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Mistérios insondáveis nos rondam. Existem pra instigar a imaginação ou tripudiar da nossa pretensa sapiência ou perturbar nossos espíritos — ou tudo ao mesmo tempo. Das fímbrias do tempo (essa abstração e aberração que nos fustiga), quando até mesmo o oráculo Gúgôl se mantém em silêncio e se recusa a vislumbrar qualquer pista, um mistério assola: quem, o quê é, de onde vem o intrigante nome *Bicarato*?

Início do século (do milênio!) passado, meu bisavô chegava ao Brasil, vindo da Itália. Sem lenço nem documento. Giovanni Bicarato (ou Bigarato) e Colomba Bicarato (idem) vieram com as filhas Francesca e Teresia (ou Teresa) e mais um ou dois filhos — dados básicos cobrem-se de névoas, embaralhando ainda mais as parcas pistas que poderiam ser algum ponto de partida pra alguma investigação. A chegada? Entre 1901 e 1904. A região de origem? Também nebulosa: entre Padova e Veneza.

Tia Angelina, a filha mais nova do casal, já nonagenária, ainda sussurrava lmebranças esparsas. Dizia que sempre ouvia a nona, Colomba Muscini, dizer que era do *Estado Romano*, e ouvia também falar em Viterbo. A nona, aliás, já havia enviuvado quando se casou com o nono, Giovanni. De seu primeiro marido, nem sequer o nome se sabe. Os dois filhos do casal morreram na epidemia de gripe espanhola, ainda na Itália (segundo uma outra tia). Mas há controvérsias: provavelmente devem ter sido vítimas de qualquer outra epidemia, muito comum na Europa daqueles tempos, já que a gripe espanhola arrasou o Velho Continente nos idos de 1918 — alguns anos depois, portanto, da vinda deles para o Brasil.

As poucas informações disponíveis trazem mais dúvidas e embaralham ainda mais o tabuleiro: na Certidão de Nascimento de meu vô, o nome da mãe dele não é Colomba Bicarato, e sim Colomba Muscini. Já a avó materna carrega outro nome, Cesarini.

Nessa busca insana, eis que em algum momento o oráculo Gúgôl vislumbrou algo: uma única referência, datada de… 1277! Como uma pérola valiosa, tratei de ao menos fotografá-la:

Anno 1277 – 20 marzo
Bigarato da Portovenere e Bennato Moscone da Vernazza, volendo porre un termine alle liti, che hanno per causa d’una rissa, successa alla spiaggia di Vernazza, dinanzi a Giacomo de Ricardo da Portovenere e ad Armanno de Vegio da Vernazza eleggono arbitro Rollandino Bigarato, fratello di detto Galvano, le due parti si condonano le reciproche offese e si dannoi il bacio della pace. Not. Guglielmo de S. Georgio Reg. V pp 16 17v.

[Na tradução do seu Toninho, meu pai]:
Ano 1277 – Em 20 de março
Bigarato, de Portovenere, e Bennato Moscone, de Vernazza, desejando pôr fim às demandas que tinham por causa de uma rixa, acontecida na praia de Vernazza, diante de Giacomo de Ricardo, de Portovenere, e de Armanno de Vegio, de Vernazza, [Bigarato e Bennato] elegem como árbitro Rollandino Bigarato, irmão do dito Galvano (Penso, pelo contexto, que Galvano seja o primeiro nome de Bigarato). As duas partes se perdoam as recíprocas ofensas e dão-se o beijo da paz.

Ou: há um *buraco* de sete séculos sem nenhuma referência à minha família. Nas buscas, apelei pro improvável: além da grafia atual, *Bicarato*, arrisquei *Bicaratto* e *Bigarato*, entre outras. Nadica de nada.

Já abatido pelo desânimo, resolvi apelar pra uma ajuda profissional. Chegam-me notícias alvissareiras de que, na Itália, um detetive de renome — mas ao mesmo tempo, e por isso mesmo, recluso em seu rincão, já aposentado, desvendera em priscas eras segredos ainda mais obscuros. Após tentativas infrutíferas, e já exauridas minhas forças, consigo um contato do misterioso detetive. Arrisco, mesmo sem ter qualquer noção de como eu poderia arcar com os altos custos de tão ousada empreitada. Estranhamente, a resposta vem ágil e rápida, o que me intrigou ainda mais, até pelo tom jocoso, fazendo troça das minhas angústias e já trazendo ainda mais perguntas do que pistas ou respostas:

