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:: Guarabyra: um Causo ‘Licoroso’ ::

Sabe aquele típico causo, quando um cantador-contador relembra quando e como foi feita determinada música? E, em se tratando de uma canção que faz parte do repertório popular, ganha um tom quase que familiar pra quem ouve o causo. Foi o que aconteceu em abril, no EducaMais Jacareí, num show memorável do meu camarada Tuia Lencioni, lançando o CD ‘Reverso Folk’, com as participações especialíssimas do Tavito, Guarabyra e Zé Geraldo. Lá pelas tantas, o Guarabyra soltou o causo. Deixemos que ele conte.

Íntegra do show pode ser (re)vista aqui, num oferecimento da TV Câmara Jacareí.

:: Febeapá ::

Fiquem à vontade pra classificar como non sense, imbecilidade, irracionalidade, intolerância ou simplesmente burrice mesmo — ou tudo isso junto e mais um pouco. Ou, ainda, um ensaio digno do Teatro do Absurdo, do Beckett, e as infinitas possibilidades de exploração da *incomunicabilidade humana*, como lembrou meu caro amigo Claudio Mendel — na definição de Martin Esslin:

*O teatro do absurdo se esforça por expressar o sentido do sem sentido da condição humana, e a inadequação da abordagem racional, através do abandono dos instrumentos racionais e do pensamento discursivo e o realiza através de ‘uma poesia que emerge das imagens concretas e objetificadas do próprio palco’*

Quem me mandou foi o brôu Marcelo, que comentou: *nem nos seus delírios mais febris Stanislaw Ponte Preta poderia imaginar um Febeapá nesse nível*.

O causo é do Gamba Junior, que não conheço, mas agradeço desde já. Segue:

14 de abril às 09:14 · Rio de Janeiro, RJ

UM CAUSO SOBRE A ÚLTIMA MANIFESTAÇÃO PRÓ-IMPEACHMENT

Eu fui à passeata para fotografar. Na ala pró-intervenção militar estava um grupo com banda, a TFP. Fui pedir um folheto da instituição para ler os absurdos. Como já havia acabado, um senhor foi pegar no carro um último e me deu. Enquanto ele me explicava o conteúdo do fôlder que tinha como título “para os sucessores do PT”, uma fiscal da passeata se aproximou e perguntou que folheto o senhor estava distribuindo. Eu mostrei, mas ao ver o título começou a bradar aos seus parceiros que tinha alguém distribuindo folhetos do PT.

Muitos outros vieram e ele explicava que era da TFP e não do PT. Eu também expliquei que o título era: “aos sucessores do PT”, mas não adiantou, ela gritava “então, do PT, sucessor do PT é PT”! Chegou mais gente dizendo que se ele era do PT não podia estar ali, começaram a querer expulsar o velhinho e sua banda. A esta altura eu já estava defendendo o senhor de tamanha burrice: “o texto é para quem for substituir, não para quem está!” Ele só repetia “não sou PT, sou TFP!”

A horda de indignados coxinhas aumentava até que outro senhor do grupo de fiscais se meteu no meio e berrou “vocês estão loucos? Eles são da TFP – Tradição, Família e Propriedade, o grupo que apoiou a ditadura militar e que é de extrema-direita”. Explicou mais uns detalhes sórdidos enquanto os demais se acalmavam. Todos os fiscais entenderam, se acalmaram, abraçaram o velhinho da TFP, pediram desculpas e a bandinha seguiu com a passeata.

Esse causo vai entrar para minha história como o dia em que tive que defender um senhor da TFP.

Esse causo vai entrar para os anais da ignorância de como um grupo tão ignorante pode achar que a TFP defendia o PT.

Esse causo vai entrar para história provando que essa nova direita considera a TFP muito à esquerda dela!

(História verídica)

P.S.: nada a ver, ou, sei lá: enquanto rascunho isso aqui tá tocando Aqualung, do Jethro Tull.

