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:: Calhabau ::

Prosopopeias infames de uma noite etilírica. Pairam no ar ameaças de entreveros amigáveis, sem consumação, visto que, como há-de imperar a cordialidade fraternal, se entoem versos e cantos e palavrórios filosófico-inconsequentes. Descompromisso com a realidade, dir-se-ia talvez, ou processo auto-alienatório compactuado tacitamente entre os envolvidos? Ora, que esse canto torto, feito faca, corte a carne de vocês, diria o poeta, mais cônscio, sempre e claro, do valor intrínseco da palavra musicada.

Mas urge que se desaprenda um monte de coisas. Estude-se, tal um “vagabundo profissional”, o idioleto manuelês, língua nativa dos bocós e dos idiotas, única que cria (e explica) universos absurdos. Só assim para se habilitar a falar e escrever absurdezas e fazer artesanias, e poder exercer a virtude do inútil, no lugar de ser inútil: ler mais…

:: Soneto ::

Se quando o horizonte e tudo acabar
se impressão bater de que tudo cansa
se não tiver mais lágrimas a chorar
se não restar nem um fio de esperança

 

Resta-me, só, dizer mesmo só, pequeno
que mantenha, sempre, coração sereno,
que se imponham força e fé e coragem
maiores que o medo e a vã vertigem

 

Que minhas mãos não almejem nada senão
sonhos, críveis e impossíveis, nada
mais porém além do intrínseco vir-a-ser

 

Que minha alma resgate a essência
de ter ousado, um dia, querer mais bem
e amar por amar, só por bem-querência.

:: Causo de corrida ::

Já dizia o meu velho camarada Jô Amado: mesmo com todos os esforços de Homero, Shakespeare e muitos outros, ocorre que o “causo” nasceu em Minas Gerais. Como de fato é mesmo. E quem disser o contrário, que prove. Segue, portanto:

Foram cerca de 500 quilômetros adentrando as Minas Gerais, na rota que ganhou o nome de um tal “Caçador de Esmeraldas” que, na verdade, era caçador de índios. Mas um trecho de cerca de 100 quilômetros ganhou ares de uma corrida insana. E desproporcional: um caminhão-carreta gigante contra um caminhãozinho-baú. E cada um com “cargas”, ou propósitos, bem distintos: um transportava uma carga pesada, condenada à morte, sofrível; o outro levava cultura, leve.

A “corrida” não fazia sentido, cada qual teria seu destino. Mas ela se fez no espaço comum que compartilhamos: a estrada e aquele trajeto abençoado por um dia iluminado.

Um detalhe, porém, instigou a ‘provocação’ e a disputa. Um detalhe que foi disputado metro a metro, quilômetro a quilômetro, com o grandão ganhando vantagem no passe rápido do pedágio, provável e exatamente por causa do mesmo motivo da corrida maluca.

O fato de o grandão estar à nossa frente não incomodava, em absoluto. Mas o rastro olfativo que emanava, auxiliado pelo vento, tornou-se um monstro a ser derrotado. As ultrapassagens foram lá e cá, dando margem à comemoração temporária de um e outro. Mas as pequenas vantagens que conseguíamos nos trechos de aclive eram rapidamente recuperadas pelo grandão nos trechos de declive.

Mas aí, o detalhe: a carga do grandão se fazia de uns 200, ou mais, cachaços, uns mamíferos bunodontes, artiodáctilos, não ruminantes, ou simplesmente porcões bonitos indo a caminho do abatedouro, destinados a se transformar em torresmos e fartos churrascos. Pobre e cruel destino da vara, que lamentamos sensibilizados na corrida.

O infortúnio dos coitados suínos, porém, não foi suficiente pra evitar induzir à peleja na estrada: o instinto de sobrevivência foi maior, e ultrapassar aquele odor exalado dos pobres porcos se tornou motivo de comemoração. E alívio.

:: Sobre *redes sociais* ::

Há poucos dias, um amigo recente (mas daqueles que a gente tem a impressão que já conhece há décadas) me mandou uma mensagem:

Fala, Bica. Tudo certo?
Você ou a Rose conhecem algum cursinho pré-vestibular popular (voluntário) aqui em Jacareí, ou alguma coisa nesse sentido?

