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:: Causos do Rosa ::

Marcelo mandou essa, colando direto da Veja desta semana, numa matéria sobre o sucesso da Editora Sextante (págs. 116 e 117). O dono da Sextante, Geraldo Jordão Pereira, filho de José Olympio, o da editora, conta um episódio da época de ouro da editora do pai:

*”Geraldo lembra de episódios saborosos da época em que a editora era ponto de encontro de autores. Guimarães Rosa, por exemplo, era conhecido por cultivar uma bem-humorada vaidade. Certo dia, Geraldo saudou o autor de ‘Grande Sertão: Veredas’ logo que ele entrou na casa: ‘Como vai o maior escritor do Brasil?’. Rosa retrucou de pronto: ‘Por que a restrição?’. E caiu na gargalhada.*

É, não leio a Veja, e não dou o link. Mas, de vez em quando, até que aparece alguma coisa que presta lá.

:: No meio da rua… ::

Buscar e achar uma palavra específica em um texto é fácil, tem o CTRL+f pra isso. Mas e quando o texto tá no papel, não tem arquivo digital? Mais: tá num livro de 500 páginas. E: é uma palavrinha prosaica, não daquelas que “salte aos olhos” numa leitura dinâmica.

Claro, você tem pelo menos alguma referência, algum trecho do livro em que ela possivelmente está. Só que, no livro em questão, isso embaralha ainda mais a procura. Mas mesmo assim o teimoso aqui encarou — e se surpreendeu: em menos de 10 minutos a missão estava cumprida.

A palavra: “maio”. O livro: “Grande Sertão: Veredas”. Fui instigado pelo Alvito Uff, que lembrou que foi em maio que Riobaldo e Diadorim se conheceram — na verdade, Riobaldo conheceu e se encantou com, de cara, “o Menino”…

Peguei a edição mais fácil que estava à mão: a da editora Nova Fronteira, de 1992, pelo aniversário dos 25 anos da morte do Gúimarães Rosa. Tá lá na página 87:

“[…] No alto, eram muitas flores, subitamente vermelhas, de olho-de-boi e de outras trepadeiras, e as roxas, do mucunã, é um feijão-bravo;  porque se estava no mês de maio, digo – tempo de comprar arroz, quem não pôde plantar. Um pássaro cantou . Nhambu? E periquitos, bandos, passavam voando por cima de nós. Não me esqueci de nada, o senhor vê. Aquele menino, como eu ia poder deslembrar? Um papagaio-vermelho: –“Arara for?” – ele me disse. E – quê-quê-quê? – o araçari perguntava. […]”

Robaldo tinha seus 14 anos e foi com a mãe até as barrancas do de-Janeiro pra cumprir promessa: pedir esmola por sarar de doença. O porto do Rio-de-Janeiro, ou do seo Joãozinho, o negociante, era também ponto de partida pra baldear o São Francisco. “Porto, lá, como quem diz, porque outro nome não há.”

“Aí pois, de repente, vi um menino, encostado numa árvore, pitando cigarro. Menino mocinho, pouco menos do que eu, ou devia de regular minha idade. Ali estava, com um chapéu-de-couro, de sujigola baixada, e se ria pra mim. Não se mexeu.”

Missão bem-sucedida, que me rendeu um orgulhinho-bobo, repasso alguns parágrafos que me levam ao começo do livro. Pra reler pela terceira, ou quarta, vez, o Grande Sertão.

“– Nonada…”

 

> Mais sobre o Rosa no Alfarrábio, aqui.

:: Travessia ~ Margem ::

Camarada Luciano Coca manda a provocação, a partir de *cena registrada no Bairro do Raizeiro, zona rural de Parahytinga, São Luiz, em um fim de tarde primaveril*:

Nosso novo desafio: resuma em uma frase qual é o sentimento que essa cena desperta em você. Ou seja: “Que encanto é esse?”.
Solte sua imaginação e boa viagem.

E a cena:


Como sempre, soltei lá, ainda que impunemente:

*margens do porvir, terceiras margens no navegar preciso à luz do ser tão humano*

É mais do que óbvia a referência ao Guimarães Rosa, e a um de seus mais emblemáticos contos (talvez *o* conto). Mas cena diz muito mais, e poderia ficar horas e horas repetindo-a, e a cada momento surgiriam novas interpretações. Essa *provocação* do Coca, e essa riqueza infinita de cenas, cores, gentes, cheiros e paisagens, integram um projeto maior do próprio Coca, o Revelando o Vale:

uma jornada fotográfica pelas histórias, estórias, paisagens, miragens e cenas, tradições e costumes da Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte de São Paulo.

O acervo tá crescendo a cada dia, mas bem sei da missão impossível a que o Coca se propôs: essa nossa região é pródiga em belezas e gentes e causos. Aliás, pra ficar ainda mais impossível: duvido que o camarada conte, em causo, a feitura de cada foto…

Mas, a propósito, eis que o jornal Estado de Minas dá um tempo nas manchetes espúrias desses tempos nebulosos que vivemos e nos brinda com uma reportagem pra lá de bacana:

Estado de Minas inicia homenagens aos 60 anos da obra fundamental de João Guimarães Rosa com relatos das jornadas de vidas e mortes de anônimos Diadorins do sertão mineiro em busca da própria identidade. Pessoas que, como a misteriosa criação do escritor, tiveram coragem para enfrentar os perigos e, tão certas de si, vivem “o calor de tudo”.

