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Nesse turbilhão de informações, vira-e-mexe me surpreendo com um jornal da semana passada ou retrasada (algum suplemento cultural que guardei pra ler com calma), ou ainda com algum link aberto numa das dezenas de abas aqui do Firefox (que, da mesma maneira, abri em algum momento e deixei pra ler depois). Aí é que vou tentar me lembrar de onde surgiu aquele link: alguém me enviou? será de algum post do feicebúqui ou tuíter? foi um link-do-link-do-link… de onde? Na maioria das vezes, desisto de tentar rastrear esses passos — fica o gostinho de *mistério*, se contrapondo à instantaneidade de uma googlada pra se checar uma informação simples.

Esse intróito vem pra justificar essa grata surpresa: uma moça italiana comentando nada menos que o *Miguilim*, do Guimarães Rosa. Assisti umas três vezes, tentando captar o que ela diz — é, ainda que descendente de italianos, não *parlo niente, cáspita!*. Me contentei em me deliciar mais com a emoção da moça, que compartilho aqui (depois, descobri o blog dela e a fonte do vídeo):

Ao mesmo tempo, mandei o link pra quem de direito: seu Toninho (sim, meu pai). A resposta veio rápida — curta, mas que ainda vai render outros papos:

Oi, Pô.
Uma análise muito interessante. Destrincha o livro todo.
Pena que não consegui guardar tudo. Em essência, ela diz que se trata de cenas simples, ou aparentemente simples, da vida, de uma vida localizada, mas que se aplica à vida universal. Diz que Rosa não narra uma história, mas a história. É uma história nostálgica, mas não de uma nostalgia puramente lembrança morta do passado, mas uma nostalgia que envolve todo o espaço. Conta, por exemplo, que Miguilim (Migulim, para ela) pergunta à mãe o que é o mar. Diante da resposta da mãe de que o mar é uma coisa muito grande, Miguilim compara a nostalgia ao mar…

Pai.

(Em tempo: *Pô* é meu apelido de infância, é como sou chamado até hoje na *famiglia*.) Do alto da sua vasta (vastíssima!) erudição, meu pai já me confessou que lamenta pouco ter lido o Rosa (comento mais a seguir) e, além das minhas impertinentes referências, é interessante como ele interpreta a interpretação-leitura de uma italiana. Mas, claro, uma coisa puxa outra, e vou eu fuçar aqui no meu baú virtual e reencontro uma mensagem de 2005, do copoanheiro Rai, este sim um legítimo roseano — como se pode comprovar:

Cê não vai acreditar o que sucedeu comigo noite passada. Sonhei que estava na roça do Miguilim, o Mutum. Foi muito legal, acordei emocionado.

No sonho, eu estava vendo ele e a preta véia que é chegada na cachaça e mora num cafofo no fundo da roça, que agora não me recordo do nome e nem consigo encontrar meu exemplar de “Manuelzão e Miguilim”, naquela passagem que eles estão fazendo um túmulo para enterrar as coisas do Ditinho. O mais emocionante é que os dois estavam conversando e só repetiam a frase da mãe enquanto ela lavava o pé do muleque morto e ficava repetindo “como era bonito o meu filhinho, como era bonito o cabelinho dele”, e eles ficavam botando pedrinhas no túmulo e depois começaram a chorar. Foi um sonho, realmente.

O pior é que já procurei o livro para dar uma relida nesta parte, mas acho que minha irmã carregou o dito cujo na última vez que ela esteve aqui em casa. O pior, ou melhor, é que este sonho, como todo sonho, acho, tem toda aquela atmosfera onírica que fica com uma imagem embaçada e não dava para ver direito a cara do miguilim e da preta véia. Eu só recordo que os dois estavam de roupa branca e agachados num lugar que parecia o quintal da roça da minha mãe e que eu estava vendo eles de um lugar meio afastado, que dava para ver as duas siluetas de lado.

Nunca tinha sonhado com nada do Rosa, nem de outros escritores que costumo reler com frequência e paixão, antes e, sinceramente, acho que este foi uma dádiva. Foi uma puta experiência. Pena que durou pouco, pelo menos é o que me parece. Mas é isto, Bicarato, acho que cê vai gostar de saber sobre este sucedido. Agora vou ter que correr que a Dona Maria vai passar aqui para a gente ir ao cinema. Depois a gente proseia mais. Amplexos (como cê mêsss diz) e ósculos.

Rai.