:: Rádio Rock ::

Lá nos longínquos 80’s e 90’s, lá em Guará, havia uma galera que produzia uns programas independentes e alternativos de rádio, only rock’n’roll. Tudo ao vivo, com uma boa (over)dose de improviso. Invariavelmente, o estúdio da rádio era ‘invadido’ por uns & outros, que sempre davam um pitaco aqui e ali e interferia na ‘programação’ — que, na verdade, era uma grande brincadeira. Patrocínio? Eram amigos que se cotizavam pra comprar o horário da rádio, e olhe lá…

Um dos mais expressivos foi o ‘Ressonância’, esse aí que eu ‘vesti a camiseta’, numa foto lá dos tempos da faculdade de botecos antigos, ao lado dos comparsas de República Marcos Correa e Marcelo Pedroso.

E no último sábado parte desses dinossauros se reuniu nos estúdios da 97,1 FM pro ‘Ressonância Especial Quando a Rádio Era Rock’: Luiz Carlos Verza, Beto Branco, Luciano Amazonas e Petrônio Vilela — são os quatro elementos aí da foto mais abaixo.

Mas, com vocês, seguem aí quase três horas com as mais variadas expressões do rock:


Eu, Marcos & Marcelo


Luiz Carlos, Luciano Amazonas, Petrônio e Beto Branco

Segundo clichê: com a valiosíssima colaboração do Luís Ricardo, seguem os nomes dos responsáveis culpados pelos programas:

.:: Ressonância: Tchélo Nunes [in memorian]
.:: Overdose: Luiz Carlos
.:: Radiação: Petrônio
.:: Geração 90: Chico
.:: Comando Brasil: Oldemar Telles e Luís Ricardo

Terceiro clichê: e o post atiçou a prodigiosa memória do meu irmão, o Marcelo, que manda mensagem e o link pra *Amanhã*, do Caetano:

*sobre o *Comando Brasil*: o programa rolava aos sábados à noite, e essa foi uma que eles tocaram num dia 31 de dezembro, quase certeza que foi 1988*

Me assusto, claro, e pergunto se houve algo marcante naquela noite, enquanto confiro no Google em que dia da semana caiu aquele tal de 31/12/88 — é, foi um sábado! E ele, como se fosse a coisa mais óbvia e clara do mundo:

*31 de dezembro, um sábado, eles tocaram *Amanhã*, do Caetano. O Oldemar ainda falou uma mensagem de ano novo antes da música. Saímos do programa, fomos pra casa cear e depois, Itaguará.

Ele se refere ao Itaguará Country Clube, palco de réveillons obrigatórios — só não digo também *inesquecíveis* porque, invariavelmente, o ano começava com um certo teor etílico algo acima do normal, o que frequentemente provocava amnésia…

Erramos: Marcelo também acaba traído pela memória prodigiosa — ele me chama e avisa:

*ah, uma lembrança que me veio ontem, vale a correção: a versão de *Amanhã* que o Oldemar tocou no programa foi do Guilherme Arantes, e não do Caetano.

Então, taí:

Mas, ainda assim, fiquemos também com o Caetano, e com a bela lembrança do Marcelo:

:: Trevas Culturais ::

~ Breve Histórico ~

Estamos em um cidade que se orgulha de sua pujança econômica, de ser um polo tecnológico, de se autointitular a *capital* da região, de estar na vanguarda (?), de ser terra natal do modernista (e nacionalista) Cassiano Ricardo.

A Fundação Cultural local, batizada com o nome do poeta, encaminha à Câmara o projeto pra criação do Sistema Municipal de Cultura. Mas eis que do texto original são extirpadas, sem dó nem piedade, todas as menções a *diversidade*, *transversalidade* e afins, excluindo trechos e conceitos como *respeito às diferenças culturais*, *liberdade de expressão e criação*, *combater a discriminação e o preconceito de qualquer espécie ou natureza*, *direito à identidade, diferenças e diversidade culturais*.