***Travessia***
Gustavo Werneck (textos), Alexandre Guzanshe (fotos) e Fred Bottrel (vídeos)
>> confira aqui

Só pra constar, registre-se o pretenso ensaio que cometi em 2002, pra marcar o início dessa história toda:

Foi publicado originalmente na NovaE no dia 19 de maio de 2002, exatamente no aniversário de 50 anos do início da viagem que resultou no *Grande Sertão: Veredas*.
>> confira aqui

:: Petaloso Pretupitério ::

Que a língua é viva e tem dinâmica própria a gente já sabe. E vive e se multiplica e se replica independentemente e à revelia e contra as regras academicistas. Por isso é linda e apaixonante e, por si mesma, inspiradora. Que o diga o Mestre-maior-de-todos, Guimarães Rosa:

*De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira… Mas ainda haveria mais, se possível…: além, dos estados líquidos e sólidos, porque não tentar trabalhar a língua também em estado gasoso?*
João Guimarães Rosa, em carta a João Condé (1946)

Claro que não resisto a citar o Rosa, ainda que impunemente, em um textinho gasoso e improvisado como esse. Improviso e gambiarra que também são ingredientes dessa alquimia que (re)transfigura a língua permanentemente. Ou: ó p’cê vê..

Mas isso porque, por intermédio ou culpa do mestre Sergio Léo, fico sabendo da deliciosa história do delicioso causo do surgimento da palavra *petaloso*, em italiano. Mestre SLeo invoca o *não-preconceito linguístico*, com propriedade, o que não tira o sabor e o colorido da poesia que nasceu de um *belo erro* (transgressão voluntária ou não) e da sensibilidade da professora: *petaloso* foi criada por Matteo, de 8 anos.

“Petaloso”. Esta é a mais nova palavra do idioma italiano e foi criada por um menino de 8 anos de idade, em um “erro” escolar. O curioso caso gerou tanta repercussão na Itália que até o primeiro­-ministro, Matteo Renzi, e a montadora Fiat já adotaram a expressão, que significa literalmente “ter muitas pétalas”, mas se refere a algo “bonito”. Matteo, filho do casal Lisa e Marco, escreveu a palavra “petaloso” durante uma aula na escola primária “Marchesi”, localizada na cidade de Copparo, região da Emilia Romagna. A palavra foi bem­ vista pela professora Margherita Aurora, de 42 anos, que divulgou a criação de Matteo.

Em poucas horas, “petaloso” já despontava nos trendings topics do Twitter e do Facebook. “Matteo foi muito inteligente, mas isso poderia ter acontecido com qualquer outra criança da turma, pois eu sempre tento desenvolver nos meus alunos uma certa fantasia, criatividade. Acredito que o que aconteceu tenha sido fruto do trabalho que fazemos todos juntos”, disse Aurora.

De acordo com a professora, a palavra surgiu durante uma atividade sobre adjetivos. O menino escreveu “petaloso” para definir a palavra “flor”. Apesar de Aurora circular o termo com uma caneta vermelha para sinalizar o “erro”, acrescentou um comentário na correção para estimular a criança: “belo”. “Apesar da palavra não existir, gostei dela. Por isso, recomendei enviá­-la à Academia Crusca para uma avaliação”, explicou Aurora. Após analisar o novo termo, a Academia admitiu que a palavra pode ser incorporada ao idioma italiano caso seu uso passe a ser recorrente.

Matéria original da Ansa:
Menino de 8 anos inventa nova palavra no idioma italiano
“Petaloso” já foi usada pelo premier Renzi e pela FCA

Se a criatividade e liberdade e *molecagem* do Matteo e das crianças são naturais, consolo-me por saber que esse mesmo espírito lúdico pode — e deve! — ser preservado. E a gente brinca e tem o privilégio de respirar e compartilhar os ares e paisagens de algumas *crianças*. Claro que, obviamente, há ares e lugares e paisagens que favorecem a proliferação de certas espécies especiais, estas, por sua vez, genitoras de espécimes sui generis e endêmicos como um Marquinho Rio Branco. Há outros diversos, nascidos e criados em bambuzais e amamentados em alambiques imemoriais, alguns até que camaleonicamente se disfarçam de professores ou fotógrafos ou jornalistas ou açougueiros ou advogados (ou… ou…), mas todos cientes da missão sagrada de vivenciar e difundir a gostosa e saudável loucura de se reinventar e transgredir a cada dia, a cada lua. E, pois, abram aspas:

Claro que, enquanto *cidadãos de bem* e *defensores da família brasileira* que somos, permitimo-nos o uso de palavras de baixo calão somente em casos excepcionais, e/ou como exercício pleno da nossa expressão mais pura. Que interjeição ou exclamação, por exemplo, é mais clara e direta que um sonoro *putaqueopariu!*?

Mas, com o intuito de enriquecer nosso léxico já tão maltratado, filho bastardo dessa inculta e bela, fica, pois, instituída a mais genuína contribuição de Jacareí não apenas pras letras brasílicas, mas pra todo o mundo, quiçá o universo — e não poderíamos deixar de registrar tão nobre gesto, digno, naturalmente, do Domun Lolerapa #:

Cultora de um vocabulário à la Rui Barbosa, mas não satisfeita, de lavra própria a digníssima sra. Rose Bicarato cunhou o termo, que carece ainda de um estudo à altura por parte de nossos filólogos e quetais — interjeição? exclamação? adjetivo? substantivo? ou ainda um vocábulo que transcende a gramática convencional, sendo multicaracterizado como potencialmente detentor, a um só tempo, de todos os atributos de todas as classes gramaticais?

