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Era um moleque feliz: no chão batido da casa, no quintal com os quaradores da mãe lavadeira, nos barrancos do córgo, no meio da rua. O sobrenome sempre foi “Padeiro”, o que, como é da tradição, herdado da profissão do pai — o sobrenome oficial nunca se soube.
Apreciava, muito, um modesto pão-de-sal (que hoje é “francês”) amanhecido do qual retirava os miolos e enchia de açúcar: era seu pão-doce.
No que a criatividade sempre superou as limitações — ora, que óbvio! –, e inventava brinquedos impensáveis.
(Uma raspa de sabão-de-coco molhada se transformava em cola pra pregar a plaquinha do carrinho imaginário remixado a partir de caixinhas de papelão. As rodas? Tampinhas de garrafa ou qualquer pedaço de madeira mais ou menos esférico, ou algo com uma mínima semelhança geométrica.)
As casas ficavam a menos de 100 passos. A dele, já dita, simples, simplória, de parcos cômodos e o fogão a lenha sempre ativo. A outra não exibia luxo algum, mas era incomparável: tinha telefone, TV, carro na garagem. E vitrola, e muitos discos e livros.
Essa era a casa do outro moleque, também feliz e curioso e fuçador das coisas, como o outro.
Juntavam os dois, portanto, não se podia prever resultado algum.
Coisa que rendeu, até, um acidente que provocou a fissura de um osso facial de um dos dois: uma pedrada mais forte e certeira numa brincadeira irresponsável (e qual não era?). O doutor disse que poderia ficar cego de um olho, mas errou.
As diferenças flagrantes entre os dois moleques, ao que parece, só os mantinha juntos. A aflição das mães por não saberem onde estavam os moleques era a mesma, e as broncas, as mesmas.
As duas mães bronqueavam os mesmos nomes: Paulo. Um negro e pobre, outro branco e riquinho. Com todas as diferenças, preconceitos de classe ou raça ou religião eram totalmente “estranhos” e não faziam parte do dia-a-dia — mais, talvez, por puro mascaramento de tabus que sempre estiveram vivos, exatamente por estarem arraigados e fazerem parte da nossa herança cultural.
Não tenho notícias do xará de infância, mas ouço as broncas da minha mãe até hoje.