Que o Miguilim é um dos alter-egos do Rosa, todos sabemos. A mítica imagem do médico emprestando os óculos pro Miguilim, que magicamente passa a enxergar o mundo, é antológica. Não à toa, a dona Calina, prima do Rosa, fundou o grupo Miguilim (mais aqui): sou testemunha de como, literalmente, o Rosa abriu horizontes pra muitos garotos e garotas de Cordisburgo, que passaram a enxergar muito além do Mutum. Que o diga a querida Magna, a Menina da Terceira Margem do Rio — reproduzo o causo aqui:

Esse sertão do tamanho do mundo tem veredas que se cruzam e a gente fica sem entender como e por quê. Ou: as veredas existem só pra se cruzarem, mesmo…

Lá pelos idos de 1999, escapei uns dias e fui conhecer Cordisburgo, um *quase-lugar* que foi o berço do Guimarães Rosa. Vai que, tomando uma cerveja num boteco lá, fiquei sabendo dos *Miguilins* –crianças da cidade que eram incentivadas a lerem Rosa para depois apresentarem, narrando/interpretando/re-vivendo cada conto. Mais um pouco de conversa, e consegui agendar uma apresentação exclusiva de alguns Miguilins. Levado à casa de um deles, no quintal, meia dúzia de adolescentes me cercaram e começaram a declamar Burrinho Pedrês, Matraga e muito mais.

Não dá pra descrever a emoção. Mas uma das meninas conseguiu tirar de mim todas as lágrimas que nunca tive, recriando ali, ao vivo e em cores, letra por letra, toda a *Terceira Margem do Rio*. Saí dali mais vivo, mais leve, mais apaixonado pelo Rosa e por todos os Miguilins desse sertão sem fim.

Passam-se mais uns anos e, em 2001, um evento de/sobre o Rosa toma conta da *Casa das Rosas*, em plena Avenida Paulista. Lá, entre filmes, fotos, escritos, trouxeram também alguns Miguilins. Entre eles, revejo a Menina da Terceira Margem, aquela mesma que me fez chorar em Cordisburgo. Revivi e renasci mais uma vez.

Já contei essa historinha aqui mesmo no Alfarrábio, e a novidade vem agora: eis que, de repente, recebo uma mensagem de quem? Ela mesma, a Menina da Terceira Margem, a Magna –sim, pra completar, ela tem um nome mais do que apropriado…

Oi! Sou a Magna do Grupo Miguilim, de Cordisburgo. Vi seu comentário e não pude deixar de me emocionar. Moro em BH e faço Letras na UFMG. Gostaria de trocar idéias.

Li, reli, trili a mensagem, tentando acreditar que era verdade. E é!

Naquele dia, em Cordisburgo, fiz questão de pegar *autógrafos* de todos os Miguilins. Cada um, com letrinhas caprichadas, deixou uma citação do Rosa cercada de desenhinhos. Claro, tenho essa cadernetinha guardada até hoje –o *autógrafo* dessa moça-miguilim, ah! não vendo por nada desse mundo.

Ah, duvidam, é? Taí a prova:

Mas, das histórias e causos do Miguilim, lembro vagamente que, há tempos, li um relato de alguém que teve um parente que provavelmente teria servido de inspiração pra uns dos personagens do conto… (sim, lembrança vaga mesmo). Então, lá vamos nós garimpar essas internets — nas penumbras da memória, sabia que o texto foi publicado num suplemento literário de algum jornalão, mas qual? Fuça daqui, fuça dali (não me perguntem o passo-a-passo), eureka! O texto é do sociólogo Sérgio Abranches, e saiu na Ilustríssima, em 17 de junho de 2012. Se alguém tem dúvidas sobre Miguilim ser um dos alter-egos do Rosa, segue:

Arquivo Aberto – Memórias que viram histórias
Vovô Juca e Miguilim

Curvelo, anos 1950
Sérgio Abranches

Guimarães Rosa é uma influência quase atávica, meio mágica. Nós somos do mesmo pedaço do sertão cerrado mineiro. Nossas biografias têm uma conexão de profunda significação para mim e consequências importantes para Guimarães.

Meu bisavô, avô de minha mãe, era um excepcional médico, em Curvelo, cidade vizinha à Cordisburgo de Guimarães. Era “o médico do Curvelo”, desses que o interior raramente tem, respeitado pela comunidade médica mineira como “par inter pares”. De formação germânica, era austero e distante. Mas sabia deixar claras suas preferências e seu afeto.

Um dos gestos dele que mais me encantavam era o de me entregar um novo estilingue -falávamos bodoque em Curvelo-, na minha infância, sempre que eu chegava para passar as férias.

Ele escolhia a melhor forquilha, o melhor pedaço de couro, a mais elástica câmera de pneu, tudo cortado meticulosamente com seu canivete afiado. Minha mãe, sempre cheia de cuidados, proibia tudo o que lhe parecia perigoso. Bodoque, então, nem pensar.

Chegávamos à casa de “vovô Juca”, ele nos beijava e me dava o novo bodoque, de alta precisão para estilingues artesanais, que eu ostentaria pendurado no pescoço como um colar de galardão.

Sua autoridade de patriarca anulava e calava toda contra-ordem. Se dizia podia, então podia. Se dizia não, era não, universalmente, obediência geral. Logo bodoque podia e pronto.

