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:: Famigerado ::

Imagino aquele Damásio lá no Planalto perguntando aos doutos (se é que existe algum naquela barafunda):

“-Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: famisgerado… faz-me-gerado… falmisgeraldo… famílias-gerado?”

Isso depois de ser avisado por algum assessor sobre a coluna do Sérgio Rodrigues, com preciosas, inestimáveis, colaborações de gentes como Fernanda Torres, Antonio Prata, Renato Terra, Paulo Scott, Leonardo Villa-Forte, Luiz Henrique Pellanda e outros que preferiram o anonimato. Provocada pelo Sérgio pra uma “brincadeira”, ou um desafio, essa turma incrementou o nosso já rico léxico, inspirada naquele coiso:

“mórtigo, brúmbio, escosso, bilinhento, vômil, peçoncôrnio, neféstilo, nojúnculo, cloástico, peidófilo, escombruloso, remelético, xonho, gosmorrúnculo, viborongo, pustulibundo, espanta-mulho, esfornedor de bóstola, górgulo, nucuz, diminúnculo, tubértrico, metastofélico, mefistostático, mierdosta, queirótico, diabundo, analtrofóbico, tripulsivo, todo-escroto, carniciliano, lambetrumpeiro, destruirento, fascisqueiro, anticéfalo, pistólatra, abrunto, cunhaz, trunlítico, tramoiético, pocilgono, histépodre, luciferôntico, vomíssuno, morxado, ascrachoso, depretífero, miliciondo, nojencéfalo, pavorível e senhumano, escrotibundo, hominhoso, patúfrio, mijérrimo, cagalhesco, putrecéfalo, flatófago, anemolento, jequitibundo, chorumentalista, arregolitoso, suga-sebo, rancorífico, furicocida, desmalmado, retróloquo, fecaficionado, falsicultor, borramínguas, jebólatra”.

Ainda mais: a coluna relembra o “Sargento Getúlio”, do João Ubaldo Ribeiro:
“Perde a força os nomes quando eu lhe xingo e por isso vou inventar uma porção de nomes para lhe xingar…”, o que justifica e legitima definições como “crazento da pustema”, “disfricumbado firigufico do azeite”, “carniculado da isburriguela”, “retrequelento do estrulambique”.

Todos os adjetivos e expressões vestem perfeitamente aquele tal mandatário. Talvez esta seja a mais rica (?) contribuição do valentão do Planalto, exatamente ao contrário do que pretende: instigar nossos escribas a produzirem mais cultura, mais conhecimento, criar ao invés de destruir. “Ainda veremos esse Bolsonaro piar na jarabiroca.”

Ou, como exclamaria a Rose, em uma de suas invenções linguísticas: “isso é um pretupitério!”.

Segundo clichê:
vale a ressalva do Marcelo:
“é bacana e surpreendente, mas há um porém, triste.
na mesma linha do raciocínio de que estamos perdendo tempo precioso explicando coisas que o iluminismo já fez há 500 anos, também aqui tamo gastando inspiração pra designar esse pestilento.
infelizmente, não acho que toda essa coleção de “palavras novas, inventadas” faça poesias bonitas.
taí mais um mal pra esse carrascoroso levar embora com sua escruscienta carapaça mórbida”.

:: Barraforte ::

Idos dos anos 80 do século (milênio!) passado: inventei de fazer um colégio técnico. De eletrônica. Desnecessário dizer que, depois de incontáveis choques nas aulas práticas e de ser reprovado um ano (ah, as matérias técnicas), me convenci de que não era minha praia.
Não me arrependo; foi bacana. Ficaram na cachola a lei de Ohm e alguns princípios básicos, além de boas lembranças. Dos colegas, muita gente boa de que não tenho notícias há tempos.
Tinha um que era um figuraça, o Corintiano. Não me perguntem o nome do sujeito. Humilde de tudo, pobrinho mesmo, de marré dessi, desengonçado e torto, “mal diagramado”, como diria o Xico Sá. Sempre de bom humor, inabalável, contava com a nossa solidariedade pra um salgado ou um pão na chapa da cantina.
Nessa época, meu pai comprou uma bicicleta, uma Caloi Barraforte. Pesadona, sem marchas, era pra se exercitar mesmo. E eu acabei usando a dita cuja pra ir pro colégio.
Aticei os desejos do Corintiano: ele namorava a bicicleta, novinha, dourada, pedia pra dar uma volta, se esbaldava por instantes com aquele objeto do desejo impossível, inatingível, pra ele.
Vai que um dia me sensibilizei com aquele namoro. E dei a bicicleta pra ele. Simbolicamente, “cobrei” algo como uns 15 ou 20 reais, em moeda de hoje. Só pra não dizer que foi de graça.
Volto pra casa sem a bicicleta, e digo pro meu pai que fora roubada. Ele me repreende pela falta de cuidado e atenção mas, paciência, já era.
Acho que nunca contei a verdade pro meu pai. Mas tenho a convicção de que ele aceitaria meu gesto — talvez até me desse uma dura pelos 20 reais.