Era o Bruno Vilagra (detalhe: o cara é doutor em História pela USP). Comentei com a Rose e não conseguimos nos lembrar de nenhuma iniciativa desse tipo por aqui. Até que ontem, inesperada e coincidentemente, um ex-aluno dela, o Victor Rodrigues, mandou outra mensagem:

Deixa eu te falar: eu e o Gabriel Belém estamos tentando montar um projeto de cursinho pré-vestibulinho pra alunos carentes aqui em Jacareí. Pra ajudar a estudar a entrar na escola da Embraer, Escola Agrícola, IFSP, Senai, essas escolas…
Aí estamos tentando encontrar pessoas que se disponham a ajudar, com materiais, dando aula, organizando os planos de aula, cedendo espaço etc.

Sincronicidade, conjunção astral, sintonia de gente que tá a fim de fazer algo: seja o que for, na hora lembramos do Bruno e repassamos a mensagem. Como esperado, ele respondeu de presto:

Oi, Rose, tudo bem?
Nossa, muito legal essa ideia deles! Eu tenho muita vontade de ajudar sim. Estou procurando lugares para atuar como voluntário, mas na região é bem difícil. Até pensei no Escola da Família, mas não tem muita coisa na área de cursinhos e tal.
Bom, se você puder nos colocar em contato, eu ficaria muito agradecido.
Beijos!

Também fizemos contato com outra amiga, que igualmente se dispôs:

Nossa, Rô, que legal!
Faço questão de ajudar como puder. Volto na sexta, daí a gente conversa melhor.
Bjo, lindeza.

Matutamos aqui em outras pessoas e, com relação a possíveis locais pras aulas, pensei de cara em ONGs ou instituições beneficentes. Comentei com outra amiga, que já alimentou mais a ideia e lembrou de sindicatos, comentando que outro amigo tem bons contatos nessa área. Repassei a mensagem pra ele, que também se dispôs a ajudar no que der.

Tudo isso em cinco minutos. Enquanto pensávamos em outros potenciais nomes pra acionar, a Rose ficou impressionada com a mobilização rápida, e eu comentei que era essa a motivação fundamental de uma *rede social* que prezasse pelo nome — ingenuidade minha, claro, mas ainda sigo lamentando o caráter meramente comercial e marketístico que as redes ganharam. Mais que as redes: a internet, que sempre sonhamos como uma ferramente poderosíssima de colaboração e de disseminação livre do conhecimento, como sempre e ainda defendemos nós, uns Quixotes cibernéticos (impossível não lembrar dos caríssimos EfeEfe, HDimantas, o saudoso DPádua e incontáveis outros e outras metareciclentos…).

A Rose, contente pela repercussão e adesão quase imediatas de algumas pessoas, ficou mais do que contente, claro. Completei, enfim, que ela foi um dos *nós* que serviu pra amarrar outros nós e, assim, dar início a uma (pequena, inicialmente) rede que, temos certeza, vai render ainda belos frutos.

* * *

P.S.: o Gabriel Belém, que o Victor citou no começo do papo, ganhou uma repercussão bacana quando começou a vender *geladinhos* para estudar na USP. Essa semana saiu o resultado da segunda fase: ele passou em primeiro lugar em Gestão de Ciências Públicas. Aos 17 anos, ingressou na universidade pelo Sisu.

:: Tim-tim, Nearis ::

Com certeza você conhece esse rótulo, mas com outro nome. Bom, se os gringos quiserem fazer justiça (difícil…), esse é o verdadeiro nome de um dos uísques mais consumidos no mundo. (Parênteses: uísque ou bourbon? Sei que todo bourbon é uísque, mas nem todo uísque é bourbon. Ok, brindemos, de qualquer maneira.)