O autor da façanha é um senhorzinho de 70 anos, um oriental de feições simpáticas que lembra aquele feirante atencioso e bonachão. Mas, do alto de sua quinta (5ª!) legislatura, o senhor Walter Katsunori Hayashi conseguiu, numa facada só, sugerir a alteração de 22 artigos do texto original, mutilando completamente o conceito, a forma e o conteúdo da proposta.

A justificativa do sr. Hayashi seria risível, se não fosse trágica e remetesse a mesma cidade vanguardista às brumas medievais (putz!, consegui). E, com toda candura, ele diz com todas as letras em entrevista à tv que, ironicamente, se chama *vanguarda* — confiram com seus próprios olhos e ouvidos aí no vídeo.

– O texto original acabou sendo aprovado, após a mobilização da classe artística e cultural. Mas passou raspando, com o placar final de 11 a 9. Ou seja: o medievalismo segue vivo, e à espreita, pronto pro próximo bote [*].

Pra saber mais: “Diversidade Cultural” incomoda vereadores da oposição em São José

[*] Basta conferir, por exemplo, a reação dessa moça ao extrapolar toda sua energia em nome do *povo cristão* e da *família joseense*: clique aqui.

:: Travessia ~ Margem ::

Camarada Luciano Coca manda a provocação, a partir de *cena registrada no Bairro do Raizeiro, zona rural de Parahytinga, São Luiz, em um fim de tarde primaveril*:

Nosso novo desafio: resuma em uma frase qual é o sentimento que essa cena desperta em você. Ou seja: “Que encanto é esse?”.
Solte sua imaginação e boa viagem.

E a cena:


Como sempre, soltei lá, ainda que impunemente:

*margens do porvir, terceiras margens no navegar preciso à luz do ser tão humano*

É mais do que óbvia a referência ao Guimarães Rosa, e a um de seus mais emblemáticos contos (talvez *o* conto). Mas cena diz muito mais, e poderia ficar horas e horas repetindo-a, e a cada momento surgiriam novas interpretações. Essa *provocação* do Coca, e essa riqueza infinita de cenas, cores, gentes, cheiros e paisagens, integram um projeto maior do próprio Coca, o Revelando o Vale:

uma jornada fotográfica pelas histórias, estórias, paisagens, miragens e cenas, tradições e costumes da Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte de São Paulo.

O acervo tá crescendo a cada dia, mas bem sei da missão impossível a que o Coca se propôs: essa nossa região é pródiga em belezas e gentes e causos. Aliás, pra ficar ainda mais impossível: duvido que o camarada conte, em causo, a feitura de cada foto…

Mas, a propósito, eis que o jornal Estado de Minas dá um tempo nas manchetes espúrias desses tempos nebulosos que vivemos e nos brinda com uma reportagem pra lá de bacana:

Estado de Minas inicia homenagens aos 60 anos da obra fundamental de João Guimarães Rosa com relatos das jornadas de vidas e mortes de anônimos Diadorins do sertão mineiro em busca da própria identidade. Pessoas que, como a misteriosa criação do escritor, tiveram coragem para enfrentar os perigos e, tão certas de si, vivem “o calor de tudo”.

***Travessia***
Gustavo Werneck (textos), Alexandre Guzanshe (fotos) e Fred Bottrel (vídeos)
>> confira aqui

Só pra constar, registre-se o pretenso ensaio que cometi em 2002, pra marcar o início dessa história toda:

Foi publicado originalmente na NovaE no dia 19 de maio de 2002, exatamente no aniversário de 50 anos do início da viagem que resultou no *Grande Sertão: Veredas*.
>> confira aqui

:: Petaloso Pretupitério ::

Que a língua é viva e tem dinâmica própria a gente já sabe. E vive e se multiplica e se replica independentemente e à revelia e contra as regras academicistas. Por isso é linda e apaixonante e, por si mesma, inspiradora. Que o diga o Mestre-maior-de-todos, Guimarães Rosa:

