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[sobre o contexto, digo mais lá no final]

Então: ah, eu tinha que me virar, né? Diarista aqui, outro bico ali, era sempre aquele perrengue. E nem sempre dava pra garantir nem o ranguinho básico. Assim, dureza mesmo… Mas, peraí, já tá gravando? Para, para, vamos começar de novo!


Ai, que bom receber vocês aqui em casa. Então: me desculpem, a faxineira é que atrasou um pouco, vocês sabem como é essa gente: acham que nós temos todo o tempo do mundo. E eu mal consegui falar com a gerente da minha lanchonete. Sabe, hoje eu estou fornecendo em média umas 200 quentinhas por dia (é *quentinha gourmet*; gostei da dica do meu sobrinho que estuda publicidade), é difícil administrar isso. Funcionário, então, é um horror! Ai! Assim, dos três que eu tenho, toda semana tem um com atestado médico, ou o filho doente, ou uma tia que morreu… Tem que ser dura — eu não gosto, mas esse pessoal tá muito mal acostumado, só quer saber de direitos. E, olhe, tenho que estar gastando hor-ro-res cada vez que um funcionário meu sai pra algum outro empreguinho melhor ou pra estudar. Você acredita que agora até Fundo de Garantia eu tenho que estar recolhendo pra empregada lá de casa? Já não bastava o INSS?

Ai, mas não é disso que vocês vieram falar, né? Então, hoje sou uma microempresária, eu que-me-fiz, batalhei muito pra chegar aqui. Como? Ah, sim, eu fui atrás e consegui um microempréstimo pra começar minha lanchonete, mas, então, nem gosto de estar lembrando: era um balcão lá no bairro, tinha que atender uns nóia de madrugada, vender fiado… Mas, deixe isso pra lá – ai!, se puder apagar essa parte, fica melhor, né?

Tem uma coisa: eu sempre estudei, e nunca faltava na escola. Por isso, minha mãe sempre recebeu o Bolsa-Família, até que eu consegui montar meu negócio e a gente não precisar mais “daquilo”. Então: tenho orgulho de dizer, foi por mérito meu que consegui uma bolsa no ProUni e tô terminando o curso de administração de empresas. Tem colega que até olha torto, mas eu sou uma microempresária, e de sucesso! Sei administrar direitinho as contas da lanchonete, e tenho até uma gerente registrada — os outros dois são freelancers, que é uma forma de eu estar incentivando a iniciativa própria, né? Simples assim! (Gosto de falar *simples assim!* – me sinto como se desse um xeque-mate, acaba a conversa na hora.)

Ah, o começo? Então: é, foi depois que a gente se mudou aqui pro condomínio, porque minha mãe insistiu pra gente entrar no Minha Casa Minha Vida. Assim: lá, antes, onde a gente morava, nem dava pra estar pensando em negócio nenhum… Mas isso é detalhe: minha mãe e eu conquistamos, por direito, a Nossa Casa Nossa Vida. É, ela tem a dela e eu, a minha.

Mas, então: eu me fiz! Consegui mais três microempréstimos, porque sempre paguei em dia. Mas tem mais: olhe só a minha casa, toda mobiliada (a TV de 42 polegadas e vários móveis eu sei administrar os carnês, mas tem até aquela banqueta que comprei na Tok&Stok – ai, lá tem umas coisas tão assim, né?, que até uns anos atrás eu nem pensava em entrar naquela loja). Meu carro? Então: dois anos atrás eu comprei o primeiro, um “Mil”, mas agora tô com um zero quilômetro, com ar condicionado e vidro elétrico, peguei na concessionária na semana passada – financiei em cinco anos, mas ano que vem quero estar trocando de novo por outro zero. Sabe como é, né? A gente tem que manter o patrimônio que conquistou (essa foi uma das principais lições que aprendi na faculdade de administração – ai, peraí, meu iPhone tá tocando. É a chata da Lurdinha, depois ligo pra ela…) Ai, querida, aceita mais um cafezinho? Essa cafeteira é tudo de bom, você escolhe o tipo de café, mais forte ou mais fraco (esse sachezinho marrom é o meu preferido) – fique à vontade, viu?

Mas, então: no final do ano passado eu consegui estar realizando outro sonho, e fui conhecer Buenos Aires. De avião, claro! Assim: eu até que me enrolei um pouco com a língua deles – castelhano, né? –, mas foi engraçado. Eu só troquei uma parte do dinheiro que levei, até porque os argentinos gostam mesmo é de reais – dava gosto ver os olhinhos deles brilhando quando eu pagava o café da tarde com nota de R$ 50. Esse ano? Então: agora que eu já viajei “pra fora”, posso estar me dando o luxo de conhecer o Brasil. E tudo de avião, né? Imagine se, como minhas tias antigamente eu fosse de ônibus lá pra terrinha, com farofa na lata de leite ninho… Então, já pesquisei na internet e tô fechando um pacote pro Nordeste – dizem que é tudo de bom lá, né? Até o povo, apesar de tudo, dizem que é simpático. Mas carne de bode, buchada de bode, isso eu não vou experimentar não, apesar de o meu avô, que veio de lá, sempre dizer que tinha saudade dessas coisas…

Ai, olha o iPhone tocando de novo, só um minutinho. (Lurdinha, eu tô dando uma entrevista, te encontro no salão da Martinha às 5 da tarde, tá bom? Tchau, querida!) Assim, né? A Lurdinha ainda não tá acostumada com o salão que a Martinha montou, antes a gente fazia as unhas todas juntas, aqui na garagem de casa mesmo (quando nem tinha piso e nem cobertura). Era assim, mais divertido, mas agora a gente aprendeu a ter mais classe, né? Mas, olha, é difícil pra Martinha, viu? Ela já contratou umas três ou quatro meninas que não param no salão – cada hora é uma que consegue um emprego melhorzinho ou então prefere estar investindo nos estudos. Tem uma, até, que foi pra São Paulo estudar na USP – geografia, vê se pode? Pra que que ela quer estar estudando isso? E, assim, essa aí já falou até que pensa em estudar no exterior – como é o nome mesmo? Ciência sem Fronteiras, né?

Então, ó, eu fico pensando: onde é que a gente vai parar? Mas, ãh? Em quem vou votar? Então, ainda não sei, sabe? Até porque político é tudo igual — cê viu a *Veja* dessa semana? É, eu sou assinante da Veja, leio tudinho. Mas, então: ninguém nunca faz nada pela gente mesmo. A gente, que é “mêide-bái-a-gente-mesmo”, fica nessa encruzilhada…

Obs.: rascunhei isso ainda antes do primeiro turno. Relutei em publicar: ainda que não mude um vírgula, achei que ficou com um gosto um pouco ácido e, mesmo com a ironia evidente, talvez pudesse ser mal-interpretado. E, obviamente, porque se trata de uma crítica a uma pequena parcela da população – poderia seguir o mesmíssimo roteirinho e retratar não um *ex-pobre*, mas um legítimo representante da *nova classe média*, reconhecedor das políticas públicas adotadas nos últimos anos.

Mas o tom amargo se deveu por eu ter presenciado dois ou três relatos de, sim, *ex-pobres*, aqueles que nunca deixarão de sê-lo pela ingratidão de não verem o que foi proporcionado pra que deixassem uma condição de penúria. Eles negam o próprio protagonismo (isso é papo de petista), e eufemisticamente (ou melhor, ilusoriamente) adotam o discurso reaça-neoliberal de autossuficiência, da meritocracia, do *self-made-man*.

Ah, sim! Tem uns pitacos valiosos do copoanheiro Adauto aí — a culpa não é só minha, não.