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:: Rosa Onipresente ::

*Quem sabe direito o que uma pessoa é? Antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado.*
*Eu sou é eu mesmo. Divirjo de todo o mundo…*
*Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.*

Se há algo que me dá aquela pontinha de orgulho (com toda humildade e com muitas dúvidas se realmente mereço) é ser visto, por muitos amigos e amigas, como uma espécie de *referência* quando o assunto é, nada mais nada menos, Guimarães Rosa.

Mas: *a coragem que não faltasse; para engulir, a pôlpa de buriti e carnes de rês brava*. Foi nessa culinária sertaneja que a caríssima Letícia Massula me *reencontrou*, depois de um bom par de anos (décadas?).

É, pra mim, uma honra sem tamanho, uma *homenagem* que, sinceramente, encaro como uma responsabilidade que, de certa forma, tomei pra mim mas não sei o quanto sou capaz de corresponder. *As coisas assim a gente não perde nem abarca. Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas.*

Mas daqui, da telinha do computador, e no meio do asfalto desse sertão urbano, a Letícia resgata os buritis das veredas pra me alegrar o dia. *Tudo, aliás, é a ponta de um mistério, inclusive os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo.*

Ou, ainda: *viver é etecetera*. *O real não está na saída nem na chegada. Ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.*

Só me resta agradecer, de coração, ao carinho e à lembrança da Letícia (e de tantos outros amigos e amigas). E saudar, sempre e mais e mais, o Mestre Guimarães Rosa, eterno nesse universo único que ele criou, mas que criou vida própria e se re-significa a todo momento, nas letras, nas bifurcações desses nossos (des)caminhos, nos redemunhos da vida — ou numa receita culinária.

*A vida também é para ser lida. Não literalmente, mas em seu supra-senso. E a gente por enquanto, só lê por linhas tortas.*

Ah! E, claro, a receita da Letícia tá lá na Cozinha da Matilde.

:: Rosa, em sons & imagens ::

Dias atrás, postei no feicebúqui o link pra um ensaio fotográfico do iauaretê Araquém Alcântara sobre o universo do sertão do Guimarães Rosa (reproduzo o post a seguir). A Mohini Su curtiu, eu comentei e, papo vem, papo vai, ela me diz que há tempos quer ler o *Sagarana* e me pergunta se eu tenho. É, sim, tenho *só* quatro edições… No dia seguinte, trouxe o livro pra ela — sob a promessa, cá registrada, de que era vai-e-volta. Sim, tenho uma ciumeira danada da minha *roseana*.

Dias depois, ela manda mensagem sugerindo uma trilha sonora pr’*A volta do marido pródigo*: Malandro é malandro, Mané é Mané. Indiquei, então, o CD Rosário, do querido Nhambuzim, dos queridos Sarah, Xavier e Edson. Aí, dia-sim-dia-não, ela comenta na sequência sobre o *Sarapalha*, depois *Minha Gente*… até chegar ao *São Marcos* — mais uma vez, sugerindo trilha sonora: *Não Mexe Comigo*, da Maria Bethânia, que eu não conhecia. Segue aí, ela diz tudo:

Carta de Amor
Maria Bethânia

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só
Não mexe não!

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só

Eu tenho Zumbi, Besouro, o chefe dos tupis
Sou Tupinambá, tenho os erês, caboclo boiadeiro
Mãos de cura, morubichabas, cocares, arco-íris
Zarabatanas, curare, flechas e altares

À velocidade da luz, no escuro da mata escura
O breu, o silêncio, a espera
Eu tenho Jesus, Maria e José
Todos os pajés em minha companhia
O menino Deus brinca e dorme nos meus sonhos
O poeta me contou

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só
Não mexe não!

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, eu não ando só

Não misturo, não me dobro
A rainha do mar anda de mãos dadas comigo
Me ensina o baile das ondas e canta, canta, canta pra mim
É do ouro de Oxum que é feita a armadura que guarda meu corpo
Garante meu sangue, minha garganta
O veneno do mal não acha passagem
E em meu coração, Maria acende sua luz e me aponta o caminho

Me sumo no vento, cavalgo no raio de Iansã
Giro o mundo, viro, reviro
Tô no recôncavo, tô em fez
Voo entre as estrelas, brinco de ser uma
Traço o cruzeiro do sul com a tocha da fogueira de João menino
Rezo com as três Marias, vou além
Me recolho no esplendor das nebulosas, descanso nos vales, montanhas
Durmo na forja de Ogum, mergulho no calor da lava dos vulcões
Corpo vivo de Xangô