*De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira… Mas ainda haveria mais, se possível…: além, dos estados líquidos e sólidos, porque não tentar trabalhar a língua também em estado gasoso?*
João Guimarães Rosa, em carta a João Condé (1946)

Claro que não resisto a citar o Rosa, ainda que impunemente, em um textinho gasoso e improvisado como esse. Improviso e gambiarra que também são ingredientes dessa alquimia que (re)transfigura a língua permanentemente. Ou: ó p’cê vê..

Mas isso porque, por intermédio ou culpa do mestre Sergio Léo, fico sabendo da deliciosa história do delicioso causo do surgimento da palavra *petaloso*, em italiano. Mestre SLeo invoca o *não-preconceito linguístico*, com propriedade, o que não tira o sabor e o colorido da poesia que nasceu de um *belo erro* (transgressão voluntária ou não) e da sensibilidade da professora: *petaloso* foi criada por Matteo, de 8 anos.

“Petaloso”. Esta é a mais nova palavra do idioma italiano e foi criada por um menino de 8 anos de idade, em um “erro” escolar. O curioso caso gerou tanta repercussão na Itália que até o primeiro­-ministro, Matteo Renzi, e a montadora Fiat já adotaram a expressão, que significa literalmente “ter muitas pétalas”, mas se refere a algo “bonito”. Matteo, filho do casal Lisa e Marco, escreveu a palavra “petaloso” durante uma aula na escola primária “Marchesi”, localizada na cidade de Copparo, região da Emilia Romagna. A palavra foi bem­ vista pela professora Margherita Aurora, de 42 anos, que divulgou a criação de Matteo.

Em poucas horas, “petaloso” já despontava nos trendings topics do Twitter e do Facebook. “Matteo foi muito inteligente, mas isso poderia ter acontecido com qualquer outra criança da turma, pois eu sempre tento desenvolver nos meus alunos uma certa fantasia, criatividade. Acredito que o que aconteceu tenha sido fruto do trabalho que fazemos todos juntos”, disse Aurora.

De acordo com a professora, a palavra surgiu durante uma atividade sobre adjetivos. O menino escreveu “petaloso” para definir a palavra “flor”. Apesar de Aurora circular o termo com uma caneta vermelha para sinalizar o “erro”, acrescentou um comentário na correção para estimular a criança: “belo”. “Apesar da palavra não existir, gostei dela. Por isso, recomendei enviá­-la à Academia Crusca para uma avaliação”, explicou Aurora. Após analisar o novo termo, a Academia admitiu que a palavra pode ser incorporada ao idioma italiano caso seu uso passe a ser recorrente.

Matéria original da Ansa:
Menino de 8 anos inventa nova palavra no idioma italiano
“Petaloso” já foi usada pelo premier Renzi e pela FCA

Se a criatividade e liberdade e *molecagem* do Matteo e das crianças são naturais, consolo-me por saber que esse mesmo espírito lúdico pode — e deve! — ser preservado. E a gente brinca e tem o privilégio de respirar e compartilhar os ares e paisagens de algumas *crianças*. Claro que, obviamente, há ares e lugares e paisagens que favorecem a proliferação de certas espécies especiais, estas, por sua vez, genitoras de espécimes sui generis e endêmicos como um Marquinho Rio Branco. Há outros diversos, nascidos e criados em bambuzais e amamentados em alambiques imemoriais, alguns até que camaleonicamente se disfarçam de professores ou fotógrafos ou jornalistas ou açougueiros ou advogados (ou… ou…), mas todos cientes da missão sagrada de vivenciar e difundir a gostosa e saudável loucura de se reinventar e transgredir a cada dia, a cada lua. E, pois, abram aspas:

Claro que, enquanto *cidadãos de bem* e *defensores da família brasileira* que somos, permitimo-nos o uso de palavras de baixo calão somente em casos excepcionais, e/ou como exercício pleno da nossa expressão mais pura. Que interjeição ou exclamação, por exemplo, é mais clara e direta que um sonoro *putaqueopariu!*?

