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Aniversário de São Paulo é regra: acumulam-se os clichês sobre a cidade que não pára e que é o motor do país e que é a metrópole de todas as etnias etc. etc. Mas, por pura coincidência, poucos dias antes do aniversário de 455 anos dei de cara com um livrinho que comprei sem pestanejar: *Meu Velho Centro – Histórias do Coração de São Paulo*. O impulso, se é que podemos dizer assim, se deu por causa do autor, o professor Heródoto Barbeiro – antes mesmo de ler a orelha ou a contracapa, já imaginei o que este ótimo contador de causos poderia aprontar em cima de um tema desses.

Confesso que me surpreendi, no bom sentido. Ler o livrinho é viajar, literalmente, por uma São Paulo praticamente inimaginável nos dias de hoje. A prosa do Heródoto – *prosa* no sentido de *proseio* mesmo – é deliciosa, informal, sem apelar pro saudosismo.

Fico sabendo que o Heródoto, antes de ser jornalista, formado em Direito e mestre em História, foi office-boy, mecânico, borracheiro e professor de inglês. É desse tempo de office-boy, principalmente, que o Heródoto resgata episódios antológicos – antológicos até mesmo por serem comuns, de um cotidiano em que um office-boy percorria repartições públicas, cartórios e sei-lá-mais-o-quê a pé. O Heródoto mostra que conhece cada palmo do Centro Velho da capital, cenários de vida intensa que hoje passam despercebidos pelo correcorre paulistano.
Resigno-me a deixar a dica aqui no Alfarrábio — escrever mais sobre o livrinho (esse diminutivo não é nem um pouco pejorativo, por favor) seria abuso de minha parte.

P.S.: numa também deliciosa crônica-reportagem do Kotscho, descubro ainda que o Heródoto, paulistano de 62 anos, também é monge budista, e responde pelo nome de Gento Ryotetsu.