Toda essa verborragia tenta fazer jus a um momento tão solene — mas apenas tenta, em vão, por maiores que sejam os nossos (parcos) esforços. Resignemo-nos, pois, à grandeza da ilustríssima e nobilíssima sra. Rose Bicarato, e exaltemos sua expressão maior:

*PRETUPITÉRIO*

Que assim seja.

Ou: de como a visão pura (um *belo erro*) da criança de 8 anos ganhou *vida* sob o olhar lúdico e sensível da professora.

# Domun Lolerapa: fui desafiado pelo camarada Luciano Coca a integrar tão ambicioso projeto e, ainda que ciente das minhas limitações, aceitei honrado. Mas, como tudo o que vem de Parahytinga, São Luiz, e de mentes tão inquietas e ébrias como a de cidadãos como o supracitado (típicas, aliás, daqueles rincões), o projeto foi postergado — ou melhor, foi colocado em algum barril de carvalho pra envelhecer e ganhar aroma e sabor. Enquanto isso, o Coca saiu por aí, tirando retratos e mais retratos do nosso Vale do Paraíba (tenho pra mim que, na verdade, ele foi contratado pra algum projeto secreto do IBGE pra fazer o censo das porteiras por esses sertões nossos). Ah! sobre o Domun Lolerapa, saiba mais aqui.

:: Língua: Vida, Cinzas ::

Sob a tristeza de ver a notícia e as imagens, e no calor (literal) do incêndio que destruiu o Museu da Língua Portuguesa, fui até a estante e peguei o meu exemplar n° 601 (de uma tiragem de 10 mil) da edição comemorativa dos 50 anos do *Grande Sertão: Veredas*, com o catálogo e o DVD da instalação montada pela Bia Lessa pra inauguração do Museu, em 2006. Abri o catálogo a esmo e tirei a foto (ao lado), mas só depois de publicá-la fui reler todo o catálogo — e a página que escolhi (ou que me escolheu) tinha um quê de profética:

*A linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente. Isto significa que como escritor devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas.*
João Guimarães Rosa

Me arvorei em *ostentar* que, sim!, tenho em mãos parte do acervo do Museu. Ainda que eu saiba que todo o acervo é digitalizado, o fato de ter o catálogo e o DVD, presente da minha querídola Rose, me trouxe a lembrança de ter visitado a exposição de abertura, com a Rose, o que me deu outro significado ao próprio prédio e, claro, ao presentaço.
Mas acho que essas palavras não vão sair da minha cabeça tão cedo:

*A linguagem e a vida são uma coisa só. […] O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas.*

Sei, porém, que há uns tantos abnegados que resistem em buscar essa *porta para o infinito* infefinidamente, ainda que tenham(os) que nos embrenhar *sob montanhas de cinzas*…

:: Jornalismo & Literatura ::

João do Rio, 1908:

*O literato do futuro é o homem que aprendeu a ver, que sente, que aprendeu a sentir, que sabe porque aprendeu a saber, cuja fantasia é um desdobramento moral da verdade, misto de impossibilidade e sensibilidade, eco da alegria, da ironia, da curiosidade, da dor do público — o repórter.*

Eis a definição. E, pra mim, uma pretensão talvez inatingível. Talvez tardiamente só agora eu tenha um contato maior com o João do Rio, uma daquelas referências um tanto óbvias e evidentes, mas ao mesmo tempo meio que procrastinadas a sabe-se lá qual momento mais… oportuno?

Mas que tenha chegado a hora: a coleção João do Rio, em três volumes bem bacanas da Editora Carambaia: crônica, folhetim e teatro, com uma *seleção de crônicas, reportagens, contos ficcionais, entrevistas, peças, sainetes, folhetins e artigos produzidos entre 1899 e 1919. Boa parte dos textos nunca saiu em livro, apenas nos jornais – que permaneceram mais de 100 anos guardados em arquivos e bibliotecas*.

Além da minha óbvia predileção e admiração pelo Guimarães Rosa, nomes como os do Antonio Maria ou Nelson Rodrigues [*Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino)] são daqueles que sempre me assombraram. Referências que se mesclam, umas mais, outras menos, e das quais busco beber sempre, saboreando cada construção, cada encadear de palavras e signos e significados.

E me surpreendo (mesmo com, e apesar da, ansiedade e expectativa) com João do Rio: logo nas primeiras páginas, a confirmação e superação do que eu supunha. Numa crônica sobre os *reclamos* do início do século, ele define as *tabuletas* como *os brasões da rua […] escudos de uma complicada heráldica, do armorial da democracia e do agudo arrivismo dos séculos*, e segue com a prosa poética, deliciosamente, por mais umas quatro páginas e por ruas e avenidas do Rio de Janeiro.