:: Pulsar ::

E esse sempre-agora
tortura, dilacera,
e me mostra vivo.
Um ceticismo esperançoso,
um otimismo surreal,
um realismo doentio
um turbilhão insano
de ser e fazer
momentos
instantes
inconstantes
ávidos do que
só as brumas
de um luar,
sereno,
tranquiliza
e faz sangrar
vida e
sentimento.
Que, por fim,
será.
_”Ano passado
eu morri,
mas esse ano
eu não morro.”_
Vivo, e sobrevivo,
de saudades
e esperanças.
Se o peito dói,
se as mãos agem,
se o Sol queima
e se a lágrima escorre,
a vida pulsa.
Um pulsar eterno
como ondas na areia,
nunca iguais,
sempre vivas.

:: Ser-tão ::

De um quase-lugar, num instante qualquer.

Ver, ouvir, escutar, sentir, ser, estar. Dialogar. Viver.
Substantivos-verbos que exigem que sejam conjugados e compartilhados e alimentados. Com quem?
O senhor mire e veja: com o mundo, com o ser-tão.
Não tenho tenência pra tanta demência. Mas o mundo é assim — esquenta e esfria, só quer da gente é coragem.
Esse vir-a-ser-tão urge!
Meu clamor a Deus é saber-poder atender a esse chamado-imperativo, e quisera ter a demência dos loucos temulentos, azuis e claros, incapazes do mal — mas sempre tementes ao tal.
E qual.
Escrever uma carta, na porta do boteco? Posso, se me permite — eu cá não incomodo ninguém. Só ao botequeiro peço, solicito, duas folhas de caderno e uma caneta, ao que ele, presto, me dá uma prancheta.
E conta que, no bairro, não há tanto tempo, os correios não acudiam. Toda correspondência chegava ao boteco, onde os viventes vinham buscar. E onde, inesperado, um iletrado um dia pediu ao moleque, filho do botequeiro, que lhe escrevesse uma carta.
Ditou-a, tintim por tintim, e postou notícias à família, a qual estimava, e muito.
Daí pro povo se achegar à ideia, foi um pá! Dia sim, outro também, acorriam as gentes aos préstimos do escritor-mirim, paciente — e segredoso como o sacerdote ao ouvir as confissões dos pecadores.
O senhor dirá que parece roteiro de filme. E é.
É tão real quanto o surreal que planta dúvidas e atrapalhamentos na nossa humilde existência, carente mas dependente dessa sempiterna (sempre quis usar essa palavra — grato, mademoiselle Yourcenar!) lógica que nos foge, exígua, intocável.
Fico aqui, sem conclusão — conclusão não há. Meu viver é duvidar, certeza não tenho nenhuma. Nem quero.
Talvez só mesmo o ser-tão pra aliviar, pra um acalento nesse sobre-viver.
Ah! Mas que se saiba: tenho rancor nenhum, de nenhuns, e quero o bem de todos — um bem que me faz bem e me agrada, muitão!
Meu viver não é de graça, é graça. Que me impõe a responsabilidade de retribuir.
Sigo o caminho. A travessia.


p.s.:
escrito à mão, numa batida só, sem edição.


:: Psicodelia brazuca ::

A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império do Nuncamais

Década de 60 do século (milênio!) passado. Um cara que hoje é um distinto senhor, ares de nobre, até, era então um garotão que experimentou fazer por aqui, nas Terras Brasilis, um tipo de música pop, sofisticada e experimental como se fazia no exterior. Era o “Príncipe”: Ronnie Von. Até que chegou a Jovem Guarda e, com ela, aquele que viria a ser intitulado “Rei”: Roberto Carlos. A mídia (sempre ela) tentou criar um clima entre os dois, uma disputa comercial que, na verdade, nunca houve. Ao mesmo tempo, nascia a Tropicália, outro marco na história da música brazuca. Ou seja: aquela época foi um caldeirão explosivo que tentava sobreviver em meio à ditadura.