Não ando no breu, nem ando na treva
Não ando no breu, nem ando na treva
É por onde eu vou que o santo me leva
É por onde eu vou que o santo me leva

Não ando no breu, nem ando na treva
Não ando no breu, nem ando na treva
É por onde eu vou que o santo me leva
É por onde eu vou que o santo me leva

Medo não me alcança
No deserto me acho, faço cobra morder o rabo, escorpião virar pirilampo
Meus pés recebem bálsamos, unguentos suaves das mãos de Maria
Irmã de Marta e Lázaro, no oásis de Bethânia
Pessoa que eu ando só, atente ao tempo
Não começa, nem termina, é nunca, é sempre
É tempo de reparar na balança de nobre cobre que o rei equilibra
Fulmina o injusto, deixa nua a justiça

Eu não provo do teu fel, eu não piso no teu chão
E pra onde você for, não leva o meu nome não
E pra onde você for, não leva o meu nome não

Eu não provo do teu fel, eu não piso no teu chão
E pra onde você for, não leva o meu nome não
E pra onde você for, não leva o meu nome não

Onde vai, valente?
Você secou, seus olhos insones secaram
Não veem brotar a relva que cresce livre e verde longe da tua cegueira
Seus ouvidos se fecharam a qualquer música, a qualquer som
Nem o bem, nem o mal pensam em ti, ninguém te escolhe

Você pisa na terra, mas não a sente, apenas pisa
Apenas vaga sobre o planeta, e já nem ouve as teclas do teu piano
Você está tão mirrado que nem o diabo te ambiciona, não tem alma
Você é o oco, do oco, do oco, do sem fim do mundo

O que é teu já tá guardado
Não sou eu quem vou lhe dar
Não sou eu quem vou lhe dar
Não sou eu quem vou lhe dar

O que é teu já tá guardado
Não sou eu quem vou lhe dar
Não sou eu quem vou lhe dar
Não sou eu quem vou lhe dar

Eu posso engolir você, só pra cuspir depois
Minha fome é matéria que você não alcança
Desde o leite do peito de minha mãe
Até o sem fim dos versos, versos, versos
Que brotam do poeta em toda poesia
Sob a luz da lua que deita na palma da inspiração de Caymmi

Se choro, quando choro, e minha lágrima cai
É pra regar o capim que alimenta a vida
Chorando eu refaço as nascentes que você secou
Se desejo, o meu desejo faz subir marés de sal e sortilégio
Vivo de cara pra o vento na chuva, e quero me molhar
O terço de Fátima e o cordão de Gandhi cruzam o meu peito
Sou como a haste fina, que qualquer brisa verga, mas nenhuma espada corta

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só
Não mexe não!

Não mexe comigo, que eu não ando só
Eu não ando só, que eu não ando só

E, pra completar, o post que originou tudo, direto do site do Luis Nassif:

Sertão sem fim pelas lentes de Araquém Alcântara
As vacas e os cavalos de Guimarães Rosa
Sertão sem fim

“Eu queria que o mundo fosse habitado apenas por vaqueiros. Então tudo andaria melhor.”

“… não se esqueça de meus cavalos e de minhas vacas. As vacas e os cavalos são seres maravilhosos. Minha casa é um museu de quadros de vacas e cavalos. Quem lida com eles aprende muito para sua vida e a vida dos outros.”

“Isto pode surpreendê-lo, mas sou meio vaqueiro, e como você também é algo parecido com isto, compreenderá certamente o que quero dizer. Quando alguém me narra algum acontecimento trágico, digo-lhe apenas isto: “Se olhares nos olhos de um cavalo, verás muito da tristeza do mundo!”

“… nós, os homens do sertão, somos fabulistas por natureza. Está no nosso sangue narrar estórias; já no berço recebemos esse dom para toda a vida.”

“Desde pequenos, estamos constantemente escutando as narrativas multicoloridas dos velhos, os contos e lendas, e também nos criamos em um mundo que às vezes pode se assemelhar a uma lenda cruel.”

“Deste modo a gente se habitua, e narra estórias que corre por nossas veias e penetra em nosso corpo, em nossa alma, porque o sertão é a alma de seus homens (…) Eu trazia sempre os ouvidos atentos, escutava todo o que podia e comecei a transformar em lenda o ambiente que me rodeava, porque este, em sua essência, era e continua sendo uma lenda.”

