na buena onda, nem sou de me irritar ou celebrar feitos canarinhos.
Sempre achei que futebol de seleção e de Copa são para amadores e para quem não aprecia, à vera, a lúdica e grandiosa literatura feita com os pés, a melhor das brincadeiras humanas. Mas o dunguismo é capaz de tirar do sério até o dalai-lama, até Maria do Socorro, minha santa madre, que só vê jogos do ex-escrete.
Certo está o Marcelo, basco-paulista-nordestino, amigo rock n” roll do ABC, que trocou o dunguismo pelo já tradicional desfile de lingeries do programa da Luciana Gimenez. Que alívio mudar de canal nessa hora. Ufa! Eu limpei a vista com a deliciosa pantaneira Juma Marruá, além de passar no “Todo Seu”, do genial Ronnie Von, o príncipe.
O duro foi encontrar o Magrão na seqüência, o doutor Sócrates Brasileiro, lá no “Cartão Verde”. Inevitável lembrar do fino da bola. Fiquei saudoso como um português numa gare se despedindo de um parente que vai passar apenas uma semana na Europa, como eles chamavam outrora o resto do próprio continente. Até o Vitor Birner, o nosso Ballack, colega da mesma bancada, que também prefere futebol de clube, principalmente nas cores vermelho, branca e preta, estava inconsolável.
Fica Dunga, só assim tiramos uma bela soneca em berço esplêndido e esquecemos de vez este lábaro que ostentas estrelado!
Antônio José Santana Martins saiu lá de Irará, Bahia, pra fazer história. Não é exagero chamar o cara de gênio, e certamente fica mais fácil reconhecê-lo pelo *nome artístico*: Tom Zé, que inova mais uma vez. Como bom menino que sou, aceito de bom grado o puxão de orelhas que o mestre SLeo me deu, por eu ter vacilado e deixado só pra agora a notícia: tá na rede, limpinho pra download, digrátis, com direito a encarte, letras, o escambau — aqui, ó, na Trama — *Danç-Êh-Sá ao vivo*, regravação de *Danç-Êh-Sá – Dança dos herdeiros do sacrifício*.
Claro que o SLeo tem muito mais propriedade e conta mais causos no tropicalista-mór, ou *artista-filósofo de mais de 70 anos de corpo e mente antenados*, e aproveita pra cutucar a *grande imprensa*, que foi furada, e muito bem, por vários blogs[mea culpa: também fui furado e deixei passar a chance…]. Mas, bom, deixemos de chorumelas e vamos lá, cambada: baixem logo o disco, e divirtam-se. A internet livre, o compartilhamento de obras, a tchurma do copyleft, os anarcas digitais agradecem =^)
…pra quem cometeu isso. Você sabia que…
* a capital de Portugal, Lisboa, é a porta de entrada para a Europa
* o idioma oficial [de Lisboa] é o português, mas fala-se fluentemente o espanhol
* [Lisboa é] banhada pelo Oceano Pacífico
* Lisboa tem entre seus vultos históricos nomes importantes da história do Brasil, haja vista que já fomos colônia portuguesa
* Lisboa é uma cidade plana, de velhos mas bem conservados casarios, clima tropical úmido, temperatura variável, fria no inverno e quente no verão, mas nada comparável ao calor brasileiro
* graças ao Estreito de Gibraltar, Portugal liga-se também ao Oceano Atlântico
* o curioso é que 2/3 da capital portuguesa desapareceram após a II Guerra Mundial, mas o primeiro ministro de então, Marquês de Pombal, providenciou a recuperação das ruínas
É difícil anotar qual a maior barbaridade no texto — eu apostaria na ressurreição do Marquês de Pombal após a Segunda Guerra. As pérolas são da revista brasileira Turismo & Negócios — ajude o PDoria a encontrar os sete — ou mais — erros…
Repito aqui a pergunta que o Hermenauta fez: você não sabe o que é o Mundaneum? Pois é, eu também não. Mas o Hermê conta o causo, seguindo reportagem do NYTimes. Resumindo (mas leia mais lá no Hermê, pô!): lá nos idos de 1934, o belga Paul Otlet já havia antecipado a World Wide Web. Detalhe: o cara era bibliotecário. Pioneiro da Gestão da Informação, foi o co-criador do Instituto Internacional de Bibliografia, que tinha o objetivo de organizar as diferentes fontes de investigação científica e fornecer informação para a recuperação em qualquer documento publicado mundialmente.