Mas, com o intuito de enriquecer nosso léxico já tão maltratado, filho bastardo dessa inculta e bela, fica, pois, instituída a mais genuína contribuição de Jacareí não apenas pras letras brasílicas, mas pra todo o mundo, quiçá o universo — e não poderíamos deixar de registrar tão nobre gesto, digno, naturalmente, do Domun Lolerapa #:

Cultora de um vocabulário à la Rui Barbosa, mas não satisfeita, de lavra própria a digníssima sra. Rose Bicarato cunhou o termo, que carece ainda de um estudo à altura por parte de nossos filólogos e quetais — interjeição? exclamação? adjetivo? substantivo? ou ainda um vocábulo que transcende a gramática convencional, sendo multicaracterizado como potencialmente detentor, a um só tempo, de todos os atributos de todas as classes gramaticais?

Toda essa verborragia tenta fazer jus a um momento tão solene — mas apenas tenta, em vão, por maiores que sejam os nossos (parcos) esforços. Resignemo-nos, pois, à grandeza da ilustríssima e nobilíssima sra. Rose Bicarato, e exaltemos sua expressão maior:

*PRETUPITÉRIO*

Que assim seja.

Ou: de como a visão pura (um *belo erro*) da criança de 8 anos ganhou *vida* sob o olhar lúdico e sensível da professora.

# Domun Lolerapa: fui desafiado pelo camarada Luciano Coca a integrar tão ambicioso projeto e, ainda que ciente das minhas limitações, aceitei honrado. Mas, como tudo o que vem de Parahytinga, São Luiz, e de mentes tão inquietas e ébrias como a de cidadãos como o supracitado (típicas, aliás, daqueles rincões), o projeto foi postergado — ou melhor, foi colocado em algum barril de carvalho pra envelhecer e ganhar aroma e sabor. Enquanto isso, o Coca saiu por aí, tirando retratos e mais retratos do nosso Vale do Paraíba (tenho pra mim que, na verdade, ele foi contratado pra algum projeto secreto do IBGE pra fazer o censo das porteiras por esses sertões nossos). Ah! sobre o Domun Lolerapa, saiba mais aqui.

:: Pesadelo Refrigerado ::

Se há algo que sempre me intrigou é o fascínio que os EUA exercem sobre uma parcela considerável dos brasileiros (assim como no resto do mundo, mas fiquemos por aqui), e dentro dessa parcela outra mais considerável devido, em tese, ao nível cultural e de instrução. Dirão que é ingenuidade minha: nem o acesso a uma formação cultural razoável é garantia de bom-senso e discernimento, nem a autopropaganda estadunidense deveria ser menosprezada.

Mas a recente (ou nem tão recente) e crescente onda reacionária, que não raro evoca *valores* importados lá do país do norte (num patriotismo patético e contraditório ao vestir a camiseta canarinho), e que tem como um de seus paradigmas o sonho de consumo de morar em Miami, amplifica essa minha sensação de intriga. (Ressalte-se que sou um cara que não alimenta, nem nunca alimentou, nenhum sentimento xenófobo, e o que se segue são links e fatos e a análise visceral de um… estadunidense.)

Como, por exemplo, exaltar um país campeão de massacres, vários cometidos em pacatas escolas? Ou onde resistem — e se multiplicam — abomináveis homens de capuz, excrescências de ares medievais? Ou ainda onde rancheiros racistas se acham no direito de fazer suas próprias leis? Ou, por fim, onde na *terra do progresso* o que se vê é a proliferação de homeless inservíveis, que apenas, e tão-somente, enfeiam e custam caro? Isso pra não falar do insano apoio ao nome do Donald Trump e da ainda mais insana política de incentivo à indústria da guerra, e às guerras, entre outras aberrações.