– João Guimarães Rosa, em entrevista a Günter Lorenz – “Diálogo com Guimarães Rosa”

:: Rosa ::

Há quase 12 anos cometi esse pretenso-pequeno-ensaio. Foi publicado originalmente na NovaE no dia 19 de maio de 2002, exatamente no aniversário de 50 anos do início da viagem que resultou no *Grande Sertão: Veredas*. Sei lá porque cargas d’água, vire-e-mexe preciso procurar e pesquisar e fuçar pra, enfim, achar o texto original. Fica aqui, portanto, republicado na íntegra.

Nasce uma Obra

“A gente estava em maio. Quero bem a esses maios, o sol bom, o frio de saúde, as flores no campo, os finos ventos maiozinhos. (…) Ali, a gente não vê o virar das horas. E a fogo-apagou sempre cantava, sempre.”

Da Sirga à fazenda São Francisco, passando pela Tolda, Pindóia, Santa Catarina, Andrequicé, Vereda do Catatau, Meleiro, Cordisburgo. Para Manuelzão, Zito, Santana, Bindóia, Gregório, Sebastião de Morais, Aquiles, Sebastião de Jesus, o trajeto de 40 léguas, ou cerca de 240 quilômetros, já era bem conhecido. Para o auto-intitulado “vaqueiro-amador”, tocar as 600 cabeças de gado de uma fazenda a outra, num percurso de dez dias, a viagem serviu de matéria-prima para uma obra que instiga pesquisadores, confunde leitores não-iniciados, desafia tradutores.

Acompanhando a boiada, atento a cada detalhe da fauna e flora do norte das Minas Gerais, sem deixar passar nenhum causo, piada, aventura, cantoria dos vaqueiros, o médico-diplomata João Guimarães Rosa mantinha presa a um cordão, no pescoço, uma cadernetinha. Os registros da viagem incluem, também, as impressões do escritor, como as frases que abrem este artigo.

Era maio, dia 19 de maio de 1952. Há 56 anos começava a viagem que resultou em “Grande Sertão: Veredas”. Nonada, o neologismo hermético que inicia a fala de Riobaldo Tatarana ao baldear o “Gaiola” rumo ao norte, rumo ao “desejo de Deus”, Diadorim, entraria de vez para o léxico português.

“Tenho de segredar que – embora por formação ou índole oponha escrúpulo crítico a fenômenos paranormais e em princípio rechace a experimentação metapsíquica – minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos. Sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda sorte de avisos e pressentimentos. No plano da arte e da criação – já de si em boa parte subliminar ou supraconsciente, entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase à reza – decerto se propõe mais essas manifestações. (…) Quanto ao Grande Sertão: Veredas, forte coisa e comprida demais seria fazer crer como foi ditado, sustentado e protegido – por forças ou correntes muito estranhas”, diria Rosa, em “Tutaméia”, sobre como a obra se fez, ou foi feita.

Presença frequente nas maiores antologias literárias, “Grande Sertão: Veredas” teve mais um reconhecimento recente. O jornal inglês “The Guardian” convocou cem escritores de todo o planeta para elegerem as cem maiores obras literárias da humanidade. O único representante brasileiro: “Grande Sertão: Veredas”. Vale lembrar que Rosa e Machado de Assis disputam o título de maior escritor brasileiro. Coincidência ou não, Rosa nasceu exatamente no ano em que Machado morreu, 1908. Seria um dando continuidade à obra do outro?

O João Rosa, como o chamavam os vaqueiros, fez apenas uma exigência durante a viagem: que ninguém o chamasse de “doutor”. Montando a mula Balalaika ou o burro Canário, o médico e diplomata, àquela altura já consagrado por “Sagarana” e então chefe de gabinete do ministro João Neves da Fontoura, quis apenas resgatar suas próprias origens, viver ao relento, começar o dia com um gole de cachaça e um punhado de feijão tropeiro (“Dormidas: 1ª noite: tapera de paiol. 2ª noite: garage de caminhão. 3ª noite: uma rebaixa de engenho”, registrou Rosa em sua caderneta).

E percorrer as veredas, apreciar o pôr-do-sol moldado pelos buritis, saborear a sabedoria nata daqueles homens e reses tão brutos quanto sensíveis. “Isso porque a vida de vaqueiro é bebida, briga e rapariga, e a alegria de pobre é um dia só: é uma libra de carne e um mocotó”, resume Bindóia (ou Raimundo Ferreira do Nascimento) no livro “Nas Trilhas do Rosa”, de Fernando Granato. Bindóia, o campeiro da expedição, chamou a atenção de Rosa por um detalhe: sempre descalço, mantinha uma espora amarrada ao calcanhar.