Décadas antes de *movimentos* como o *new journalim* do Tom Wolfe, Gay Talese & cia., ou ainda do *jornalismo gonzo* do Hunter Thompson, arrisco dizer que o João do Rio inovou na linguagem, na forma, no olhar e no fazer jornalísticos. Se hoje há, sim, muita gente bacana, infelizmente há, também, muitos mais que (se) extrapolam e se perdem na própria arrogância. Tive o prazer de conhecer e conviver e trabalhar com um sem-número de (bons) escribas, mas ao repassar as linhas (e a biografia) do João do Rio é quase inevitável a associação direta com um camarada em particular, que atende perfeitamente à descrição que abre esse texto: o Raimundo Oliveira, o Rai. Tenho a certeza de que vou *enxergar* outros colegas nas próximas páginas dos três volumes da coleção — o que é, confesso, uma maneira de tentar *me enxergar* e alimentar a pretensão de cronista e a implacável relação com *a musa urbana, dotada de uma alma encantadora – a rua*[brinde aqui, pra download].

Segundo clichê: se há algo gratificante, é isso! Desse textinho despretensioso, provocar reflexões e sentimentos, e sabe-se lá o que mais lá bem no íntimo de uns e outros. E atiçar *cronistas urbanos* como, por exemplo, o meu irmão, o Marcelo:

*a loja fica numa ladeira, ao lado duma esquina com semáforo, onde o dia inteiro soam buzinas impacientes e intolerantes.
elas me incomodam muito, muito, muito mesmo.

mas eis que cai na timeline post do Rai citando trecho do João do Rio que você mandou, sobre a rua.

no mesmo instante – no mesmo instante mesmo! – a rádio começa a tocar *the sound of the silence*, de simon & garfunkel.

buzinas gritavam nesse momento aqui do lado por causa de um caminhão com dificuldade de fazer a curva.

eu ouvi todas elas, mas não me incomodaram, pelo menos agora.

a música e o texto foram mais altos.*

Publico aqui sem pedir a anuência do próprio Marcelo. Esse foi apenas e tão-somente um comentário dele, mas deixa clara a sensibilidade do cara, né? Valeu, brôu!

:: Se eu seria personagem ::

Conheço o cara já há umas boas décadas. Figura ímpar, o mineirim sempre se destacou pela inteligência e cultura. Pr’além do jornalismo, outra paixão sempre nos aproximou: literatura em geral, e especialíssimamente o Guimarães Rosa — de quem ele bem poderia ser personagem.

No feicebúqui, o cabra não perdoa e dispara críticas ácidas pra todos os lados. Mas ele tem outra *vertente*, um pouco mais restrita a quem é mais próximo, que revela às vezes num simples e-mail e comete pérolas como essa:

*…quando moleque, na fazenda dos catonho, vi um aviso no muro de pedras que forma o curral mais lindo do mundo: “o curral tá barrido”. e tava mesmo tão bem varrido que nada, ainda, conseguiu varrer o escrito da memória…*

Falo, claro, do meu caro cara Rai. Sempre o provoquei e cobrei pra que escrevesse mais, soltasse a pena, compartilhasse esse dom. Agora, de volta às origens e lá do refúgio dele na roça de Passos (MG), os papos se escassearam mas, sempre que vai à cidade, corre pra alguma lan-house e, devidamente conectado, manda notícias.

Ontem, tarde da noite, tava nós no proseio. Cobrei mais uma vez que escrevesse mais. Ele:

mas eu escrevo, uai. todo dia. é uma sarna. falar em sarna, peguei um berne no umbigo, o trem estufou, virou uma barriguinha, pontuda. parece gravidez. vai nascer um um troço da minha barriga.

hoje eu tentei abortar a larva de mosca varejeira que me fez mal, acho que matei a pobre da criatura lá dentro do casulo dela, agora vou ter que esperar a barriga fazer fagocitose e aproveitar as proteínas da bagaça.

eu tou matutando tudo, e fazendo uns vomitórios. vou te mandar uma histórias das galinha da angola que tou terminando.

eu tou demorando porque foi um caso acontecido na semana passada. tá recente ainda, tem que esperar o sol secar, como diz minha tia.

tou terminando a conversa com as angolas, e elas falam um idioma diferente das galinhas caipiras, inté.

vou te mandar o ovo que acabei de botar.

E aí, pouco antes da 1 da madruga, ele manda e-mail (com outra versão corrigida, enviada às 4:45 da matina). Leio, deliciado, e vou dormir com os sons do Rosa tilintando na cachola. Mas, chega! Vê se não é pra ficar ansioso e cobrar pra que o cara solte o verbo:

A galinha, e o ovo

Arrependimento não mata a gente. Mas em alguns casos devia, pelo menos, causar uma dor qualquer. Em qualquer canto do corpo. Arrependimento devia acontecer antes de ocorrer. Uma paralisia que impedisse senão os atos, os desatinos.

Dias aí para trás, entrei em casa alegre como um galo. Anunciando um grande achado, o ninho das galinhas da angola. Delas que vieram da África ocidental nas naus portuguesas no escuro dos tempos e que ainda agora não se deixam cegar por tão clara domesticação como fazem suas parentes caipiras, trazidas de outros continentes.

Em vez de ostentar valentia nos ringues e se desavergonhar nos terreiros por conta de reles sementes do milho que nem conheciam, as angolas não se amansam nunca de vez. Nunca que entregam seus ovos ao calor de ninhos alheios.