Talvez a paranóia existencial que moldou a cultura estadunidense explique isso tudo — e retroalimente isso tudo. Sintomaticamente, pipocou (ou viralizou) nas redes um trecho da série The Newsroom, da HBO (thanks, brôu Marcelo) — volto logo após o vídeo:

E, mais emblematicamente ainda, tive a grata surpresa de ganhar um daqueles presentes absolutamente inesperados, mas que parecem vir no *momento certo*. A gentileza foi do grande camarada Carlos Bueno Guedes — um livro que, confesso, não conhecia: *Pesadelo Refrigerado*, o livro censurado de Henry Miller, nesse interessante artigo que achei na Revista Bula. Vale a pena ler o artigo, mas pincei alguns trechos do prefácio:

*… Chamar isso aqui de sociedade de povos livres é uma blasfêmia. O que temos a oferecer ao mundo além da superabundante pilhagem que com total indiferença arrancamos da terra sob a maníaca ilusão de que essa atividade insana representa progresso e iluminação?
[…]
*… não é um mundo em que eu queira viver. É um mundo adequado a monomaníacos obcecados com a ideia de progresso — mas um falso progresso, um progresso que fede. […] o sonhador cujos sonhos não sejam utilitários não tem lugar neste mundo.*

Miller escreveu isso em plena 2ª Guerra — depois de passar uns 10 anos na Europa, voltou e fez uma viagem de uns três anos pelos EUA — o livro é o relato dessas impressões de viagem, falando tudo o que ia contra o sentimento patriótico pra lá de exacerbado naquele momento. Mas, se naquele contexto a guerra era até um pretexto (discutível) pra justificar o comportamento doentio da nação, hoje nem esse pseudo-pretexto há (ou há, mas faz parte exatamente dessa cultura que se alimenta do medo, do ódio e da dor): é a cegueira de um povo que não admite, não quer ver, o fosso cruel que eles mesmos criaram. É esse *tipo sociológico*, ao mesmo tempo vítima e algoz, que faz parte de uma sociedade doentia — e que o Miller apontou e descreveu com precisão há uns 70 anos, mas segue mais (morto-)vivo do que nunca.

> também no Medium

:: Língua: Vida, Cinzas ::

Sob a tristeza de ver a notícia e as imagens, e no calor (literal) do incêndio que destruiu o Museu da Língua Portuguesa, fui até a estante e peguei o meu exemplar n° 601 (de uma tiragem de 10 mil) da edição comemorativa dos 50 anos do *Grande Sertão: Veredas*, com o catálogo e o DVD da instalação montada pela Bia Lessa pra inauguração do Museu, em 2006. Abri o catálogo a esmo e tirei a foto (ao lado), mas só depois de publicá-la fui reler todo o catálogo — e a página que escolhi (ou que me escolheu) tinha um quê de profética:

*A linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente. Isto significa que como escritor devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo necessário até ela ser novamente vida. O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas.*
João Guimarães Rosa

Me arvorei em *ostentar* que, sim!, tenho em mãos parte do acervo do Museu. Ainda que eu saiba que todo o acervo é digitalizado, o fato de ter o catálogo e o DVD, presente da minha querídola Rose, me trouxe a lembrança de ter visitado a exposição de abertura, com a Rose, o que me deu outro significado ao próprio prédio e, claro, ao presentaço.
Mas acho que essas palavras não vão sair da minha cabeça tão cedo:

*A linguagem e a vida são uma coisa só. […] O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas.*

Sei, porém, que há uns tantos abnegados que resistem em buscar essa *porta para o infinito* infefinidamente, ainda que tenham(os) que nos embrenhar *sob montanhas de cinzas*…

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“O real não está no início nem no fim, ele se mostra pra gente é no meio da travessia…”

Guimarães Rosa
[Grande Sertão Veredas]