A exemplo de Bindóia, outros vaqueiros da expedição acabaram imortalizados como personagens de Rosa. O mais famoso deles: Manuel Nardi, o Manoelzão, o caboclo de 1,90 metro de altura que protagonizaria “Corpo de Baile”, ou “Manuelzão e Miguilim”. E não apenas as personagens, mas boa parte das cenas narradas por Rosa, são mais do que verídicas. A inauguração da capela construída por Manuelzão em homenagem à mãe, com direito a festa e participação de todos os moradores da redondeza, é fato. Restam hoje apenas as estruturas de madeira da velha capelinha, na entrada da fazenda da Sirga, que se chamaria “Samarra” no conto “Uma Estória de Amor”.

Personagem de si-mesmo, Rosa fez daquela viagem o reencontro de sua meninice em Cordisburgo, “quase só lugar.” “É uma região de muito isso”, diria Rosa em seu discurso de posse na Academia, exatos três dias antes de falecer, em novembro de 67. Hoje, a casa em que Rosa nasceu é sede da Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa. Entre objetos pessoais e fotos, no grande cômodo da frente está caracterizada a antiga “venda” do sr. Florduardo, ou melhor, “seu” Fulô, pai do JGR. (Parênteses: outubro de 99, estive lá. Deixei meu registro na página 55 do livro de presenças.)

Na venda de seu Fulô, Rosa teve os primeiros contatos com vaqueiros. O comércio, em frente à estação ferroviária Central, era ponto de parada dos cavaleiros. A mesma estação, hoje praticamente desativada, que, com um pouco de imaginação, pode-se “ver” o conto “Sorôco, sua Mãe, sua Filha”. Entre um gole e outro de cachaça, os causos dos viajantes começavam a formar o universo literário de Rosa, depois revivido na viagem de 52, da fazenda da Sirga ao pasto do Capão do Defunto.

Ascese literária

Da via-crucis das baldeações de Riobaldo pelo “Gaiola” à busca metafísico-existencial da Terceira Margem do Rio; da aquiescência do mundo sob a ótica do Burrinho Pedrês à purificação penitenciosa de Augusto Matraga; do non-sense sentimental do Cavalo que Bebia Cerveja à audição surda mas onipresente das orações de um sapo por parte de Maria Euzinha.

As letras como instrumento da ascese místico-medieval de Santo Tomás e Ruisbröeck; os desejos de Deus –Diadorim– ao encontro do Fausto. A narrativa fluida mas consistente como as de um rio, “que é sempre igual sem ser o mesmo”. A dureza de homens que choram e se submetem à noite da encruzilhada. Mitos junguianos revistados emoldurados pela dignidade simples –legítima!– das durezas das lágrimas, buritis, São Francisco, chuva. Águas sempre presentes na estiagem do sertão. O sim pelo não.

O mundo concentrado num cenário infinito -“o sertão é do tamanho do mundo”. Personagens que de tão normais ganham dimensões épicas incomensuráveis. Tempo legitimamente concentrado em instantes que remetem a histórias imemoriais. Tudo costurado por linhas mestras de uma linguagem única, reconstrutora de sintaxes indiferente ao pensamento cartesiano-ocidental, subvertendo lógicas à zen budismo. “Tens panos para remendos? Sim, mas de que cor são os buracos?”

Páginas herméticas acessíveis a não-iniciados; disposição de espírito, entrega de alma. “Quem tem medo de viver não nasce…”

Rosa não se furtou ao destino, e selou-o com a presença legítima em quaisquer das antologias mundiais que se prezem. O que, no entanto, tornou-se problema para os bibliotecários: onde classificá-lo? Filologia? Filosofia? Sociologia? Literatura…

Ironia do destino fazer essa confusão com os homens dos livros. Borges, quem sabe, na sua cegueira, pudesse entrever essa classificação. Ambos cosmopolitas ao extremo, marcando a literatura por detalhes locais; o Grande Sertão ou a Recoleta. Fantástica viagem pelos labirintos do ser-tão veredas.

Os óculos de Miguilim embaçaram-se. A capela de Manuelzão ganhou seu santo definitivo. Tresaventuras…

Rosa humanista

Diplomata, servindo em vários países, João Guimarães Rosa teve uma faceta particular revelada apenas há alguns anos. Em 1938, Rosa é nomeado cônsul adjunto em Hamburgo, e segue para a Europa; lá fica conhecendo Aracy Moebius de Carvalho (Ara), que viria a ser sua segunda mulher. Durante a guerra, por várias vezes escapou da morte; ao voltar para casa, uma noite, só encontrou escombros. Ademais, embora consciente dos perigos que enfrentava, protegeu e facilitou a fuga de judeus perseguidos pelo nazismo; nessa empresa, contou com a ajuda da mulher, D. Aracy.

