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De um quase-lugar, num instante qualquer.

Ver, ouvir, escutar, sentir, ser, estar. Dialogar. Viver.
Substantivos-verbos que exigem que sejam conjugados e compartilhados e alimentados. Com quem?
O senhor mire e veja: com o mundo, com o ser-tão.
Não tenho tenência pra tanta demência. Mas o mundo é assim — esquenta e esfria, só quer da gente é coragem.
Esse vir-a-ser-tão urge!
Meu clamor a Deus é saber-poder atender a esse chamado-imperativo, e quisera ter a demência dos loucos temulentos, azuis e claros, incapazes do mal — mas sempre tementes ao tal.
E qual.
Escrever uma carta, na porta do boteco? Posso, se me permite — eu cá não incomodo ninguém. Só ao botequeiro peço, solicito, duas folhas de caderno e uma caneta, ao que ele, presto, me dá uma prancheta.
E conta que, no bairro, não há tanto tempo, os correios não acudiam. Toda correspondência chegava ao boteco, onde os viventes vinham buscar. E onde, inesperado, um iletrado um dia pediu ao moleque, filho do botequeiro, que lhe escrevesse uma carta.
Ditou-a, tintim por tintim, e postou notícias à família, a qual estimava, e muito.
Daí pro povo se achegar à ideia, foi um pá! Dia sim, outro também, acorriam as gentes aos préstimos do escritor-mirim, paciente — e segredoso como o sacerdote ao ouvir as confissões dos pecadores.
O senhor dirá que parece roteiro de filme. E é.
É tão real quanto o surreal que planta dúvidas e atrapalhamentos na nossa humilde existência, carente mas dependente dessa sempiterna (sempre quis usar essa palavra — grato, mademoiselle Yourcenar!) lógica que nos foge, exígua, intocável.
Fico aqui, sem conclusão — conclusão não há. Meu viver é duvidar, certeza não tenho nenhuma. Nem quero.
Talvez só mesmo o ser-tão pra aliviar, pra um acalento nesse sobre-viver.
Ah! Mas que se saiba: tenho rancor nenhum, de nenhuns, e quero o bem de todos — um bem que me faz bem e me agrada, muitão!
Meu viver não é de graça, é graça. Que me impõe a responsabilidade de retribuir.
Sigo o caminho. A travessia.


p.s.:
escrito à mão, numa batida só, sem edição.