Então, em 1934, ele rascunhou o que chamou de *telescópios elétricos*: um plano para criar uma rede global de computadores que *permitiria a qualquer pessoa fazer buscas e examinar milhões de documentos, imagens, vídeos e áudios interligados. Para ele as pessoas seriam capazes de usar a rede para trocar mensagens, compartilhar arquivos e conversar em redes sociais*. Parece familiar hoje, né não?
Todo o trabalho do cara acabou vitimado pelos nazistas. Hoje, no entanto, o trabalho de Otlet está sendo objeto de tentativas de restauração, e um dos principais projetos é o Mundaneum Museum, em Bruxelas.
Eu sei que eu *deveria estar falando* sobre o que o TSE quer estar aprontando sobre as eleições e a internet — me limito a repetir o óbvio: isso não é rádio nem TV, catzo! Quem quiser saber mais sobre o imbroglio, o SAmadeu conta onde termina meu [dele] hipertexto, entre outras, e o Adauto sugere como mudar o canal de seu computador — e , claro, tem muito mais gente com mais propriedade discutindo o lance.
Este Alfarrábio fica, portanto, com a ressurreição do palito de fósforo do Glerm: *folclóricos mundos pós-industriais cantam utopias versus distopias*, ao que a Lelê colou uma crônica deliciosa do Verissimo: Para o nosso cérebro, a escuridão da noite continua total e irreversível. Temos sono porque a notícia de que agora podemos enxergar no escuro ainda não chegou ao nosso cérebro — fósforos pros togados, por favor.
Noite escura
Imagine-se vivendo no tempo em que ainda não sabíamos fazer fogo. Num mundo sem fogo, não existe luz. Depois que o sol se põe, não se enxerga mais nada. Até o sol reaparecer, não se enxergará mais nada. Você estará numa escuridão total e irremediável. A luz das estrelas não o ajudará a saber se aquele escuro mais espesso que parece se mover é um parente, um amigo ou um leão. Uma lua cheia melhorará a sua percepção, mas não muito: cada sombra indefinida continuará a ser uma ameaça e um possível terror. Quando não houver estrelas ou lua, você só saberá o que acontece à sua volta pela audição, o olfato ou, meu Deus, o tato. Imagine uma noite inteira de ruídos estranhos dos quais você não pode fugir, pois como encontrará uma árvore para subir no escuro? Imagine-se aninhado numa árvore para passar a noite com segurança e descobrindo, ao amanhecer, que dormiu enrolado numa cobra.
Quantos anos os pré-homens terão vivido assim, só conhecendo o fogo dos incêndios provocados na mata por relâmpagos e desesperados por algum meio de domesticá-los, os relâmpagos ou o fogo, para iluminar as suas noites? O sol seria adorado pelos primitivos porque era a fonte da vida e, afinal, qualquer bola incandescente daquele tamanho passando diariamente pelo céu fatalmente causaria admiração, mas desconfio que o que era adorado, acima de tudo, era a luz. Não a grande lâmpada mas a sua dádiva, o poder de enxergar. O fim do terror do invisível, ainda mais do invisível que roncava.
O sono é uma decorrência dos anos sem fogo e sem luz. Dormimos porque nossos antepassados não tinham o que fazer no escuro a não ser dormir. Como continuamos a dormir como fazíamos na savana africana, ou pelo menos a ter sono a intervalos regulares, isto significa que o cérebro humano não tomou conhecimento nem da invenção da fogueira, quanto mais da lamparina, da lâmpada a gás e da luz elétrica. Para o nosso cérebro, a escuridão da noite continua total e irreversível. Temos sono porque a notícia de que agora podemos enxergar no escuro ainda não chegou ao nosso cérebro.
Sabemos algumas coisas com absoluta certeza sobre os nossos antepassados genéticos. Sabemos com absoluta certeza que todos viveram até a maturidade sexual, que todos tiveram pelo menos uma relação sexual na vida e que todos, sem exceção, eram férteis. Mas só podemos imaginar o que passaram para sobreviver aos terrores do mundo primevo – como os terrores da noite – portando o nosso DNA.
Se pudéssemos viajar no tempo, o que diríamos para estes antepassados, em que língua, com que gestos? Só agradecer por terem resistido ao duro início da vida humana, inclusive aos leões, e assim iniciado a nossa linhagem não seria o bastante. O momento requereria alguma solenidade. Talvez um discurso, dizendo que não os tínhamos desapontado, que também tínhamos vivido o suficiente para passar adiante nossos genes e assegurar a sua descendência, milhões de anos depois. E trocaríamos presentes.
Que presente poderíamos levar da nossa era para eles? Eu levaria uma caixa de fósforos.
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