Como ouro, elas os botam amoitados no meio da terra, protegidos nos sujos dos matos, disfarçados, e, quando querem, os trazem já transformados, caminhando nos seus luzidios próprios pezinhos alaranjados, piando baixinho, em bando de ressabiadas angolinhas, todas mais ou menos iguaizinhas, com biquinhos de pardais, com costas listradas. E ariscas. Nunca se arriscam tanto feito qualquer afoito pintainho que vai parar em bocas de rapina.

E o ninho tava bem ali, na mais alta moita entre as sobradas no quintal depois da aração que entregou todo o terreno a plantas recém nascidas, e ao desabrigo.

Órfãs do mato havido em volta, se refugiaram em meio às infantes abobreiras, de rama rala. Cobertura pouca pra tanto instinto.
Descobertas em plena desova, um par de angolas soou o alarme num alvoroço desconhecido, tirado fundo de sua diversa língua. Forte feito um dueto, dolorido e desesperado. Coro diferente da fraqueza tão conhecida de seus pios que sempre parecem tão fracos, tão fracos, tão fracos.

E o ouro cega. E dúzia e meia dos ovos que lá se achavam logo se iam para a cozinha, junto dos outros, de outras galinhas.

Fosse só isso e o caso se acabava. Em omelete, massa de pão de queijo, bolo e óleo quente de frigideira. Mas no caminho do ninho à casa, uma angola, ao pé da porta, em pose ereta, levantada em um desajuste, me aguardava, valente como os ancestrais. E antes que eu entrasse, com sua prole mal terminada, entregou, a mim, à míngua, um ovo, como fosse por troca, dos outros.

Deixou no chão, de pressa, um ovo mole, sem casca, ainda por se fazer. Um ovo altivo, soberbo de tanta luta, de tanta dor. Duro como um desalmado. Ganhei os ovos. Peço um perdão.

Segundo clichê: trilha sonora 🙂

:: Acasos (?) ::

Contei e recontei esse causo dezenas de vezes nos últimos dias. Mas não tive a sensibilidade que a Chris Ramsthaler exprimiu, e na verdade (apesar da surpresa do encontro e da receptividade) reforçam mais ainda a dimensão do carinho e da presença marcantes do seu Toninho — é, meu pai –, tão significativos e vivos que perduram por décadas e mais décadas.

E fico cá matutando sobre como e porque *acasos*. Como disse Guimarães Rosa, *quando nada acontece há um grande milagre acontecendo que não estamos vendo*. E pessoas são elos e instrumentos pra que esses milagres aconteçam. Apesar das minhas trapalhadas, a querídola Rose ficou firme e fomos conferir o show do Paulinho Pedra Azul, a convite e com a participação do camarada Tuia. Além do nosso menestrel Déo, ainda tivemos o prazer de conhecer outra *lenda*, o Tavito.

Mas, além do show, valeu muito também por ter conhecido a Chris — segue o relato dela:

Acaso?

Não posso acreditar em acaso quando falamos de encontros inesperados.

Sim, tive uma surpresa muito grande há uns dias. Show de Paulinho Pedra Azul, em S. Paulo, Bar Ao Vivo. Um bar em S. Paulo… quantos bares, quantos shows, em S. Paulo!

Quantas vezes queremos ver vários e nem conseguimos porque os espetáculos coincidem em dia e hora.
Pois bem! Escolhemos assistir a esta raridade, Paulinho Pedra Azul em Sampa!

Casualmente encontramos Deo Lopes (que não víamos já há alguns anos) poeta-cantor. Sentou-se conosco.
Aí, a surpresa maior nos aguardava, sem que a pudéssemos pressentir.

Tive um amigo, muito amigo, no segundo emprego da minha vida, lá se vão décadas! Saí da empresa, tive outras atividades, o tempo passou… Um dia resolvi procurar esse amigo aqui no facebook. Acabei por encontrar um filho dele, que me passou o e-mail do pai. Começamos uma correspondência por e-mail, porque ele não tinha perfil no face. Conversamos muito. Trocamos notícias, alegrias e tristezas, o que é normal na vida de todos nós. Ele, então, estava trabalhando em Brasília.

Com o decorrer do tempo e de tantas outras coisas que me exigiram dedicação total, parei de escrever para ele. Deixei ‘de lado’ vários amigos, vários encontros programados, por quase 2 anos. Simplesmente não consegui dar conta de tudo, embora grandes amizades, sem dúvida, mereçam nossa total dedicação.
Alguns dias antes do tal show, comecei a pensar muito naquele meu amigo e dizia para minha filha: preciso escrever para o Antonio. Repeti isto várias vezes! Mas não escrevi.

Voltando ao show, o Deo Lopes viu um amigo dele chegando e tratou de conseguir que ele se acomodasse na mesa ao nosso lado. Feitas as apresentações, a surpresa: Paulo Bicarato. Feliz com a coincidência do sobrenome, perguntei se conhecia o meu amigo Antonio. Prontamente disse: meu pai. Só que ele se foi, há 2 meses!

O ambiente, logicamente, não era propício para grandes manifestações de pesar. Só consegui dizer: É…? Que pena!… A tristeza, guardei dentro de mim.

Assim, mais uma vez, não posso acreditar no acaso. Aquele amigo que se fazia presente em meus pensamentos naqueles dias, me mandou alguém muito próximo para me dar a notícia de sua partida. Apesar de tudo, num momento de alegria. Paradoxos da vida!

Só sei dizer que quero muito encontrar novamente vocês, Paulo Bicarato e família.