Pensei que fosse algum trabalho, estava já preocupado.
De alguma forma você bateu em porta certa. Não porque tenha já algo pra te oferecer, mas que ao menos se abre a isso. Na verdade o teu pedido é mais um entre inúmeros e eu me divirto mesmo em fazer o detetive. Consegui descobrir coisas que nem eu mesmo acreditava.
Bem, eu começo a fazer uma busca na lista telefônica e me diz que na Itália nao existem Bicarato. Tento Bicaratto, e a resposta é a mesma. Igual para Biccarato ou Bigarato e Bica Ratto. Nesse caso é muito provável que tenha havido uma modificação do nome original, algo comum nos portos de antanho.
Se você tem alguma idéia de onde tenha nascido este teu bisavô, é já muito útil. Se sabe em que ano, com uma aproxiamação de cinco pra mais ou menos, muito melhor ainda. Porque posso fazer um pedido nos registros de batismo da região em questão.
Sem isso, vou dormir sobre o assunto e amanhã tento imaginar qual nome possa ser o original.

Passam-se os dias, e o Detetive volta ao silêncio. Já me resignando e dando por vencido, esforço-me pra esquecer o caso. Mas eis que chega, inadvertidamente, um breve relato:

A tarde estava fria, as poucas almas que se aventuravam pelas poeirentas vielas corriam apressadas sem nem mesmo desconfiar de meu mais novo e angustiante quebra-cabeças. Acendi um cigarro e me encaminhei ao bar. Alonguei uma nota de dez ao barman e fiz algumas perguntas banais. De repente, sem que ele esperasse por isso, lancei a palavra-chave: Bicarato! Este nome diz algo a você? Ele não teve nem tempo de fechar a torneira da pia e correu desesperado em direção aos fundos do bar. Voltou dois segundos depois com uma enorme carabina nas mãos. Não me restou alternativa senão a de transformá-lo em um escorredor de macarrão.

Na verdade, em algumas buscas que consegui fazer o resultado foi sempre o mesmo: não existe Bicarato na Itália. Não sei e ninguém soube me dizer o significado do nome. Em geral os nomes querem dizer algo, aqui é muito comum isso. Mas ninguém soube me dizer.
O que encontrei foi um texto muito interessante. Uma tese de mestrado da Universidade de Bologna, Facoltà di Lettere e Filosofia, Corso di Laurea in Discipline delle Arti, della Musica e dello Spettacolo. O trabalho se chama IL SENSAZIONALE E IL PRODIGIOSO NELLA LETTERATURA DI CONSUMO. SECOLI XVII E XVIII. Pois bem, não li tudo ainda, mas fala das tradições e do desenvolvimento da imprensa a partir do que se poderia comparar com a literatura de cordel, claro que com os elementos do universo da Itália dos séculos citados. Entre alguns “causos” relatados e que se tranformaram em livretos, tem a história de Angelo Secchiarolo, detto Bigaratta, il “tristo Bigarato”.
Era um assassino que foi condenado a morrer na forca e no dia de sua execução, 11 de junho de 1729, se recusou a beijar a cruz, fato que o tornou fonte de inspiração desse conto que fala da alma que vai para o inferno etc. etc.

As únicas referências encontradas com o nome falam de apelidos. Uma possibilidade, além do erro de registro, é que teu bisavô usasse o Bigarato também como apelido e que depois virou sobrenome. Pode ser que ele seja o primeiro da lista, não seria um fato inédito.
Por hora é só. E a busca continua.

Ouço uma coruja que canta ao longe. A lua vai alta pelo céu, conferindo uma luminosidade triste à cidade adormecida. Saio pelas ruas, na cabeça uma só intenção. Maldita hora que aceitei este trabalho. Mas o que mais posso fazer? Esta é minha vida. Meu destino é mais forte que minha vontade. Sigo.

Um assassino herege! Depois dos briguentos do século XIII, que desapareceram até mesmo dos olhos do oráculo, eis que surge um assassino herege no século XVIII. O hiato entre os séculos sugere que há ainda muitas insuspeitas e inimagináveis ocorrências sob o nome, mas a curiosidade vence a prudência, que clama pra que se deixe incólume o mistério. A tentação de fustigar o vespeiro, mesmo diante dos sinais agourentos, mescla-se à angústia pela espera por novos relatos do Detetive, que mais uma vez se abstém, por incontáveis e interminaveis dias, de se manifestar. A ansiedade me toma: confiro várias vezes ao dia a caixa de correios, sem sucesso. Até que…

Relatório nº 2
Riva del Garda, 28 de março de XXX.

Choveu por todo o dia e a névoa cobria com seu manto úmido as tristes cores do fim de inverno. Já faz dois dias que não durmo e não me alimento. Todos os casos que aceitei me deixaram destruído fisicamente, e este não poderia ser diferente. Resolvi cobrar uma antiga divida moral que tinha com o chefe da polícia local, fruto de um caso com rapazes e garotas que não vem ao caso relatar. Depois de refrescar a memória do policial, lhe pedi com a voz baixa que me caracteriza se porventura sabia algo a respeito de Bicarato. O sorriso do bigodudo homem da lei se apagou e com uma expressão soturna me sussurrou: Você também está a serviço do Boss? Comecei a entender o porquê dessa família ser assim tão misteriosa.

