Escolha uma Página

“Senhor São José”: um título em letras garrafais, uma foto grande abrindo as quatro colunas centrais da página, seguida de um mosaico de fotos menores, e o texto preenchendo as duas colunas laterais. Na foto maior, o close de um senhor de seus 80 e poucos anos fazendo graça, com uma lente de aumento em um dos olhos. A foto do Pedro Ivo Prates se tornou emblemática, um ícone e “foto oficial” que inspirou charges e caricaturas do dr. Altino Bondesan, e o título “Senhor São José” se tornou sinônimo do cronista maior da cidade.

Quem resgatou o causo foi o Hélcio Costa, num texto bem bacana: “Senta que lá vem história…” Fui o repórter escalado pra entrevistar e escrever o perfil do dr. Altino naquela página antológica que, além de ter feito história, me rendeu boas surpresas: como um causo puxa outro causo, senta que lá vem história…

Uns bons anos depois daquela matéria, talvez mais de uma década, a Ana puxou conversa comigo no Feicebúqui. Eu não a conhecia, mas logo o sobrenome dela a “entregou”: Ana Bondesan. Filha do dr. Altino, ela me agradeceu pela matéria, disse que foi o melhor perfil escrito sobre ele (ainda que apenas uma página de jornal tenha sido pouquíssimo pra fazer um perfil digno dele) e até emolduraram a página, exposta num quadro na casa da família. Agradeci a gentileza dela, emocionado, e me senti gratificado: um repórter nunca sabe, na verdade, qual a extensão daquilo que escreve e publica, mas quando vem um reconhecimento desses, espontâneo e sincero, a gente sabe que vale a pena.

Ou, como bem disse o Hélcio: “Jornalismo se faz de grande coberturas, furos, reportagens e entrevistas especiais. Mas também se faz de pequenos achados, um título bem feito, uma imagem que surpreenda, a simplicidade de uma capa que externe toda emoção da notícia. Nesse instante, jornalismo é pura ourivesaria, é encontrar, no carvão, o diamante.”

***

Mas o dr. Altino era personagem onipresente na redação do extinto ValeParaibano. Ainda que ele não tivesse uma coluna fixa, eram quase diárias suas crônicas, que enriquecia o jornal com um misto de erudição e simplicidade, abordando temas os mais variados: de causos antigos e histórias sobre São José a fatos corriqueiros, cotidianos, sempre temperados por citações, mas nunca com ostentação.

Eu disse que ele era personagem onipresente na redação, mas acho que, na verdade, nunca o vi ali pessoalmente. Ele simplesmente deixava, na recepção do jornal, dia sim e outro também, um envelope com o texto datilografado. Às vezes, em envelopes minúsculos com uma folha dobrada milimetricamente dentro. O detalhe: além de não assinar os originais, nem mesmo o envelope vinha com remetente ou destinatário. Não era necessário: apenas a rubrica inconfundível bastava.

Durante alguns anos, fui o editor de “opinião” do jornal, responsável pela página 2. As cartinhas do dr. Altino vinham, portanto, direto pra mim. Era um orgulho me deliciar com os textos dele e poder publicá-los.

Até que… um belo dia, pra adequar a crônica dele ao espaço pré-definido, editei e cortei algumas palavras. A resposta veio rápida e fulminante, no mesmo dia da publicação: chega um envelopinho com a indefectível rubrica, mas dessa vez endereçado ao “editor de opinião”. Não me lembro do conteúdo, mas era uma bela de uma reprimenda, um puxão de orelha brabo. Com toda elegância e educação — outras características marcantes –, o dr. Altino acabou me dando uma aula de como não editar um texto. Me lembro, porém, de como se despediu de mim na cartinha, desejando-me “amplexos anfíbios”. Eu desconhecia aquela expressão metafórica e meio enigmática, mas logo entendi o que significava: gentleman que era, o dr. Altino me deu um tapa com luva de pelica. De certa maneira, me senti lisonjeado por ter sido repreendido com tanta elegância.

Valeu, Senhor São José!