“Não pode matar passarinho, é só para colher frutas”, dizia.

A precisão era necessária, pois, para colher frutas sem estragá-las, era preciso atingir o ponto mínimo que unia o talo à fruta. Assim colhia mangas, laranjas e mexericas.

Ele nunca me contou de sua vida. O que sei e sabia me foi contado por minha avó e por minha mãe.

Por isso, foi com espanto e maravilhamento que o encontrei, inesperado e desconhecido, ao final da história de “Manuelzão e Miguilim”: o doutor que descobre que Miguilim é curto da vista, lhe empresta os óculos redondos e elimina momentaneamente sua miopia. José Lourenço Vianna, o médico do Curvelo, meu bisavô, entrava a cavalo na história de Miguilim!

“Era o doutor José Lourenço, do Curvelo. Tudo podia.”

Essa descoberta foi, infelizmente tardia. Aconteceu seis meses depois de ele ter morrido, quando eu tinha 16 anos. Acompanhei seus últimos momentos e nunca me esqueci do olhar de amor, orgulho e gratidão, em seus olhinhos muito azuis. O orgulho vinha das conversas longas que tínhamos, eu falando da mais variadas coisas e ele ouvindo, com a vida por um fio, sem forças para falar muito, poupando fôlego. Disse à minha mãe que eu havia me tornando um jovem muito culto.

Queria tê-lo interrogado, aflito de curiosidade, maravilhado e orgulhoso, sobre como chegou ao Mutum para descobrir a miopia de Miguilim.

Descobri depois que sua jornada até o Mutum era, na verdade, a transposição literária da gratidão de Guimarães Rosa ao médico, meu bisavô, que, em sua casa de Cordisburgo, em visita ao seu Rosa, o pai, descobriu que aquele menino predestinado a ser o maior entre os maiores da literatura brasileira era míope.

E lhe emprestou seus óculos redondinhos e ele viu que o seu mundo de Cordisburgo, o qual conhecia por partes, micropedaços que enxergava ajoelhado nas folhagens e nas pedras, sempre muito de perto, sem nunca perceber o conjunto com precisão, era bonito. “O Mutum era bonito! Agora ele sabia”. Miguilim, reproduz aquela descoberta infantil crucial de Guimarães Rosa.

Na minha adolescência, mergulhava nos livros de Guimarães sempre com a sensação de encontrar ecos na minha alma. Ele via com muito mais poesia, profundidade e exatidão aquelas coisas do sertão que me impregnaram de sensações indeléveis e se inscreveram em minha memória inapagáveis.

Sérgio Abranches, PhD, sociólogo, cientista político, analista político e escritor. Autor de Copenhague: Antes e Depois, Civilização Brasileira, 2010, sobre a política global do clima; e de O Pelo Negro do Medo, romance, Record, 2012. Prêmio Jornalistas&Cia HSBC de Imprensa e Sustentabilidade: Personalidade do Ano em Sustentabilidade 2011. Prêmio Chico Mendes de Jornalismo Socioambiental 2013 (rádio).

Mas voltemos ao seu Toninho, comentando outro vídeo que mandei há algum tempo:

Pô, querido filho!

Terminados serviços “urgentes” que preencheram toda a semana, estou me dando uma folga para ver os e-mails, mais devido ao cansaço do que por não ter o que fazer. Foi então que abri o “Trecho do Guimarães Rosa”. Se eu, que nada entendo do Rosa, me maravilhei, imagino você…

O Grande Sertão é, como a Bíblia, inesgotável em seu conteúdo. Quanto mais se volta à sua leitura, mais dele se tiram saberes.

Guimarães é mesmo alguém que, por mais lido e estudado que seja, sempre terá “boa-nova” para comunicar.

Pra completar, o Lima Duarte ainda recita um verso do Catulo da Paixão Cearense, pra mim um dos maiores intérpretes da alma do sertanejo.

Benditos esses homens que sabem captar nuanças do linguajar e idiossincrasias do nosso povo, que são imperceptíveis aos olhos do comum dos mortais. Perpetuam no história o “jeito brasileiro de ser”.

Pai.

Ele se refere a, nada mais nada menos, que Inezita Barroso e Lima Duarte, mais Teo Azevedo na viola. Aliás, sei que, lá na década de 70, a querídola Nydia participou da produção de um espetáculo com o Lima Duarte interpretando o Grande Sertão:

Guimarães Rosa, Augusto Matraga, Riobaldo Tatarana, Diadorim, Manoelzão, Miguilim… Esses cabras me perseguem sem dó, e agradeço a Deus por essa bênção. Se não, como explicar os eternos reencontros com Miguilins?

A pergunta é retórica, não quero nem pretendo achar a(s) resposta(s). E sigo relendo o Rosa.