Tive um insight hoje: fiz uma pesquisa que revela que existem 13 famílias Carato na Itália e 48 Caratto, com concentração no Piemonte. Bem, se o bisavô tivesse um segundo nome, por exemplo, que começasse com “B”, ele poderia ter dito à voz para algum tabelião brasileiro que se chamava “Nome B. Carato” e isso soa “Nome Bi Carato”. Conjecturas!
Ao menos o nome Carato existe! Um momento! Garatto também existe e são 13 familias concentradas em Venezia. Garato também tem e são 20, quase todas em Venezia.
Pode não dar em nada esse caminho, mas é interessante.

Os raios e trovões conferiram às palavras do chefe de polícia uma dramaticidade a mais. Prontamente eu disse que sim, estava a serviço do Boss. Imediatamente ele se ajoelhou a meus pés e chorando me pediu para que interceda em seu favor. Me encontro em uma enrascada das brutas. Agora vou ter que achar esse Bicarato, custe o que custar!

Mais uma vez, frustrante! Mais interrogações e conjecturas, mas nada palpável. Pra aumentar a agonia, temo que não conseguirei arcar com os custos altíssimos de tal pesquisa detetivesca — um *detalhe*, aliás, que nem chegou a ser negociado. Tardiamente, mando uma correspondência indagando sobre os honorários do Detetive. A resposta vem seca, quase como uma ameaça, seguida de mais um capítulo amargurante:

Quanto aos custos, não se preocupe. Voce tem casa em seu nome?

Hoje tive um dia duro. Trabalho com as garotas que estão sob minha proteção. Elas aparentemente gostam quando eu tenho um dia duro. Por isso tive pouco tempo para a minha pesquisa. Quase conseguia tirar este verdadeiro cupim que me rói os pensamentos. Não deixei de ir ao funeral do barman. Encontrei lá o chefe de polícia, que me fazia sinais com os olhos. Maldição, se não encontrar logo esse Bicarato, vou estar mesmo em uma enrascada. Pior do que daquela vez que saí com a mulher do prefeito. Bem, mas essa é uma outra história.

Padova e Venezia estão no Vêneto, a mais ou menos 50 Km uma da outra e sim, é uma região nebulosa e com frequentes problemas com a neblina. Eu me concentro na pista Vêneta.
Algumas prefeituras de cidades maiores dispõem de um arquivo público onde se podem consultar estes documentos. Tendo como boa a informação da vinda deles no início do século e com dois ou quatro filhos, isso situa o nascimento dele entre 1870 e 1880. Infelizmente o dado sobre a vovó não serve pra nada. Apenas como curiosidade: as mulheres até mais ou menos a 1ª guerra não eram nem registradas. Os poucos documentos que se encontram em geral vêm das paróquias, que funcionavam como verdadeiros centros de documentação. Mas mesmo nas paróquias a enorme maioria dos documentos é de homens. Bem, voltando, um passeio em Venezia não seria má idéia. Agora na primavera é uma boa época para ir a Venezia fazer… pesquisa de arquivos. Bem, quer dizer, entre um champanhe e outro sempre tem espaço para um empoeirado monte de papéis velhos.
Se se soubesse o nome da cidade de origem, seria um tiro quase certeiro, mas me parece que não é o caso.

Sempre que uso minha pistola tenho que fazer uma limpeza completa.
Ela está velha e usada, mas ainda me garante resultados, e isso é o que interessa. Nunca se sabe quando vou usá-la de novo, mas pelo jeito, este caso vai ser o mais endemoniado de todos o que enfrentei. Eu vou adorar.

Nada! Nenhum ponto de partida; a missão parece impossível, até mesmo pra um experiente Detetive. Seja pela decepção de não fazer jus à sua fama, seja pela inglória caçada, ela desaparece de vez. Depois disso, silêncio absoluto. Foi a última correspondência que recebi do Detetive. Temo que o Detetive tenha avançado algo, mas chegando a algum ponto mais do que arriscado e, confirmando todas as suspeitas e riscos de uma investigação tão inconsequente, tenha feito o Boss entrar em ação.

Famiglia Bigarato

Famiglia Bicarato, recém-chegada da Itália:
da esq. p/ direita, em pé, atrás: Francesca (Queca), italiana; Teresa, italiana; Maria; Domingos.
Ainda em pé, um pouco à frente: Antonia e Cristina.
Sentados: Colomba Muscini, Giovanni Bicarato e Rosa (Rosina).
No colo: José. Sentado, centro: Bento (meu avô).
Provavelmente no ventre da Colomba: Angelina