Escolha uma Página

Buscar e achar uma palavra específica em um texto é fácil, tem o CTRL+f pra isso. Mas e quando o texto tá no papel, não tem arquivo digital? Mais: tá num livro de 500 páginas. E: é uma palavrinha prosaica, não daquelas que “salte aos olhos” numa leitura dinâmica.

Claro, você tem pelo menos alguma referência, algum trecho do livro em que ela possivelmente está. Só que, no livro em questão, isso embaralha ainda mais a procura. Mas mesmo assim o teimoso aqui encarou — e se surpreendeu: em menos de 10 minutos a missão estava cumprida.

A palavra: “maio”. O livro: “Grande Sertão: Veredas”. Fui instigado pelo Alvito Uff, que lembrou que foi em maio que Riobaldo e Diadorim se conheceram — na verdade, Riobaldo conheceu e se encantou com, de cara, “o Menino”…

Peguei a edição mais fácil que estava à mão: a da editora Nova Fronteira, de 1992, pelo aniversário dos 25 anos da morte do Gúimarães Rosa. Tá lá na página 87:

“[…] No alto, eram muitas flores, subitamente vermelhas, de olho-de-boi e de outras trepadeiras, e as roxas, do mucunã, é um feijão-bravo;  porque se estava no mês de maio, digo – tempo de comprar arroz, quem não pôde plantar. Um pássaro cantou . Nhambu? E periquitos, bandos, passavam voando por cima de nós. Não me esqueci de nada, o senhor vê. Aquele menino, como eu ia poder deslembrar? Um papagaio-vermelho: –“Arara for?” – ele me disse. E – quê-quê-quê? – o araçari perguntava. […]”

Robaldo tinha seus 14 anos e foi com a mãe até as barrancas do de-Janeiro pra cumprir promessa: pedir esmola por sarar de doença. O porto do Rio-de-Janeiro, ou do seo Joãozinho, o negociante, era também ponto de partida pra baldear o São Francisco. “Porto, lá, como quem diz, porque outro nome não há.”

“Aí pois, de repente, vi um menino, encostado numa árvore, pitando cigarro. Menino mocinho, pouco menos do que eu, ou devia de regular minha idade. Ali estava, com um chapéu-de-couro, de sujigola baixada, e se ria pra mim. Não se mexeu.”

Missão bem-sucedida, que me rendeu um orgulhinho-bobo, repasso alguns parágrafos que me levam ao começo do livro. Pra reler pela terceira, ou quarta, vez, o Grande Sertão.

“– Nonada…”

 

> Mais sobre o Rosa no Alfarrábio, aqui.