Paulinho Pedra Azul, Rose & Déo Lopes

:: Miguilim ::

Nesse turbilhão de informações, vira-e-mexe me surpreendo com um jornal da semana passada ou retrasada (algum suplemento cultural que guardei pra ler com calma), ou ainda com algum link aberto numa das dezenas de abas aqui do Firefox (que, da mesma maneira, abri em algum momento e deixei pra ler depois). Aí é que vou tentar me lembrar de onde surgiu aquele link: alguém me enviou? será de algum post do feicebúqui ou tuíter? foi um link-do-link-do-link… de onde? Na maioria das vezes, desisto de tentar rastrear esses passos — fica o gostinho de *mistério*, se contrapondo à instantaneidade de uma googlada pra se checar uma informação simples.

Esse intróito vem pra justificar essa grata surpresa: uma moça italiana comentando nada menos que o *Miguilim*, do Guimarães Rosa. Assisti umas três vezes, tentando captar o que ela diz — é, ainda que descendente de italianos, não *parlo niente, cáspita!*. Me contentei em me deliciar mais com a emoção da moça, que compartilho aqui (depois, descobri o blog dela e a fonte do vídeo):

Ao mesmo tempo, mandei o link pra quem de direito: seu Toninho (sim, meu pai). A resposta veio rápida — curta, mas que ainda vai render outros papos:

Oi, Pô.
Uma análise muito interessante. Destrincha o livro todo.
Pena que não consegui guardar tudo. Em essência, ela diz que se trata de cenas simples, ou aparentemente simples, da vida, de uma vida localizada, mas que se aplica à vida universal. Diz que Rosa não narra uma história, mas a história. É uma história nostálgica, mas não de uma nostalgia puramente lembrança morta do passado, mas uma nostalgia que envolve todo o espaço. Conta, por exemplo, que Miguilim (Migulim, para ela) pergunta à mãe o que é o mar. Diante da resposta da mãe de que o mar é uma coisa muito grande, Miguilim compara a nostalgia ao mar…

Pai.

(Em tempo: *Pô* é meu apelido de infância, é como sou chamado até hoje na *famiglia*.) Do alto da sua vasta (vastíssima!) erudição, meu pai já me confessou que lamenta pouco ter lido o Rosa (comento mais a seguir) e, além das minhas impertinentes referências, é interessante como ele interpreta a interpretação-leitura de uma italiana. Mas, claro, uma coisa puxa outra, e vou eu fuçar aqui no meu baú virtual e reencontro uma mensagem de 2005, do copoanheiro Rai, este sim um legítimo roseano — como se pode comprovar:

Cê não vai acreditar o que sucedeu comigo noite passada. Sonhei que estava na roça do Miguilim, o Mutum. Foi muito legal, acordei emocionado.

No sonho, eu estava vendo ele e a preta véia que é chegada na cachaça e mora num cafofo no fundo da roça, que agora não me recordo do nome e nem consigo encontrar meu exemplar de “Manuelzão e Miguilim”, naquela passagem que eles estão fazendo um túmulo para enterrar as coisas do Ditinho. O mais emocionante é que os dois estavam conversando e só repetiam a frase da mãe enquanto ela lavava o pé do muleque morto e ficava repetindo “como era bonito o meu filhinho, como era bonito o cabelinho dele”, e eles ficavam botando pedrinhas no túmulo e depois começaram a chorar. Foi um sonho, realmente.

O pior é que já procurei o livro para dar uma relida nesta parte, mas acho que minha irmã carregou o dito cujo na última vez que ela esteve aqui em casa. O pior, ou melhor, é que este sonho, como todo sonho, acho, tem toda aquela atmosfera onírica que fica com uma imagem embaçada e não dava para ver direito a cara do miguilim e da preta véia. Eu só recordo que os dois estavam de roupa branca e agachados num lugar que parecia o quintal da roça da minha mãe e que eu estava vendo eles de um lugar meio afastado, que dava para ver as duas siluetas de lado.

Nunca tinha sonhado com nada do Rosa, nem de outros escritores que costumo reler com frequência e paixão, antes e, sinceramente, acho que este foi uma dádiva. Foi uma puta experiência. Pena que durou pouco, pelo menos é o que me parece. Mas é isto, Bicarato, acho que cê vai gostar de saber sobre este sucedido. Agora vou ter que correr que a Dona Maria vai passar aqui para a gente ir ao cinema. Depois a gente proseia mais. Amplexos (como cê mêsss diz) e ósculos.

Rai.

Que o Miguilim é um dos alter-egos do Rosa, todos sabemos. A mítica imagem do médico emprestando os óculos pro Miguilim, que magicamente passa a enxergar o mundo, é antológica. Não à toa, a dona Calina, prima do Rosa, fundou o grupo Miguilim (mais aqui): sou testemunha de como, literalmente, o Rosa abriu horizontes pra muitos garotos e garotas de Cordisburgo, que passaram a enxergar muito além do Mutum. Que o diga a querida Magna, a Menina da Terceira Margem do Rio — reproduzo o causo aqui:

Esse sertão do tamanho do mundo tem veredas que se cruzam e a gente fica sem entender como e por quê. Ou: as veredas existem só pra se cruzarem, mesmo…

Lá pelos idos de 1999, escapei uns dias e fui conhecer Cordisburgo, um *quase-lugar* que foi o berço do Guimarães Rosa. Vai que, tomando uma cerveja num boteco lá, fiquei sabendo dos *Miguilins* –crianças da cidade que eram incentivadas a lerem Rosa para depois apresentarem, narrando/interpretando/re-vivendo cada conto. Mais um pouco de conversa, e consegui agendar uma apresentação exclusiva de alguns Miguilins. Levado à casa de um deles, no quintal, meia dúzia de adolescentes me cercaram e começaram a declamar Burrinho Pedrês, Matraga e muito mais.