Em reconhecimento a essa atitude, o diplomata e sua mulher foram homenageados em Israel, em abril de 1985, com a mais alta distinção que os judeus prestam a estrangeiros: o nome do casal foi dado a um bosque que fica ao longo das encostas que dão acesso a Jerusalém. A concessão da homenagem foi precedida por pesquisas rigorosas com tomada de depoimentos dos mais distantes cantos do mundo onde existem sobreviventes do Holocausto. Foi a forma encontrada pelo governo israelense para expressar sua gratidão àqueles que se arriscaram para salvar judeus perseguidos pelo nazismo.

Rosa, na condição de cônsul adjunto, facilitava vistos aos judeus em fuga para o Brasil. Os vistos eram proibidos pelo governo brasileiro e pelas autoridades nazistas, exceto quando o passaporte mencionava que o portador era católico. Sabendo disso, a mulher do escritor, D. Aracy, que preparava todos os papéis, conseguia que os passaportes fossem confeccionados sem mencionar a religião do portador e sem a estrela de Davi que os nazistas pregavam nos documentos para identificar os judeus. Nos arquivos do Museu do Holocausto, em Israel, existe um grosso volume de depoimentos de pessoas que afirmam dever a vida ao casal Guimarães Rosa.

O escritor, que fez o que fez, sempre se furtou a comentar o assunto. Ele apenas fez o que devia.

:: rosa, 104 ::

Salve, Mestre! Guimarães Rosa, 104 anos.
* Cordisburgo, 27 de junho de 1908
+ Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1967

Só pra registrar, uma pequena-pretensa homenagem que rascunhei há alguns anos:

:: Rosa Encantado ::

Sim: *as pessoas não morrem, ficam encantadas.*
Neste 19 de novembro, há 43 anos, Guimarães Rosa ficava encantado, ou encantava-se.
Ave, palavra! Ave, Rosa!

Um chamado João

Carlos Drummond de Andrade

Publicado no jornal Correio da Manhã, de 22.11.1967, e reproduzido em: Em Memória de João Guimarães Rosa. Rio de Janeiro, José Olympio, 1968.

João era fabulista
fabuloso
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?

“Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender? “

Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?

Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?

João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso
cada qual em sua cor de água
sem misturar, sem conflitar?

E de cada gota redigia
nome, curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?

Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precípites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?

Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?

Tinha parte com… (sei lá
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?
Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.

:: Rosa, 100 ::

*Vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada.* As pessoas não morrem, ficam encantadas, diria o próprio Rosa. Pois bem, 2008 marca duas efemérides (sempre quis escrever essa palavra…) daquelas: hoje, o gênio Guimarães Rosa faria 100 anos e, em setembro, completam-se 100 anos da morte de Machado de Assis. Discussão besta, a meu ver, foi lançada pelo caderno Mais! do último domingo: qual dos dois é o melhor? Não há *o* melhor. Machado é mais formal; Rosa é lúdico. *Cada um com seu cada qual*, como diria o copoanheiro Ivan. Mas, é claro, este alfarrabista não esconde sua preferência, e até já cometeu alguns abusos em homenagem ao mestre. E, por iniciativa de outro copoanheiro, tá criado o blog Copoanheiros, nome inspirado em… Guimarães Rosa. Ah!, não sabe o porquê da inspiração? Então leia Nós, os Temulentos.

Pra completar, nada melhor do que comemorar a data com o imperdível (mas que eu acho que vou perder…) lançamento do CD do Nhambuzim, com direito à bela Sarah e à trupe do Xavier, Edson & Cia. Taí a dica.

:: Rosa: Nasce uma Obra ::

Há alguns anos, tive a pretensão de rascunhar um pequeno ensaio sobre o Grande Sertão: Veredas e Guimarães Rosa. O camarada Maneco publicou na Novae, mas numa troca de servidores, ou outro probleminha qualquer, o texto acabou se perdendo. Fuçando cá nas minhas catacumbas, achei o original. A quem interessar, táqui:

Nasce uma Obra

“A gente estava em maio. Quero bem a esses maios, o sol bom, o frio de saúde, as flores no campo, os finos ventos maiozinhos. (…) Ali, a gente não vê o virar das horas. E a fogo-apagou sempre cantava, sempre.”
Da Sirga à fazenda São Francisco, passando pela Tolda, Pindóia, Santa Catarina, Andrequicé, Vereda do Catatau, Meleiro, Cordisburgo. Para Manuelzão, Zito, Santana, Bindóia, Gregório, Sebastião de Morais, Aquiles, Sebastião de Jesus, o trajeto de 40 léguas, ou cerca de 240 quilômetros, já era bem conhecido. Para o auto-intitulado “vaqueiro-amador”, tocar as 600 cabeças de gado de uma fazenda a outra, num percurso de dez dias, a viagem serviu de matéria-prima para uma obra que instiga pesquisadores, confunde leitores não-iniciados, desafia tradutores.

