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Que a língua é viva e tem dinâmica própria a gente já sabe. E vive e se multiplica e se replica independentemente e à revelia e contra as regras academicistas. Por isso é linda e apaixonante e, por si mesma, inspiradora. Que o diga o Mestre-maior-de-todos, Guimarães Rosa:

*De certo que eu amava a língua. Apenas, não a amo como a mãe severa, mas como a bela amante e companheira… Mas ainda haveria mais, se possível…: além, dos estados líquidos e sólidos, porque não tentar trabalhar a língua também em estado gasoso?*
João Guimarães Rosa, em carta a João Condé (1946)

Claro que não resisto a citar o Rosa, ainda que impunemente, em um textinho gasoso e improvisado como esse. Improviso e gambiarra que também são ingredientes dessa alquimia que (re)transfigura a língua permanentemente. Ou: ó p’cê vê..

Mas isso porque, por intermédio ou culpa do mestre Sergio Léo, fico sabendo da deliciosa história do delicioso causo do surgimento da palavra *petaloso*, em italiano. Mestre SLeo invoca o *não-preconceito linguístico*, com propriedade, o que não tira o sabor e o colorido da poesia que nasceu de um *belo erro* (transgressão voluntária ou não) e da sensibilidade da professora: *petaloso* foi criada por Matteo, de 8 anos.

“Petaloso”. Esta é a mais nova palavra do idioma italiano e foi criada por um menino de 8 anos de idade, em um “erro” escolar. O curioso caso gerou tanta repercussão na Itália que até o primeiro­-ministro, Matteo Renzi, e a montadora Fiat já adotaram a expressão, que significa literalmente “ter muitas pétalas”, mas se refere a algo “bonito”. Matteo, filho do casal Lisa e Marco, escreveu a palavra “petaloso” durante uma aula na escola primária “Marchesi”, localizada na cidade de Copparo, região da Emilia Romagna. A palavra foi bem­ vista pela professora Margherita Aurora, de 42 anos, que divulgou a criação de Matteo.

Em poucas horas, “petaloso” já despontava nos trendings topics do Twitter e do Facebook. “Matteo foi muito inteligente, mas isso poderia ter acontecido com qualquer outra criança da turma, pois eu sempre tento desenvolver nos meus alunos uma certa fantasia, criatividade. Acredito que o que aconteceu tenha sido fruto do trabalho que fazemos todos juntos”, disse Aurora.

De acordo com a professora, a palavra surgiu durante uma atividade sobre adjetivos. O menino escreveu “petaloso” para definir a palavra “flor”. Apesar de Aurora circular o termo com uma caneta vermelha para sinalizar o “erro”, acrescentou um comentário na correção para estimular a criança: “belo”. “Apesar da palavra não existir, gostei dela. Por isso, recomendei enviá­-la à Academia Crusca para uma avaliação”, explicou Aurora. Após analisar o novo termo, a Academia admitiu que a palavra pode ser incorporada ao idioma italiano caso seu uso passe a ser recorrente.

Matéria original da Ansa:
Menino de 8 anos inventa nova palavra no idioma italiano
“Petaloso” já foi usada pelo premier Renzi e pela FCA

Se a criatividade e liberdade e *molecagem* do Matteo e das crianças são naturais, consolo-me por saber que esse mesmo espírito lúdico pode — e deve! — ser preservado. E a gente brinca e tem o privilégio de respirar e compartilhar os ares e paisagens de algumas *crianças*. Claro que, obviamente, há ares e lugares e paisagens que favorecem a proliferação de certas espécies especiais, estas, por sua vez, genitoras de espécimes sui generis e endêmicos como um Marquinho Rio Branco. Há outros diversos, nascidos e criados em bambuzais e amamentados em alambiques imemoriais, alguns até que camaleonicamente se disfarçam de professores ou fotógrafos ou jornalistas ou açougueiros ou advogados (ou… ou…), mas todos cientes da missão sagrada de vivenciar e difundir a gostosa e saudável loucura de se reinventar e transgredir a cada dia, a cada lua. E, pois, abram aspas:

Claro que, enquanto *cidadãos de bem* e *defensores da família brasileira* que somos, permitimo-nos o uso de palavras de baixo calão somente em casos excepcionais, e/ou como exercício pleno da nossa expressão mais pura. Que interjeição ou exclamação, por exemplo, é mais clara e direta que um sonoro *putaqueopariu!*?

Mas, com o intuito de enriquecer nosso léxico já tão maltratado, filho bastardo dessa inculta e bela, fica, pois, instituída a mais genuína contribuição de Jacareí não apenas pras letras brasílicas, mas pra todo o mundo, quiçá o universo — e não poderíamos deixar de registrar tão nobre gesto, digno, naturalmente, do Domun Lolerapa #:

Cultora de um vocabulário à la Rui Barbosa, mas não satisfeita, de lavra própria a digníssima sra. Rose Bicarato cunhou o termo, que carece ainda de um estudo à altura por parte de nossos filólogos e quetais — interjeição? exclamação? adjetivo? substantivo? ou ainda um vocábulo que transcende a gramática convencional, sendo multicaracterizado como potencialmente detentor, a um só tempo, de todos os atributos de todas as classes gramaticais?

Toda essa verborragia tenta fazer jus a um momento tão solene — mas apenas tenta, em vão, por maiores que sejam os nossos (parcos) esforços. Resignemo-nos, pois, à grandeza da ilustríssima e nobilíssima sra. Rose Bicarato, e exaltemos sua expressão maior:

*PRETUPITÉRIO*

Que assim seja.

Ou: de como a visão pura (um *belo erro*) da criança de 8 anos ganhou *vida* sob o olhar lúdico e sensível da professora.

# Domun Lolerapa: fui desafiado pelo camarada Luciano Coca a integrar tão ambicioso projeto e, ainda que ciente das minhas limitações, aceitei honrado. Mas, como tudo o que vem de Parahytinga, São Luiz, e de mentes tão inquietas e ébrias como a de cidadãos como o supracitado (típicas, aliás, daqueles rincões), o projeto foi postergado — ou melhor, foi colocado em algum barril de carvalho pra envelhecer e ganhar aroma e sabor. Enquanto isso, o Coca saiu por aí, tirando retratos e mais retratos do nosso Vale do Paraíba (tenho pra mim que, na verdade, ele foi contratado pra algum projeto secreto do IBGE pra fazer o censo das porteiras por esses sertões nossos). Ah! sobre o Domun Lolerapa, saiba mais aqui.