Não dá pra descrever a emoção. Mas uma das meninas conseguiu tirar de mim todas as lágrimas que nunca tive, recriando ali, ao vivo e em cores, letra por letra, toda a *Terceira Margem do Rio*. Saí dali mais vivo, mais leve, mais apaixonado pelo Rosa e por todos os Miguilins desse sertão sem fim.

Passam-se mais uns anos e, em 2001, um evento de/sobre o Rosa toma conta da *Casa das Rosas*, em plena Avenida Paulista. Lá, entre filmes, fotos, escritos, trouxeram também alguns Miguilins. Entre eles, revejo a Menina da Terceira Margem, aquela mesma que me fez chorar em Cordisburgo. Revivi e renasci mais uma vez.

Já contei essa historinha aqui mesmo no Alfarrábio, e a novidade vem agora: eis que, de repente, recebo uma mensagem de quem? Ela mesma, a Menina da Terceira Margem, a Magna –sim, pra completar, ela tem um nome mais do que apropriado…

Oi! Sou a Magna do Grupo Miguilim, de Cordisburgo. Vi seu comentário e não pude deixar de me emocionar. Moro em BH e faço Letras na UFMG. Gostaria de trocar idéias.

Li, reli, trili a mensagem, tentando acreditar que era verdade. E é!

Naquele dia, em Cordisburgo, fiz questão de pegar *autógrafos* de todos os Miguilins. Cada um, com letrinhas caprichadas, deixou uma citação do Rosa cercada de desenhinhos. Claro, tenho essa cadernetinha guardada até hoje –o *autógrafo* dessa moça-miguilim, ah! não vendo por nada desse mundo.

Ah, duvidam, é? Taí a prova:

Mas, das histórias e causos do Miguilim, lembro vagamente que, há tempos, li um relato de alguém que teve um parente que provavelmente teria servido de inspiração pra uns dos personagens do conto… (sim, lembrança vaga mesmo). Então, lá vamos nós garimpar essas internets — nas penumbras da memória, sabia que o texto foi publicado num suplemento literário de algum jornalão, mas qual? Fuça daqui, fuça dali (não me perguntem o passo-a-passo), eureka! O texto é do sociólogo Sérgio Abranches, e saiu na Ilustríssima, em 17 de junho de 2012. Se alguém tem dúvidas sobre Miguilim ser um dos alter-egos do Rosa, segue:

Arquivo Aberto – Memórias que viram histórias
Vovô Juca e Miguilim

Curvelo, anos 1950
Sérgio Abranches

Guimarães Rosa é uma influência quase atávica, meio mágica. Nós somos do mesmo pedaço do sertão cerrado mineiro. Nossas biografias têm uma conexão de profunda significação para mim e consequências importantes para Guimarães.

Meu bisavô, avô de minha mãe, era um excepcional médico, em Curvelo, cidade vizinha à Cordisburgo de Guimarães. Era “o médico do Curvelo”, desses que o interior raramente tem, respeitado pela comunidade médica mineira como “par inter pares”. De formação germânica, era austero e distante. Mas sabia deixar claras suas preferências e seu afeto.

Um dos gestos dele que mais me encantavam era o de me entregar um novo estilingue -falávamos bodoque em Curvelo-, na minha infância, sempre que eu chegava para passar as férias.

Ele escolhia a melhor forquilha, o melhor pedaço de couro, a mais elástica câmera de pneu, tudo cortado meticulosamente com seu canivete afiado. Minha mãe, sempre cheia de cuidados, proibia tudo o que lhe parecia perigoso. Bodoque, então, nem pensar.

Chegávamos à casa de “vovô Juca”, ele nos beijava e me dava o novo bodoque, de alta precisão para estilingues artesanais, que eu ostentaria pendurado no pescoço como um colar de galardão.

Sua autoridade de patriarca anulava e calava toda contra-ordem. Se dizia podia, então podia. Se dizia não, era não, universalmente, obediência geral. Logo bodoque podia e pronto.

“Não pode matar passarinho, é só para colher frutas”, dizia.

A precisão era necessária, pois, para colher frutas sem estragá-las, era preciso atingir o ponto mínimo que unia o talo à fruta. Assim colhia mangas, laranjas e mexericas.

Ele nunca me contou de sua vida. O que sei e sabia me foi contado por minha avó e por minha mãe.

Por isso, foi com espanto e maravilhamento que o encontrei, inesperado e desconhecido, ao final da história de “Manuelzão e Miguilim”: o doutor que descobre que Miguilim é curto da vista, lhe empresta os óculos redondos e elimina momentaneamente sua miopia. José Lourenço Vianna, o médico do Curvelo, meu bisavô, entrava a cavalo na história de Miguilim!

“Era o doutor José Lourenço, do Curvelo. Tudo podia.”