Deixo a Hypeness contar o causo:

Você provavelmente nunca ouviu falar de Nearis Green, um escravo negro de uma destilaria nos Estados Unidos em meados do século XIX. Mas certamente você já ouviu falar do então jovem Jasper Daniel, mais conhecido como Jack Daniel que, 150 anos atrás, começou uma marca de uísque. O que ninguém sabe é que foi Nearis quem ensinou tudo a Jack. Aos poucos a verdadeira história do uísque mais vendido do mundo (e de uma das marcas mais icônicas dos Estados Unidos) vai revelando que quem estava por trás da receita e das técnicas de destilação do Jack Daniel’s era um escravo. [>> segue]

Quem me repassou a novidade, que nem é tão nova assim, foi o brôu Marcelo — que também é o autor da arte do novo rótulo. E vem dele, também, a dica do post da Lana, que emenda outro causo aí:


Nearis Green e Jack Daniel

:: Elias: Matemágica ::

Se é de verdade, confesso que não consegui checar. Mas que é impressionante, isso é! O Elias não sabe ler nem escrever, mas tem um dom mágico. Como disse o brôu Marcelo:

putz, o mais lôco é que o cara não sabe ler números nem conhece os símbolos matemáticos!

ou seja, as contas que ele faz de cabeça NÃO SÃO matemática! são qualquer outra coisa, menos matemática.

:: Literatices: HQ ::

Sou só um pretenso literato: sei que li mais do que a média (o que não é mérito nenhum), mas muito menos do que deveria ou queria ou poderia. No meio dessas infinitas descobertas que são os livros, de uns tempos pra cá venho me embrenhando noutras linguagens: os quadrinhos. Muito por culpa dos meus irmãos, o Marcelo e o Cacá, que abriram a Monkix. De zines a autores independentes, passando por adaptações de clássicos da literatura e outras surpresas, tem de tudo um pouco lá: um pequeno universo do que há de mais expressivo na área. Sem contar que, vira-e-mexe, tem algum lançamento ou tarde de autógrafos ou um auê qualquer com direito a cerveja e rock’n roll.

Da leva mais recente, destaco dois livros — diametralmente distintos no tema e na linguagem, mas com algo em comum: sensibilidade. O primeiro, uma ficção marcada pelos traços mais suaves do Guilherme Petreca, mescla piratas, bruxas, malandros e monstros na jornada muda do menino Ye, numa narrativa fantástica pincelada de aventura e magia.

Já o segundo, Ghetto Brother, vem com traços mais ‘brutos’, como aliás convém ao roteiro: o cenário de guerra das gangues do Bronx na década de 1970, e a busca pela paz liderada por Benjy Melendez, num histórico acordo com os líderes das gangues que inspirou filmes como Warriors – Os Selvagens da Noite e é considerado o considerado o marco inicial da cultura hip hop. Tudo fruto das pesquisas do fotógrafo alemão Julian Voloj, traduzido nas ilustrações da também alemã Claudia Ahlering.

Sei que esse é só um registro das minhas parcas impressões, e tá longe de ser uma resenha mais profunda (nem tive essa pretensão): fica como dica pra quem se interessar. Dicas, aliás, que vieram do Marcelo, que saca tudo e mais um pouco de quadrinhos: pode charmar ele aí no feicebúqui que ele responde. Mas — garanto! — vale a pena ir pessoalmente lá na Monkix pra bater um papo com ele.

:: Momento jabá ::
>> Monkix: o site
>> Monkix no Feice

:: Guarabyra: um Causo ‘Licoroso’ ::

Sabe aquele típico causo, quando um cantador-contador relembra quando e como foi feita determinada música? E, em se tratando de uma canção que faz parte do repertório popular, ganha um tom quase que familiar pra quem ouve o causo. Foi o que aconteceu em abril, no EducaMais Jacareí, num show memorável do meu camarada Tuia Lencioni, lançando o CD ‘Reverso Folk’, com as participações especialíssimas do Tavito, Guarabyra e Zé Geraldo. Lá pelas tantas, o Guarabyra soltou o causo. Deixemos que ele conte.

Íntegra do show pode ser (re)vista aqui, num oferecimento da TV Câmara Jacareí.

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“O real não está no início nem no fim, ele se mostra pra gente é no meio da travessia…”

Guimarães Rosa
[Grande Sertão Veredas]