Acompanhando a boiada, atento a cada detalhe da fauna e flora do norte das Minas Gerais, sem deixar passar nenhum causo, piada, aventura, cantoria dos vaqueiros, o médico-diplomata João Guimarães Rosa mantinha presa a um cordão, no pescoço, uma cadernetinha. Os registros da viagem incluem, também, as impressões do escritor, como as frases que abrem este artigo.

Era maio, dia 19 de maio de 1952. Quatro anos depois, há exatos 50 anos, nascia o resultado da viagem: “Grande Sertão: Veredas”. Nonada, o neologismo hermético que inicia a fala de Riobaldo Tatarana ao baldear o “Gaiola” rumo ao norte, rumo ao “desejo de Deus”, Diadorim, entraria de vez para o léxico português.

“Tenho de segredar que — embora por formação ou índole oponha escrúpulo crítico a fenômenos paranormais e em princípio rechace a experimentação metapsíquica — minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos. Sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda sorte de avisos e pressentimentos. No plano da arte e da criação — já de si em boa parte subliminar ou supraconsciente, entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase à reza — decerto se propõe mais essas manifestações. (…) Quanto ao Grande Sertão: Veredas, forte coisa e comprida demais seria fazer crer como foi ditado, sustentado e protegido — por forças ou correntes muito estranhas”, diria Rosa, em “Tutaméia”, sobre como a obra se fez, ou foi feita.

Presença frequente nas maiores antologias literárias, “Grande Sertão: Veredas” teve mais um reconhecimento. O jornal inglês “The Guardian” convocou cem escritores de todo o planeta para elegerem as cem maiores obras literárias da humanidade. O único representante brasileiro: “Grande Sertão: Veredas”. Vale lembrar que Rosa e Machado de Assis disputam o título de maior escritor brasileiro. Coincidência ou não, Rosa nasceu exatamente no ano em que Machado morreu, 1908. Seria um dando continuidade à obra do outro?

O João Rosa, como o chamavam os vaqueiros, fez apenas uma exigência durante a viagem: que ninguém o chamasse de “doutor”. Montando a mula Balalaika ou o burro Canário, o médico e diplomata, àquela altura já consagrado por “Sagarana” e então chefe de gabinete do ministro João Neves da Fontoura, quis apenas resgatar suas próprias origens, viver ao relento, começar o dia com um gole de cachaça e um punhado de feijão tropeiro (“Dormidas: 1ª noite: tapera de paiol. 2ª noite: garage de caminhão. 3ª noite: uma rebaixa de engenho”, registrou Rosa em sua caderneta).

E percorrer as veredas, apreciar o pôr-do-sol moldado pelos buritis, saborear a sabedoria nata daqueles homens e reses tão brutos quanto sensíveis. “Isso porque a vida de vaqueiro é bebida, briga e rapariga, e a alegria de pobre é um dia só: é uma libra de carne e um mocotó”, resume Bindóia (ou Raimundo Ferreira do Nascimento) no livro “Nas Trilhas do Rosa”, de Fernando Granato. Bindóia, o campeiro da expedição, chamou a atenção de Rosa por um detalhe: sempre descalço, mantinha uma espora amarrada ao calcanhar.

A exemplo de Bindóia, outros vaqueiros da expedição acabaram imortalizados como personagens de Rosa. O mais famoso deles: Manuel Nardi, o Manoelzão, o caboclo de 1,90 metro de altura que protagonizaria “Corpo de Baile”, ou “Manuelzão e Miguilim”. E não apenas as personagens, mas boa parte das cenas narradas por Rosa, são mais do que verídicas. A inauguração da capela construída por Manuelzão em homenagem à mãe, com direito a festa e participação de todos os moradores da redondeza, é fato. Restam hoje apenas as estruturas de madeira da velha capelinha, na entrada da fazenda da Sirga, que se chamaria “Samarra” no conto “Uma Estória de Amor”.