Roberto Carlos explodiu, ganhou cada vez mais espaço, e Ronnie Von ficou na dele, fazendo um som bem menos comercial e que, até hoje, soa vanguardista. E ele teve uma fase ainda mais maluca, lisérgica e psicodélica total, com uns três discos que passaram quase batidos na época, mas hoje são cultuados e contaram inclusive com relançamento em vinil. (Parênteses: em 1966, o programa “O Pequeno Mundo de Ronnie Von”, da TV Record, abriu espaço pra um irreverente trio que dava seus primeiros passos: “Os Bruxos”. Ronnie rebatizou o trio, formado por um maluco de carteirinha, Arnaldo Baptista, seu irmão, Sérgio Dias, e uma tal de Rita Lee. Nasciam “Os Mutantes”. Fecha parênteses.)

Voltemos ao Ronnie Von. Entre os discos da fase psicodélica, descobri agora (antes tarde do que nunca) uma verdadeira pérola, com um nome pra lá de sugestivo: A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império do Nuncamais”. Melhor do que minhas toscas impressões, tentando viajar na viagem do Ronnie, fiquem com ele mesmo:

Atlântida (Atlantis)

O continente de Atlântida foi uma ilha
Que existiu antes do Grande Dilúvio
Na área em que agora chamamos Oceano Atlântico
Tão grande em área de terra que de suas praias ocidentais
Seus jovens marinheiros navegavam ao sul da América do Norte
Com serenidade em suas naves com velas pintadas
Ao leste: África era uma vizinha através de pequeno estreito de milhas de mar
Os grandes egípcios dos princípios foram remanescentes da cultura atlante
Os reis antideluvianos colonizaram o mundo
Todos os deuses que atuaram nos dramas mitológicos
E todas as lendas de todas as terras vieram da misteriosa Atlântida
Conhecendo seu destino, Atlântida enviou suas naves a todos os cantos do mundo
A bordo, partiram doze:
O poeta, o médico, o fazendeiro, o cientista, o mágico
E os outros conhecidos deuses de nossas lendas, pois deuses eles eram
E os nossos pais preferiram continuar cegos a isto
Libertemos nossa alegria, vamos cantar e dançar mostrando a verdade
Salve Atlântida!

No fundo do oceano
Onde eu quero estar
Ela está

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A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império do Nuncamais

Fico com a certeza de que não sei nada da história da nossa música e, em particular, das “raízes” do nosso rock. Tanto que, fuçando aqui nas internetes, descubro outra pérola, mais recente, de 2013: “Ronnie Von: quando éramos príncipes”, um documentário sobre a fase lisérgica dele. Filme do jornalista Ricardo Alexandre, dirigido por Caco Souza, traz depoimentos do Arnaldo Baptista, Rita Lee, Sérgio Dias, Arnaldo Saccomani e Manoel Barenbein, entre outros, com a banda “Os Haxixins” e Pedro Skywalker rearranjando alguns daqueles sons psicodélicos – e com a participação do Ronnie, claro. Segue aí:

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o teaser

>>
e o documentário

:: Senhor São José ::

“Senhor São José”: um título em letras garrafais, uma foto grande abrindo as quatro colunas centrais da página, seguida de um mosaico de fotos menores, e o texto preenchendo as duas colunas laterais. Na foto maior, o close de um senhor de seus 80 e poucos anos fazendo graça, com uma lente de aumento em um dos olhos. A foto do Pedro Ivo Prates se tornou emblemática, um ícone e “foto oficial” que inspirou charges e caricaturas do dr. Altino Bondesan, e o título “Senhor São José” se tornou sinônimo do cronista maior da cidade.

Quem resgatou o causo foi o Hélcio Costa, num texto bem bacana: “Senta que lá vem história…” Fui o repórter escalado pra entrevistar e escrever o perfil do dr. Altino naquela página antológica que, além de ter feito história, me rendeu boas surpresas: como um causo puxa outro causo, senta que lá vem história…

Uns bons anos depois daquela matéria, talvez mais de uma década, a Ana puxou conversa comigo no Feicebúqui. Eu não a conhecia, mas logo o sobrenome dela a “entregou”: Ana Bondesan. Filha do dr. Altino, ela me agradeceu pela matéria, disse que foi o melhor perfil escrito sobre ele (ainda que apenas uma página de jornal tenha sido pouquíssimo pra fazer um perfil digno dele) e até emolduraram a página, exposta num quadro na casa da família. Agradeci a gentileza dela, emocionado, e me senti gratificado: um repórter nunca sabe, na verdade, qual a extensão daquilo que escreve e publica, mas quando vem um reconhecimento desses, espontâneo e sincero, a gente sabe que vale a pena.

