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Idos dos anos 80 do século (milênio!) passado: inventei de fazer um colégio técnico. De eletrônica. Desnecessário dizer que, depois de incontáveis choques nas aulas práticas e de ser reprovado um ano (ah, as matérias técnicas), me convenci de que não era minha praia.
Não me arrependo; foi bacana. Ficaram na cachola a lei de Ohm e alguns princípios básicos, além de boas lembranças. Dos colegas, muita gente boa de que não tenho notícias há tempos.
Tinha um que era um figuraça, o Corintiano. Não me perguntem o nome do sujeito. Humilde de tudo, pobrinho mesmo, de marré dessi, desengonçado e torto, “mal diagramado”, como diria o Xico Sá. Sempre de bom humor, inabalável, contava com a nossa solidariedade pra um salgado ou um pão na chapa da cantina.
Nessa época, meu pai comprou uma bicicleta, uma Caloi Barraforte. Pesadona, sem marchas, era pra se exercitar mesmo. E eu acabei usando a dita cuja pra ir pro colégio.
Aticei os desejos do Corintiano: ele namorava a bicicleta, novinha, dourada, pedia pra dar uma volta, se esbaldava por instantes com aquele objeto do desejo impossível, inatingível, pra ele.
Vai que um dia me sensibilizei com aquele namoro. E dei a bicicleta pra ele. Simbolicamente, “cobrei” algo como uns 15 ou 20 reais, em moeda de hoje. Só pra não dizer que foi de graça.
Volto pra casa sem a bicicleta, e digo pro meu pai que fora roubada. Ele me repreende pela falta de cuidado e atenção mas, paciência, já era.
Acho que nunca contei a verdade pro meu pai. Mas tenho a convicção de que ele aceitaria meu gesto — talvez até me desse uma dura pelos 20 reais.