Personagem de si-mesmo, Rosa fez daquela viagem o reencontro de sua meninice em Cordisburgo, “quase só lugar”. “É uma região de muito isso”, diria Rosa em seu discurso de posse na Academia, exatos três dias antes de falecer, em novembro de 67. Hoje, a casa em que Rosa nasceu é sede da Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa. Entre objetos pessoais e fotos, no grande cômodo da frente está caracterizada a antiga “venda” do sr. Florduardo, ou melhor, “seu” Fulô, pai do JGR. (Parênteses: outubro de 99, estive lá. Deixei meu registro na página 55 do livro de presenças.)

Na venda de seu Fulô, Rosa teve os primeiros contatos com vaqueiros. O comércio, em frente à estação ferroviária Central, era ponto de parada dos cavaleiros. A mesma estação, hoje praticamente desativada, que, com um pouco de imaginação, pode-se “ver” o conto “Sorôco, sua Mãe, sua Filha”. Entre um gole e outro de cachaça, os causos dos viajantes começavam a formar o universo literário de Rosa, depois revivido na viagem de 52, da fazenda da Sirga ao pasto do Capão do Defunto.

= = =

Ascese Literária

Da via-crucis das baldeações de Riobaldo pelo “Gaiola” à busca metafísico-existencial da Terceira Margem do Rio; da aquiescência do mundo sob a ótica do Burrinho Pedrês à purificação penitenciosa de Augusto Matraga; do non-sense sentimental do Cavalo que Bebia Cerveja à audição surda mas onipresente das orações de um sapo por parte de Maria Euzinha.

As letras como instrumento da ascese místico-medieval de Santo Tomás e Ruisbröeck; dos desejos de Deus -– Diadorim — ao encontro do Fausto. A narrativa fluida mas consistente como as de um rio, “que é sempre igual sem ser o mesmo”. A dureza de homens que choram e se submetem à noite da encruzilhada. Mitos junguianos revisitados emoldurados pela dignidade simples -– legítima! — das durezas das lágrimas, buritis, São Francisco, chuva. Águas sempre presentes na estiagem do sertão. O sim pelo não.

O mundo concentrado num cenário infinito — “o sertão é do tamanho do mundo”. Personagens que de tão normais ganham dimensões épicas incomensuráveis. Tempo legitimamente concentrado em instantes que remetem a histórias imemoriais. Tudo costurado por linhas mestras de uma linguagem única, reconstrutora de sintaxes indiferente ao pensamento cartesiano-ocidental, subvertendo lógicas à zen budismo. “Tens panos para remendos? Sim, mas de que cor são os buracos?”

Páginas herméticas acessíveis a não-iniciados; disposição de espírito, entrega de alma. “Quem tem medo de viver não nasce…”

Rosa não se furtou ao destino, e selou-o com a presença legítima em quaisquer das antologias mundiais que se prezem. O que, no entanto, tornou-se problema para os bibliotecários: onde classificá-lo? Filologia? Filosofia? Sociologia? Literatura…
Ironia do destino fazer essa confusão com os homens dos livros. Borges, quem sabe, na sua cegueira, pudesse entrever essa classificação. Ambos cosmopolitas ao extremo, marcando a literatura por detalhes locais; o Grande Sertão ou a Recoleta. Fantástica viagem pelos labirintos do ser-tão veredas.
Os óculos de Miguilim embaçaram-se. A capela de Manuelzão ganhou seu santo definitivo. Tresaventuras…

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Rosa humanista

Diplomata, servindo em vários países, João Guimarães Rosa teve uma faceta particular revelada apenas há alguns anos. Em 1938, Rosa é nomeado cônsul adjunto em Hamburgo, e segue para a Europa; lá fica conhecendo Aracy Moebius de Carvalho (Ara), que viria a ser sua segunda mulher. Durante a guerra, por várias vezes escapou da morte; ao voltar para casa, uma noite, só encontrou escombros. Ademais, embora consciente dos perigos que enfrentava, protegeu e facilitou a fuga de judeus perseguidos pelo nazismo; nessa empresa, contou com a ajuda da mulher, D. Aracy.

Em reconhecimento a essa atitude, o diplomata e sua mulher foram homenageados em Israel, em abril de 1985, com a mais alta distinção que os judeus prestam a estrangeiros: o nome do casal foi dado a um bosque que fica ao longo das encostas que dão acesso a Jerusalém. A concessão da homenagem foi precedida por pesquisas rigorosas com tomada de depoimentos dos mais distantes cantos do mundo onde existem sobreviventes do Holocausto. Foi a forma encontrada pelo governo israelense para expressar sua gratidão àqueles que se arriscaram para salvar judeus perseguidos pelo nazismo.