Ou, como bem disse o Hélcio: “Jornalismo se faz de grande coberturas, furos, reportagens e entrevistas especiais. Mas também se faz de pequenos achados, um título bem feito, uma imagem que surpreenda, a simplicidade de uma capa que externe toda emoção da notícia. Nesse instante, jornalismo é pura ourivesaria, é encontrar, no carvão, o diamante.”

***

Mas o dr. Altino era personagem onipresente na redação do extinto ValeParaibano. Ainda que ele não tivesse uma coluna fixa, eram quase diárias suas crônicas, que enriquecia o jornal com um misto de erudição e simplicidade, abordando temas os mais variados: de causos antigos e histórias sobre São José a fatos corriqueiros, cotidianos, sempre temperados por citações, mas nunca com ostentação.

Eu disse que ele era personagem onipresente na redação, mas acho que, na verdade, nunca o vi ali pessoalmente. Ele simplesmente deixava, na recepção do jornal, dia sim e outro também, um envelope com o texto datilografado. Às vezes, em envelopes minúsculos com uma folha dobrada milimetricamente dentro. O detalhe: além de não assinar os originais, nem mesmo o envelope vinha com remetente ou destinatário. Não era necessário: apenas a rubrica inconfundível bastava.

Durante alguns anos, fui o editor de “opinião” do jornal, responsável pela página 2. As cartinhas do dr. Altino vinham, portanto, direto pra mim. Era um orgulho me deliciar com os textos dele e poder publicá-los.

Até que… um belo dia, pra adequar a crônica dele ao espaço pré-definido, editei e cortei algumas palavras. A resposta veio rápida e fulminante, no mesmo dia da publicação: chega um envelopinho com a indefectível rubrica, mas dessa vez endereçado ao “editor de opinião”. Não me lembro do conteúdo, mas era uma bela de uma reprimenda, um puxão de orelha brabo. Com toda elegância e educação — outras características marcantes –, o dr. Altino acabou me dando uma aula de como não editar um texto. Me lembro, porém, de como se despediu de mim na cartinha, desejando-me “amplexos anfíbios”. Eu desconhecia aquela expressão metafórica e meio enigmática, mas logo entendi o que significava: gentleman que era, o dr. Altino me deu um tapa com luva de pelica. De certa maneira, me senti lisonjeado por ter sido repreendido com tanta elegância.

Valeu, Senhor São José!

:: Louca sanidade ::

ilusão.
ilusões.
desilusão.

antídoto
é a lucidez,
a sanidade?
ou será
a embriaguez,
a loucura
ingênua?

entre sábios
e filósofos,
poetas
e loucos,
ressoa
a pergunta
indecifrável.

a certeza,
ninguém
a tem.

a ambição
da resposta
perturba
corações
e mentes.

e o lusco-fusco
da ilusão
embaralha
a razão
e a emoção.

a sanidade
é louca.
fico com
a sã loucura.

entre o etílico
e o onírico
escuto-me.

:: Brumadinho ::

E eis que este ano o Alfarrábio completa a maioridade: 18 anos. É o meu baú particular, com um pouco de tudo, de peito aberto a quem interessar. Volta agora às atividades com um novo layout, mais uma vez de autoria da Rossana, que faz parte dessa história: ela sempre esteve presente e participou de vários momentos aqui no Alfa, e é a responsável por, além do visual, uma série de novas funcionalidades, que ainda tô descobrindo. Pra dar um gostinho retrô, dos primórdios da blogosfera brazuca, tem até *livro de visitas*:

Livro de Visitas

 

 

 

 

Pra essa reestreia, conto com a valiosa contribuição do caro copoanheiro Rai, direto lá da região da Serra da Canastra, nesse momento de choque diante de mais um crime ambiental e humano:

os morros de minas gerais
escalam azuis abissais
antes que tardios
libertam bençãos
aos mortos
estão em paz

os vales de minas gerais
velam pelos vivos
enlameados
na dor atroz
choram os
deuses
por todos nós

as lágrimas de minas gerais
inundam o mundo
lavram a ferro
a fundo

os mortos de minas gerais
sepultos estão
na lama
no coração

Fica aqui meu abraço fraterno e solidário às vítimas de Brumadinho, de Mariana. Aliás, o Michaelis explica, pelo menos em parte, a tragédia:

bru·ma·do
adj
Vbrumoso, acepção 1.
sm
1 REG (SP) Mato cerrado e baixo, com espinhos e cipós.
2 Terreno aurífero cujo produto não cobre as despesas de exploração.

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“O real não está no início nem no fim, ele se mostra pra gente é no meio da travessia…”

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