Essa descoberta foi, infelizmente tardia. Aconteceu seis meses depois de ele ter morrido, quando eu tinha 16 anos. Acompanhei seus últimos momentos e nunca me esqueci do olhar de amor, orgulho e gratidão, em seus olhinhos muito azuis. O orgulho vinha das conversas longas que tínhamos, eu falando da mais variadas coisas e ele ouvindo, com a vida por um fio, sem forças para falar muito, poupando fôlego. Disse à minha mãe que eu havia me tornando um jovem muito culto.

Queria tê-lo interrogado, aflito de curiosidade, maravilhado e orgulhoso, sobre como chegou ao Mutum para descobrir a miopia de Miguilim.

Descobri depois que sua jornada até o Mutum era, na verdade, a transposição literária da gratidão de Guimarães Rosa ao médico, meu bisavô, que, em sua casa de Cordisburgo, em visita ao seu Rosa, o pai, descobriu que aquele menino predestinado a ser o maior entre os maiores da literatura brasileira era míope.

E lhe emprestou seus óculos redondinhos e ele viu que o seu mundo de Cordisburgo, o qual conhecia por partes, micropedaços que enxergava ajoelhado nas folhagens e nas pedras, sempre muito de perto, sem nunca perceber o conjunto com precisão, era bonito. “O Mutum era bonito! Agora ele sabia”. Miguilim, reproduz aquela descoberta infantil crucial de Guimarães Rosa.

Na minha adolescência, mergulhava nos livros de Guimarães sempre com a sensação de encontrar ecos na minha alma. Ele via com muito mais poesia, profundidade e exatidão aquelas coisas do sertão que me impregnaram de sensações indeléveis e se inscreveram em minha memória inapagáveis.

Sérgio Abranches, PhD, sociólogo, cientista político, analista político e escritor. Autor de Copenhague: Antes e Depois, Civilização Brasileira, 2010, sobre a política global do clima; e de O Pelo Negro do Medo, romance, Record, 2012. Prêmio Jornalistas&Cia HSBC de Imprensa e Sustentabilidade: Personalidade do Ano em Sustentabilidade 2011. Prêmio Chico Mendes de Jornalismo Socioambiental 2013 (rádio).

Mas voltemos ao seu Toninho, comentando outro vídeo que mandei há algum tempo:

Pô, querido filho!

Terminados serviços “urgentes” que preencheram toda a semana, estou me dando uma folga para ver os e-mails, mais devido ao cansaço do que por não ter o que fazer. Foi então que abri o “Trecho do Guimarães Rosa”. Se eu, que nada entendo do Rosa, me maravilhei, imagino você…

O Grande Sertão é, como a Bíblia, inesgotável em seu conteúdo. Quanto mais se volta à sua leitura, mais dele se tiram saberes.

Guimarães é mesmo alguém que, por mais lido e estudado que seja, sempre terá “boa-nova” para comunicar.

Pra completar, o Lima Duarte ainda recita um verso do Catulo da Paixão Cearense, pra mim um dos maiores intérpretes da alma do sertanejo.

Benditos esses homens que sabem captar nuanças do linguajar e idiossincrasias do nosso povo, que são imperceptíveis aos olhos do comum dos mortais. Perpetuam no história o “jeito brasileiro de ser”.

Pai.

Ele se refere a, nada mais nada menos, que Inezita Barroso e Lima Duarte, mais Teo Azevedo na viola. Aliás, sei que, lá na década de 70, a querídola Nydia participou da produção de um espetáculo com o Lima Duarte interpretando o Grande Sertão:

Guimarães Rosa, Augusto Matraga, Riobaldo Tatarana, Diadorim, Manoelzão, Miguilim… Esses cabras me perseguem sem dó, e agradeço a Deus por essa bênção. Se não, como explicar os eternos reencontros com Miguilins?

A pergunta é retórica, não quero nem pretendo achar a(s) resposta(s). E sigo relendo o Rosa.

:: Eis uma Santa ::

Dona Maria Ribeiro da Silva Tavares se encantou, aos 102 anos. Eis aí uma pessoa que dignifica a espécie e considero como a expressão perfeita de como Guimarães Rosa se referia ao *passamento*:

*as pessoas não morrem, ficam encantadas*

Ou, parafraseando o Manuel Bandeira:

*imagino Maria entrando no céu:
– Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
– Entra, Maria. Você não precisa pedir licença*

Mandei a notícia pro seo Toninho (ou: meu pai), que resumiu:

Exemplos de santas e santos como Maria Ribeiro,
graças a Deus, existem e não são poucas(os).
Pena que nossa mídia, QUASE TODA vendida ao crime,
só tem olhos para rebeliões e fugas de presídios.
Enriqueça seu blogue, Paulo, exibindo casos como esse.

Como sou um cara obediente, registro aqui minha pequena homenagem a essa *Santa*. ‘Brigado, dona Maria! 🙂

*Se a mídia se dedicasse a mais coisas boas ao invés de tanta desgraça, talvez a sociedade estivesse contaminada não de medo e vingança, mas de afeto.* (A frase é da Nathalia, que não conheço, e me chegou via Feicebúqui.)

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Maria Ribeiro da Silva Tavares fundou, em 1942, o Patronato Lima Drummond, que abriga presidiários do regime semiaberto

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Dona Maria com o cuidador Roberto Sotello,
em férias na lagoa dos Patos (RS)


Maria Tavares rodeada por seus anjos em 2013,
no patronato Lima Drumond, em Porto Alegre