Rosa, na condição de cônsul adjunto, facilitava vistos aos judeus em fuga para o Brasil. Os vistos eram proibidos pelo governo brasileiro e pelas autoridades nazistas, exceto quando o passaporte mencionava que o portador era católico. Sabendo disso, a mulher do escritor, D. Aracy, que preparava todos os papéis, conseguia que os passaportes fossem confeccionados sem mencionar a religião do portador e sem a Estrela de Davi que os nazistas pregavam nos documentos para identificar os judeus. Nos arquivos do Museu do Holocausto, em Israel, existe um grosso volume de depoimentos de pessoas que afirmam dever a vida ao casal Guimarães Rosa.

O escritor, que fez o que fez, sempre se furtou a comentar o assunto. Ele apenas fez o que devia.

:: Rosa, 99 ::

João Guimarães Rosa faria hoje, 27 de junho, 99 anos se estivesse vivo. Médico, diplomata e escritor, o mestre mesmo diria que *não morreu, ficou encantado*. E, pra encanto nosso, sua obra permanece aí, vivíssima. Autodidata: começou ainda criança a estudar diversos idiomas, começando pelo francês quando ainda não tinha sete anos. Abaixo, trecho de uma entrevista concedida por ele à sua prima, anos mais tarde:

Falo português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo. Leio sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado). Entendo alguns dialetos alemães. Estudei a gramática do húngaro, árabe, sânscrito, lituano, polonês, tupi, hebraico, japonês, checo, finlandês, dinamarquês. Bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. Estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração.

Mais na biografia do mestre.

Tudo o que o Alfarrábio já publicou sobre o Rosa.

:: Rosa (Quase) Livre ::

Tenho certeza absoluta de que o Rosa desaprovaria a atitude da família, de não liberar suas obras. Mas, pelo menos em parte, alguma coisa já está sendo feita. Tá na coluna da Mônica Bergamo, na Ilustrada de hoje:

Famigerado
No ano em que o livro “Grande Sertão: Veredas”, obra mais famosa de Guimarães Rosa, completa 50 anos, os herdeiros do escritor vão permitir o download do livro de graça na internet. Os internautas poderão baixar a íntegra da obra no site da editora Nova Fronteira e no do Ministério da Cultura. O anúncio foi feito por Eduardo Tess, neto da segunda mulher do escritor, no Inverno Cultural de São João del Rei (MG).

Terceira Margem
E o restante da obra do escritor? “Tenho vontade de fazer o mesmo com “Sagarana”. Mas o único livro sobre o qual tenho direito integral é “Grande Sertão”. Dos outros, tenho apenas um terço. E o restante da família não gosta muito da idéia”, diz Tess.

:: Rosa MetaRecicleiro ::

Galera discutindo na lista sobre o significado da palavra MetaReciclagem. É tudo, e não se chega a um consenso. Mas eis que o Guimarães Rosa vem me ajudar. O diálogo dos vaqueiros em *Cara-de-Bronze*, conto do livro No Urubuquaquá, no Pinhém, bem que pode ser uma definição da MetaReciclagem:

O vaqueiro Noró: Que relembra os formatos do orvalho… E bonitas desordens, que dão alegria sem razão e tristezas sem necessidade.
O vaqueiro Abel: Não-entender, não-entender, até se virar menino.
O vaqueiro José Uéua: Jogar nos ares um montão de palavras, moedal.
O vaqueiro Mainarte: Era só uma claridade diversa diferente…
O vaqueiro Cicica: Dislas. E aquilo dava influição. Como que ele queria era botar a gente toda endoidecendo festinho…
O vaqueiro Parão: Tudo no quilombo do Faz-de-Conta…
O vaqueiro Pedro Franciano: Eu acho que ele queria era ficar sabendo o tudo e o miúdo.
O vaqueiro Tadeu: Não, gente, minha gente: que não era o-tudo-e-o-miúdo…
O vaqueiro Pedro Franciano: Pois então?
O vaqueiro Tadeu: …Queria era que se achasse para ele o quem das coisas!

[Copiei ipsis literis, com os respectivos negritos, da edição da Nova Fronteira, págs. 107 e 108.]

Atualização: No Urubuquaquá, no Pinhém era um dos poucos livros do Rosa que eu ainda não havia lido. Passando num sebo, há umas duas semanas, dei de cara com ele. Foram os R$ 20 mais bem gastos dos últimos tempos (e paguei a metade do preço das livrarias) — Recado do Morro é simplesmente antológico.